O fim de 2010 representou também o final da primeira década do novo milênio. Foram dez anos turbulentos. O ataque de 11 de setembro de 2001 mudou para sempre a face dos conflitos humanos. Nunca nenhum país jamais se atreveu a lançar uma bomba contra o território continental norte-americano. Precisou surgir um obscuro árabe saudita chamado Bin Laden para operar esse estrago. Junto com as Torres Gêmeas caiu também a primazia de Wall Street em ditar as regras no mundo das finanças. Foram varridos do mapa alguns ícones do capitalismo, como o Banco Lehman Brothers. A face positiva do decênio foi a ace-leração das plataformas multimídias. As conseqüências sociais e econômicas desse processo são perceptíveis aos cidadãos de qualquer parte do mundo. Aqui mesmo em Bauru temos mais celulares do que habitantes. Em qualquer parte que se vá topamos com pessoas em reações esquizofrênicas com o seu aparelho. Nas ruas andam como zumbis a dedilhar seus smartphones. Em 2010, um em cada quatro indivíduos do planeta encontrava-se plugado na internet. Twiter e Facebook tornaram-se ferramentas corriqueiras.
O progresso tecnológico dos últimos dez anos foi maior que os avanços científicos somados, desde o advento da roda. Se estivesse vivo, Antonio Gramsci diria que o velho ainda não morreu e o novo tampouco nasceu. As décadas vão se fundir num torvelinho de invenções, para o bem e também para o mal. Consulto a Wikipédia a procura de dados para este artigo, sem parar o meu trabalho. A enciclopédia colaborativa online tem 12 vezes mais verbetes que a Enciclopédia Britânica, com menor número de erros.
O mundo é cada vez mais dinâmico. Para acompanhar essa evolução o Brasil precisa de cérebros para receber e também para produzir conhecimentos. Cabeça pensante só se obtém com boas escolas e condições dignas de vida para todos. É verdade que o ano 2010 foi bom para grande parte da população brasileira. As perdas com a crise econômica mundial foram recuperadas; o país baixou o índice de desemprego ao melhor nível histórico. Quase 60 milhões de eleitores elegeram a primeira mulher presidente da República, muito embora Lula atribua esta eleição a uma escolha pessoal. Agora, novos desafios nos aguardam: ratificar os avanços obtidos e melhorar, em muito, a educação, a saúde, a infraestrutura e a segurança pública nas cidades grandes. Mais uma vez, a voz forte da sociedade haverá de sair em defesa de medidas concretas para promover a ética e a moralidade na administração pública que, ao longo do tempo tem sido símbolo da corrupção e do descaso. Os bons resultados da nação brasileira resultam, majoritariamente, da capacidade do nosso povo e da conjuntura do mercado externo. Como observou o ex-ministro Delfin Neto, "o nível do mar subiu e o navio subiu junto". Lula pensa que foi ele quem criou a maré-cheia. Mas não importa. Ninguém de boa-fé pode negar os seus méritos. Pode-se criticá-lo por suas excentricidades, pelos autoelogios nas pajelanças das inaugurações. O governo de Lula beneficiou a maioria da população, nela inclusos os pobres secularmente esquecidos, e os ricos eternamente beneficiados. E qual o problema se um banqueiro lucrar mais, desde que o bancário também se beneficie? O governo ontem instalado tem a responsabilidade não só de dar continuidade ao que Lula fez. Dilma herda um país melhor. Fernando Henrique também entregou a Lula um Brasil dentro dos trilhos. FHC recebeu de Itamar Franco um legado mais leve do que aquele deixado por Fernando Collor. Assim caminha a humanidade. Cada um faz a sua parte. Dilma terá que ficar atenta à aceleração dos gastos púbicos; à dívida interna na casa do 1 trilhão e 600 bilhões de reais. A inflação está à espreita. O progresso econômico está longe de se consolidar. A participação do Brasil no Produto Interno Bruto (PIB) mundial caiu de 3,1 para 2,9% na era Lula. O peso do país no comércio global está pouco acima de 1%. Fazemos parte dos Brics, mas crescemos muito menos do que a Índia, a Rússia e a China. O desempenho dos nossos escolares em interpretação de texto, matemática e ciências é igual aos dos países da África subsaariana.
Méritos para ex-metalúrgico com apenas o curso profissionalizante. O menino que um dia passou fome pela absoluta falta de ter o que comer; o cidadão que perdeu o filho e a esposa no parto por amargar a fila do INPS chegou à Presidência da República. Uma exceção no país dos bacharéis, desde a sua descoberta. Luiz Ignácio Lula da Silva passa para a história, que dará a ele o lugar que merece.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC