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Cana-de-açúcar, capitalismo e o nosso meio ambiente

Jeferson Miranda
| Tempo de leitura: 3 min
Iniciamos mais um ano atônitos diante da violência da natureza. A atualidade é marcada como um período em que as preocupações ambientais tornaram-se motivo de amplas discussões em todos os setores da sociedade. A humanidade desde seu surgimento vem alterando o espaço geográfico diante de suas necessidades civilizatórias. As transformações do meio físico provocadas pelo homem, bem como a busca contínua pelo domínio da natureza, acabou por caracterizar o que hoje chamamos de espaço humanizado. Essas interferências ao longo da história são as grandes responsáveis pelas preocupações ambientais discutidas hoje. Segundo Karl Polanyi a partir do século XVIII o capitalismo introduziu ainda outra inovação, que mudaria profundamente a forma como as pessoas se relacionavam com a natureza em geral: ele criou, pela primeira vez na história, um mercado geral de terras. As implicações ambientais de tal mudança mental estão além do cálculo fácil, mas podemos afirmar que a Revolução Industrial potencializou as transformações do homem sobre a natureza e em tão pouco tempo estamos vivendo o colapso dos sistemas biogeográficos. As modificações na paisagem natural estão intimamente ligadas ao relacionamento que o homem mantém com a terra. Neste sentido o caráter mercantil que a produção agrícola ganha a partir do que Polany define como "a grande transformação", passou a determinar a forma de como o homem se relaciona com sua comunidade, o outro, e também como o homem interfere no meio ambiente, a Terra. Destarte não podemos pensar a monocultura sem levar em consideração essa reflexão. O que leva imensas partes do território brasileiro a ser ocupado por uma única cultura não é a preocupação com a sociedade e muito menos com o meio ambiente. O valor econômico rege e controla as decisões sobre como se dá utilização dos recursos naturais. Assim a produção canavieira brasileira tem ocasionado degradação do meio ambiente desde a época do Brasil colonial, quando imensas áreas de floresta tropical Atlântica foram derrubadas para a construção dos engenhos de açúcar e hoje quando a lavoura se expande por grande parte das terras paulistas. As alterações climáticas estão se tornando mais evidentes e a resposta mais utilizada ao fenômeno é o "Aquecimento Global". Quando as modificações climáticas são vistas de uma maneira mais regionalizada, é possível perceber que fatores locais exercem tanta ou maior influência sobre o micro-clima regional que o próprio aquecimento global. As monoculturas canavieiras podem ser apontadas como um dos fatores desencadeantes destas modificações climáticas regionais. Principalmente no que diz respeito às suas queimadas durante as épocas de colheita, que sob todos os aspectos, acabam por intervir na dinâmica climática da área em que se encontra bem como no seu entorno. Outras implicações ambientais podem ser apontadas, os danos a terra, a contaminação dos lençóis freáticos e os problemas de saúde correlacionados a aspiração das substâncias aerossóis que impregnam o ar das regiões onde ocorrem a queimadas. Não se quer aqui fazer um julgamento político ou conservacionista, mas sim uma reflexão sobre as metas de desenvolvimento sustentável para nossa região. Busca-se um discurso de réplica ao que ideologicamente tem se tentado incutir no imaginário popular sobre as maravilhas que o etanol representa para o meio ambiente e do quanto nosso país é agente transformador do futuro sustentável do planeta. Assim quem sabe no futuro passemos a deixar de ficar espantados com as reações da natureza contra as nossas agressões e possamos evitar de aparecer nos noticiários de catástrofes tão comuns em início de ano. (O autor, Jeferson Miranda, é professor da área de Ciências Humanas, na Faculdade Anhanguera de Bauru)

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