Um plano de roubo elaborado, ousado, bem arquitetado e digno de produções cinematográficas norte-americanas. Foi isso que, com muita sorte, a polícia desativou na tarde de ontem em Bauru.
Após a realização de um serviço de reparo no asfalto pela prefeitura, foi localizado um túnel de aproximadamente 30 metros na quadra 3 da Nações Unidas, uma das principais avenidas da cidade. A escavação partia de uma galeria subterrânea e tinha um destino certo: o prédio da empresa de segurança e transporte de valores Protege.
O túnel foi localizado por volta das 14h20 na Nações Unidas, perto do Terminal Rodoviário. Tendo como início o canteiro central, a escavação atravessava totalmente a via no sentido Rodoviária-Centro e terminava bem embaixo da empresa de valores.
Por ironia, foram exatamente os buracos e as chuvas, dois grandes problemas de Bauru, que apontaram o túnel. O local foi descoberto após a realização de um serviço de reparo da prefeitura em um trecho de asfalto que cedeu justamente pela inusitada construção subterrânea. Ao cavar para descobrir o motivo do problema, foi encontrada tal passagem criminosa.
O túnel começava bem em frente à empresa Protege, que movimenta grandes quantias em dinheiro diariamente. Sob o canteiro central da avenida, existe, por uma longa extensão da Nações Unidas, uma galeria que leva a água do Ribeirão das Flores até o rio Bauru.
Os bandidos utilizaram essa galeria para chegar ao local de forma subterrânea, visto que ela tem muitos acessos e um diâmetro grande. Nela, quando se posicionaram em frente ao alvo, arrombaram a parede e começaram a cavar sob a avenida em direção à empresa.
O túnel que estava a aproximadamente 2,5 metros de profundidade foi alicerçado com vários pedaços de madeira tanto na parte inferior quanto superior. Ao serem retiradas, a qualidade das tábuas e os grandes parafusos utilizados davam indícios de que a obra foi feita com base profissional.
Com diâmetro de aproximadamente 80 centímetros, o túnel estava repleto de materiais de construção, como cordas, pás e até mesmo um tubo (duto) utilizado para ventilação. Também havia lâmpadas e fiação. Com uma espécie de caçamba, também apreendida, a polícia suspeita que os assaltantes utilizaram a própria água que corre na galeria em direção ao rio Bauru para se livrar da terra que foi retirada do local.
Sob o prédio
Logo após a descoberta, ainda havia o medo de que alguém estivesse no túnel. Hipótese descartada após uma varredura dos policiais. Com uma máquina escavadeira, funcionários da prefeitura municipal "abriram" a avenida e deixaram o túnel exposto.
Após quase quatro horas de trabalhos intensos, descobriu-se que o plano bem elaborado já estava praticamente concluído. Primeiro, suspeitava-se que eles tinham chegado até as proximidades do alvo, porém, ao fim das escavações verificou-se que o túnel já estava bem abaixo da empresa. Segundo o que a reportagem apurou, os bandidos construíram uma salão oval de aproximadamente 10 metros sob o prédio da Protege. O ponto, que será explorado hoje, seria provavelmente onde eles subiriam para efetuar o roubo à empresa. Há a hipótese de que seriam utilizados explosivos para a invasão ao prédio.
Sob os olhares de todos
A descoberta do túnel deixou perplexa e surpresa a população, que lotou o local e questionou como uma "obra" desse porte pôde ser feita em uma das mais importantes avenidas da cidade sem que qualquer pessoa tivesse notado a ação.
O primeiro ponto de êxito na discrição dos bandidos foram as múltiplas entradas de acesso para a galeria. Além de uma boca de lobo existente bem ao lado do local onde o túnel começou, há outras entradas, como no viaduto na quadra seguinte.
Entretanto, a polícia suspeita que a provável entrada seja outra, localizada exatamente no rio Bauru, na avenida Nuno de Assis e a cerca de 600 metros do túnel. O local de baixo movimento e com bastante vegetação seria propício à entrada dos ladrões sem que fossem avistados.
A partir desse ponto, os bandidos tiveram tempo e tranquilidade para trabalhar. Apesar de, segundo suspeitas da polícia, terem agido provavelmente durante a noite, a distância das obras em relação à superfície ? cerca de 2,5 metros ? e o barulho da movimentação de carros poderiam ter camuflado a ação.
Fato mobiliza polícias Civil e Militar
A descoberta do túnel mobilizou grande parte da força policial. Tanto a Polícia Civil quanto a Militar foram enviaram inúmeras viaturas e homens ao local para iniciar as investigações e averiguar o ocorrido. Imediatamente após a confirmação do fato, alguns policiais patrulharam a região em busca de prováveis suspeitos, porém não obtiveram êxito.
Mesmo confirmando que não havia qualquer pessoa no túnel, o clima continuou tenso. Um homem que estava de óculos escuro chegou em uma bicicleta e ficou fotografando a passagem. Por considerar a atitude suspeita, os policiais o abordaram. Entretanto, ao apresentar os documentos pessoais, o homem foi apenas averiguado e liberado em seguida.
Túnel foi descoberto ao acaso
Por uma extrema ironia, um dos grandes problemas que vem atormentando a população de Bauru foi decisivo para que o túnel fosse localizado e, assim, o crime não ocorresse. Foi exatamente um buraco na avenida Nações Unidas que revelou o trabalho dos assaltantes.
O local estava parcialmente interditado desde ontem, quando o chão começou a ceder. Com isso, equipes de obras da prefeitura vieram fazer o reparo e localizaram a passagem.
"Viemos consertar esse buraco e procurar o motivo da infiltração. Cavamos e não encontramos nada logo abaixo (do buraco). Então, começamos a ir em direção ao canteiro central e localizamos esse túnel", conta o funcionário de obras da prefeitura Luzenaldo Soares da Costa, 59 anos.
Cláudio da Silva, diretor da Divisão de Drenagens da Secretaria de Obras, explica que o chão começou a ceder exatamente devido aos trabalhos realizados pelos bandidos. "No buraco que eles abriram entre a galeria e o começo da escavação, eles colocaram uma chapa de aço para que a água da chuva não entrasse no túnel e estragasse o que tinham feito. Com isso, quando choveu, a água subiu e infiltrou, fazendo com que o chão cedesse e aparecesse o buraco que viemos consertar", explica.
De acordo com tal explicação, é possível perceber que, além dos buracos, outra grande "inimiga" de Bauru ajudou na descoberta do túnel: a chuva.
O diretor da divisão ainda conta que a ideia inicial era apenas reparar o buraco no asfalto, porém, eles quiseram descobrir o motivo do problema. "Sorte que fomos verificar o motivo da infiltração. Se tivéssemos somente consertado sem procurar a origem, ninguém notaria o túnel", finaliza.