São Paulo - Ao saírem da danceteria GLS Tunnel, na madrugada de anteontem, Gilberto Tranquilino da Silva sugeriu ao amigo Robson Oliveira de Lima, em tom de brincadeira, que fossem embora de táxi para não apanhar na Avenida Paulista. Mas, pouco depois, enquanto andavam abraçados, foram abordados e um deles acabou espancado. A região central de São Paulo, que inclui a Paulista, é a que mais concentra ataques homofóbicos, conforme estudo inédito obtido pela reportagem.
Após novo ataque, a Polícia Militar promete agora reforçar o policiamento na área. A Prefeitura também estuda medidas para a área, com base em um trabalho de georreferenciamento que deve ficar pronto neste mês. O estudo foi realizado com base nas 316 denúncias recebidas pelo Centro de Combate à Homofobia da Coordenadoria de Diversidade Sexual (Cads) entre julho de 2006 e dezembro de 2009.
Divididos também por tipos de agressão, os números revelam que 248 casos foram de violência simbólica (sem ataque físico). Desses, 20% foram cometidos em âmbito doméstico, 58% em público e 22% no trabalho. Nas 50 situações de violência física, 20% são em casa, 2% no trabalho e 78% no espaço público. Conforme o perfil levantado, as vítimas normalmente têm entre 25 e 39 anos.
São Paulo ainda registra casos que se assemelham ao filme “O Segredo de Brokeback Mountain”. Ex-presidente da Associação da Parada Gay, o transexual Alexandre Peixe tinha 15 anos quando foi espancado por 20 homens em uma casa noturna. “Eles me diziam que se eu quisesse virar homem, deveria apanhar como um.” Peixe lembra que foi considerado culpado pelos policiais que o socorreram e ainda levou bronca em casa, por brigar na rua.
Na madrugada de anteontem, os agressores, segundo Silva, eram de cinco a seis jovens, todos com pouco mais de 18 anos. Entre eles havia duas mulheres.
Silva e Lima, ambos de 28 anos, disseram ter deixado a boate, na Rua dos Ingleses, na Bela Vista, por volta das 5 horas. Subiram a Avenida Brigadeiro Luís Antônio e chegaram à Paulista. Como Lima andava com dificuldade, por estar bêbado, Silva o abraçou para ajudá-lo a andar.
Perto da entrada da Estação Brigadeiro do Metrô, os amigos se depararam com o grupo de jovens, que vinha na direção oposta. “Eles gritaram: ‘desgruda, desgruda!’”, contou Silva. “A gente se separou e seguimos em frente. Eles passaram e, depois, nos empurraram. O Gilberto caiu e um deles começou a dar socos e chutes nele.”
Os jovens vestiam camiseta preta e bermuda jeans e usavam correntes prateadas. O cabelo das mulheres era curto e o do principal agressor, espetado e com luzes. Já Lima disse se recordar apenas que dois dos integrantes do grupo eram carecas e estariam de coturno. A Polícia Civil deveria iniciar ainda ontem a investigação do caso e ouvir os dois amigos.