Polícia

Polícia Civil fecha fábrica de espoleta

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 5 min


Após dois meses de investigações, a Polícia Civil interditou, ontem, uma fábrica clandestina de espoletas instalada em uma chácara próxima ao Parque Santa Cândida, em Bauru. No local, foram apreendidos mais de 15 mil dispositivos, que seriam utilizados para a recarga de munições de armas de fogo. O proprietário do estabelecimento, Celso Luís Phelippe, 56 anos, foi preso em flagrante e responderá inquérito por reciclagem de substância explosiva.

Ele foi enquadrado neste tipo de crime porque comprava, ilegalmente, espoletas para armas de caça fabricadas pela Companhia Brasileira de Cartuchos (CBC) e delas retirava o pó químico (fulminato) para fabricar novos dispositivos. Estes seriam utilizados em munições de revólveres calibre 38 e pistolas calibre 380.

Por depender deste pó químico, o ritmo de produção da fábrica, de acordo com Phelippe, era irregular e se dava de acordo com a quantidade de matéria-prima - as espoletas da CBC ? que ele conseguia adquirir a cada mês. Parte delas era vendida a ele por fornecedores do Paraguai.

"Conseguia comprar de algumas lojas no Brasil, mas também de pessoas que viajam ao Paraguai, país onde há livre comércio. Cada caixa vem com 20 mil espoletas para arma de caça, que não são muito usadas no Brasil. Então, a gente desmanchava e produzia as espoletas de menor calibre, que são mais procuradas", revelou à reportagem do JC, com exclusividade.

A polícia, no entanto, ainda investigará a identidade das pessoas que forneciam as espoletas originais a Phelippe, bem como os compradores dos dispositivos que ele fabricava. Inicialmente, Phelippe informou que o componente feito por ele era destinado a clubes de tiro esportivo e empresas de segurança do Estado de São Paulo e também da Bahia.

A fábrica que ele gerenciava não era registrada e funcionava ilegalmente há quatro anos em um galpão de uma propriedade rural localizada na antiga estrada do rio Batalha, ao lado do Jardim Santa Cândida. Protegida por muros e portões de mais de quatro metros de altura, o estabelecimento contava com três funcionários, que recebiam, por dia de trabalho, R$ 25,00. Todos eles eram maiores de idade, mas não possuíam registro em carteira.

Segundo informou o proprietário, cada embalagem com mil espoletas era vendida por R$ 120,00 e rendia lucro líquido de R$ 20,00. Se o valor for correto, os 15 mil dispositivos encontrados pela polícia são uma parcela ínfima do volume que Phelippe comercializava a cada mês, já que a fábrica era sua única fonte de renda. Por meio dela, ele mantinha a esposa, duas filhas e uma propriedade rural ampla, com piscina, edícula e área de convivência coberta, com churrasqueira.

De acordo com a polícia, Phelippe possuía um certificado de registro do Exército Brasileiro que o autorizava a produzir recarga para munição, mas apenas para uso próprio, em pequena quantidade. Ele mesmo reconheceu, ao conceder entrevista ao JC, que sua atividade era irregular.

Embora produzisse o dispositivo em grande quantidade, a fabricação ocorria de maneira rudimentar, sem obedecer a nenhuma norma de segurança. Como o pó químico utilizado é extremamente explosivo, o risco de ocorrer acidentes era grande, conforme salientou o delegado Roberval Fabbro, assistente da Delegacia Seccional.

"Aquele pó tem de ser manuseado em uma temperatura de até 10ºC. Mas o galpão era coberto por telhas de fribroamianto, num lugar quente. Os funcionários não utilizavam nenhum equipamento de segurança. O risco de ocorrer explosões era grande", frisa.

Investigação

Os trabalhos de investigação foram realizados pelo Centro de Inteligência Policial (CPI) da Delegacia Seccional de Bauru, com apoio da Delegacia de Investigações Gerais e do Grupo Armado de Repressão a Roubos e Assaltos (Garra). Com um mandado de busca e apreensão, as equipes foram ao local e apreenderam todas as máquinas, mercadorias e matérias primas utilizadas na fabricação das espoletas. O galpão foi lacrado.

Preso em flagrante, o proprietário Celso Luís Phelippe, 56 anos, foi encaminhado à Cadeia Pública de Duartina, de onde deverá ser transferido, posteriormente, ao Centro de Detenção Provisória (CDP). Se condenado, ele poderá cumprir pena de até seis anos de reclusão pelo crime de reciclagem de substância explosiva.

Montagem em série

Dentro do galpão onde funcionava a fábrica clandestina, as espoletas eram fabricadas em série. Em uma prensa motorizada, eram cortados e moldados os corpos da espoleta, recipientes produzidos a partir de uma tira de latão amarelo. Eles eram encaixados em placas com pequenos orifícios e seguia-se a montagem: primeiro, era adicionado o fulminato, depois um círculo de papel que isolava este pó químico e, por último, a bigorna, também feita em latão.

A bigorna é o dispositivo em metal que faz contato com a pólvora. Quando o gatilho da arma de fogo é acionado, o pó dentro do corpo da espoleta é comprimido e entra em combustão, formando gases que detonam a pólvora dentro da cápsula da munição. Com a explosão da pólvora, o projétil na ponta da cápsula é expelido em alta velocidade.

Explosão

Celso Luís Phelippe, 56 anos, proprietário da fábrica clandestina de espoletas fechada ontem pela polícia, já respondeu inquérito por irregularidades no manuseio de substâncias explosivas. Em abril de 2006, uma explosão foi registrada na residência em que ele morava à época, no Jardim Bela Vista. Uma pessoa ficou ferida sem gravidade. Ninguém foi preso.

De acordo com Phelippe, um conhecido estaria manuseando pólvora para recarregar cápsulas de arma de fogo. "Mas não era uma fábrica, eu fazia recarga só para o meu uso. Foi um rapaz que estava junto comigo que se feriu, mas não foi nada grave, só machucou a mão", afirmou.

Segundo o delegado Roberval Fabbro, assistente da Delegacia Seccional, o fulminato utilizado na fábrica interditada ontem é infinitamente mais explosivo ? e, portanto, mais perigoso - do que a pólvora que gerou a explosão quase cinco anos atrás.

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