Para valorizar um produto ou técnica afirma-se que "cientificamente é comprovado" e em um passe de mágica acredita-se nos seus efeitos.
A ciência busca constantemente a verdade, uma verdade técnica, mensurada e reproduzível em qualquer parte da terra. Um produto para ter eficácia cientificamente comprovada precisa: 1. Publicar os resultados em um veículo de grande impacto e 2. oferecer descrição detalhada dos experimentos para que qualquer pesquisador, sob as mesma condições, possa reproduzir
os resultados e comprovar o conhecimento gerado.
A expressão" cientificamente comprovado" é muito forte, mas muito explorada comercialmente, às vezes indevidamente. Se no rótulo ou propaganda está escrito "cientificamente comprovado" se deve perguntar: quem testou e onde foi publicado? Foram cientistas independentes ou pagos pelo fabricante? Ou então é propaganda enganosa.
A pele representa o revestimento externo do corpo e sua camada mais superficial de queratina, uma proteína muito resistente, ajuda isolar nosso meio interno do externo. Ela é produzida por um tecido com 20 camadas superpostas como um verdadeiro piso de 20 "tijolos" ou células e recebe o nome de epitélio. Logo abaixo temos o tecido conjuntivo, ou como alguns o chamam de carne
viva, vermelha e macia para preencher os espaços entre os vasos, nervos e órgãos.
Na piscina, no banho ou quando o vento bate forte, podemos ver como é difícil algo penetrar em nossa pele. Os cremes, loções, pomadas e géis precisam de muito tempo e repetição para penetrar um pouco e atuar na pele. Não dá para imaginar uma substância em creme passado no corpo por 6 semanas possa aumentar a produção e o armazenamento de gordura nas células da mama, conhecidas como adipócitos, para levantar os seios de forma espetacular e aumentá-los em mais de 4cm, subindo um número no sutiã da mulher.
Uma empresa promete "levantar" os seios em propagandas dizendo que "testou" o produto em 37 voluntárias e as medidas foram feitas com fita métrica. Este foi o "método científico" para que o referido creme fosse autorizado a entrar no mercado. Na descrição das voluntárias, os seios ficavam com a pele mais firme.
Haveria aumento do tamanho e do número dos adipócitos. A parte gordurosa dos seios fica profundamente localizada na hipoderme e dificilmente o creme chegaria lá. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) alerta publicamente que o creme Ferodelle não atua no aumento real dos seios e muito menos no seu levantamento. O produto foi registrado em outubro de 2010 e lançado no Brasil na semana passada pela Quadrifarma, mas é produzido pela Lamy Química.
Para a Anvisa, o creme testado pela empresa mostrou apenas que a pele fica mais firme e hidratada, mas não foi mostrado que aumenta ou levanta os seios como diz a maciça propaganda.
O princípio ativo é um extrato da planta asiática Commiphora mukul ou comiferolina, também comercializado nas farmácias de manipulação.
Assim que for notificada pela Anvisa, a empresa terá 5 dias úteis para redirecionar a publicidade ou pode ser multada em até R$ 1,5 milhão.
Existem outros "cremes" semelhantes que prometem levantar os seios em até 18% e estão no mercado brasileiro há alguns meses, como o creme Bust Serum da fabricante Talika.
Ele promete melhorar a flacidez e dar melhor forma aos seios. Para a Anvisa, estes produtos devem ser comercializados como cosmético e não como medicamento para aumentar o volume ou levantar os seios. Os cosméticos são definidos como produtos que não apresentam finalidade terapêutica e nem alteram a fisiologia corporal.
Volume e forma dos seios são ditados principalmente pelos hormônios, como os envolvidos no ciclo menstrual.
Estas alterações induzidas pelos hormônios afetam o tecido glandular e não o tecido gorduroso. A gordura pode ocupar espaço, aumentar, mas é uma massa flácida que não preservaria a posição elevada dos seios. No corpo, o tecido gorduroso serve para preencher espaços e armazenar produtos como reserva nutritiva, mas não tem a função de sustentação como o tecido conjuntivo,
ossos, cartilagens, músculos e tendões.
Eis mais um exemplo de que ter consciência sobre a ciência ajuda a sociedade distinguir uma propaganda enganosa.
A Anvisa tem a missão de proteger esta mesma sociedade de produtos enganosos, controlando a sua entrada no mercado apenas após os testes científicos verdadeiros, mas desta vez ela foi ludibriada!
Alberto Consolaro é professor titular da USP - Bauru. Escreve todas as segundas- feiras no JC. E-mail:consolaro@uol.com.br