Na semana do Natal foi exibida, nas principais emissoras de televisão, uma triste cena que mostrou uma briga no metrô de São Paulo. A briga ocorreu devido a um desentendimento entre uma jovem que ocupava os assentos preferenciais do trem e outra mulher que pedia que ela cedesse o lugar. Como isso não ocorreu a jovem foi arrancada do lugar na marra, em meio à tapas e puxões de cabelo.
O ingrediente assustador desse episódio é que a agressão teve grande apoio dos outros usuários do metrô, que gritavam, instigavam e aplaudiam a agressora. E também os comentários que ouvimos dos telespectadores no dia seguinte, defendendo a atitude violenta, causaram grande estranheza.
Mas e aquele papo de que o nosso direito termina onde começa o direito do próximo?
Ok, a jovem errou a não ceder o seu lugar, mas também errou quem a agrediu e errou mais ainda quem gostou e achou correto. Deus do céu, será que em pleno século 21 ainda vamos ter que conviver com agressões gratuitas e violência exacerbada? Imaginem se todas as pessoas que fossem contrariadas saíssem dando tabefes nos outros! Seria, no mínimo, estúpido.
Outro fato triste é que em nenhum momento foi visto uma única pessoa dentro daquele vagão que se propusesse a chamar um responsável pelo trem para tentar convencer a moça a ceder o seu lugar. Pior. Ninguém, ab-solutamente ninguém, teve peito de resolver o problema e ceder o seu lugar normal para quem precisava! A tenebrosa mania brasileira do “ema ema ema”.
Infelizmente, a tal da ‘moral e bons costumes’, no íntimo de grande parte das pessoas, é efêmera. O conceito de cidadania e vida em sociedade é quebrado por alguns, extrapolado por tantos... e pouco a pouco vamos nos esquecendo que um código tácito existe, sim. E isso aconteceu justamente na semana do Natal, na qual esses conceitos deveriam estar reforçados dentro de todos nós. Mas não, o Natal não é mais um paradigma de bondade e respeito mútuo. Isso acabou! A lhaneza acabou!
Será que conseguiremos, algum dia, alcançar o nível mínimo de educação que faz de um país uma nação? Será que a simplicidade vista nas pequenas cidades, onde pessoas se cumprimentam mesmo sem se conhecer, poderá alcançar o âmbito das metrópoles?
Enquanto nossa ética não entrar em um processo salutar nossa ideia de sociedade será pífia, a política da “justiça com as próprias mãos” nos fará cada vez mais tolos e o espírito do Natal não brilhará com tanta intensidade em nossos corações.
O autor, Otavio Augusto Amaral de Calmon Borges, é professor e servidor público municipal