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Justiça autoriza cirurgia cara e encerra drama de 7 anos de dor

Vinícius Lousada
| Tempo de leitura: 7 min

Uma cirurgia de alto custo, alta complexidade e inédita em Bauru foi realizada por neurocirurgiões do Hospital de Base (HB) na última segunda-feira. Após sete anos de dores constantes nas pernas, Joaquim Andrade, 60 anos, conseguiu, mediante determinação da Justiça, ter implantado um aparelho que, semelhante a um marcapasso, emite estímulos elétricos. Esses estímulos, regulam o funcionamento do sistema nervoso, o que leva a diminuição ou extinção da dor que ele sentia há sete anos, desde que levou um tiro na região lombar.

Por conta do alto custo, esse tipo de cirurgia é realizada pelo Sistema Único de Saúde (SUS) apenas mediante a decisões judiciais. Joaquim sentia dor crônica nas pernas, 24 horas por dia, e não apresentava reação aos medicamentos ministrados.

Após receber diagnóstico médico indicando o implante como a única forma de tratamento eficaz para o combate às suas dores, ele ingressou na Justiça e esperou por dois anos até obter o direito de ser submetido à cirurgia de implante. O aparelho colocado em seu corpo para regular o sistema nervoso custa R$ 50 mil e é fabricado por uma empresa norte-americana. Todo o procedimento foi custeado pela Secretaria do Estado de Saúde.

Segundo Joaquim, que ficou paraplégico depois de tomar um tiro na região lombar há sete anos, a cirurgia marca o início de uma nova fase de sua vida. "Eu sentia uma queimação muito forte nos joelhos das duas pernas e chegava a gritar de dor no meio da rua. Além de morfina, tomava até seis medicamentos diferentes durante o dia, mas nada adiantava", contou.

Poucas horas após ser implantado e ligado, o neuromodulador já apresentava resultados no combate às dores de Joaquim. "Ainda dói um pouco, mas não tem nem comparação! Eu me surpreendi com a velocidade e intensidade da melhora", afirmou.

O processo de recuperação também foi relativamente rápido. Joaquim recebeu alta na manhã de ontem e já está em casa com a esposa e o filho. Nos primeiros dias depois da cirurgia, foi necessário acompanhamento médico para a regulação do aparelho implantado, que é feita a partir de um equipamento semelhante a um palm top.

A bateria do neuromodulador tem vida útil de quatro anos. Após esse período, é preciso trocá-la, o que exige um procedimento cirúrgico simples. Durante esse tempo, a ação do aparelho pode ser regulada pelo palm top através do simples contato com a pele sobre o abdômen do paciente, onde foi implantado o neuromodulador.

Os neurocirurgiões Lauro de Franco Seda Junior e Luis Fabiano Guerreiro Lopes, do Hospital de Base, foram os responsáveis pela cirurgia. "Sem o neuromodulador, a dor do Joaquim seria incurável. Existe a dor aguda, que ataca por um momento e passa. No caso do paciente, ele sofria de dor crônica, constante para ele nos últimos anos", explicou Seda.

Os médicos ressaltam que a cirurgia demanda alta especialidade técnica e é realizada por poucos profissionais no Brasil, inclusive na cidade de São Paulo, de onde ambos vieram. "O procedimento durou cerca de quatro horas e nada é mais gratificante do que, através da medicina, devolver a qualidade de vida a um ser humano", afirmou Lopes.

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Bala perdida


Joaquim Andrade ficou paraplégico há sete anos, quando foi vítima de um tiro, que tinha como alvo seu próprio filho. "Foi por causa de uma briga. Meu filho entrou em casa correndo dos tiros e eu fui atingido", relata.

A bala acertou a região lombar de Joaquim e mudou seu destino. "Ele tem o mínimo de força nas pernas e não consegue andar. No entanto, a dor era o que mais incomodava o paciente e agora podemos dizer que ele está recuperando a qualidade de vida", afirma o neurocirurgião Lauro de Franco Seda Junior.

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Enfim, uma noite inteira de sono


Apesar do aparelho gerador e neuromodeulador ter sido implantado em Joaquim Andrade na última segunda-feira, foi ligado apenas três dias depois por conta dos impactos do procedimento. Então, pela primeira vez, após sete anos, ele conseguiu ter uma boa noite de sono, livre das dores.

Ele não conteve as lágrimas enquanto contava ao JC que já havia se esquecido da sensação de acordar sentindo-se bem. "Tudo era difícil. Eu não conseguia dormir, e, apesar de me alimentar bem, minhas refeições eram sempre interrompidas porque eu não suportava a dor", relatou.

Joaquim comemora por poder, a partir de agora, descansar tranquilamente à sombra da árvore em frente à sua casa. "Nem isso era possível porque a dor atacava de um jeito muito intenso e eu tinha que ser tirado de lá. A sensação de queimação era tão grande, que afetava outras partes do corpo. Até as minhas unhas do pé caíram", afirmou.

Se considerando um novo homem, ele avisa que não quer saber apenas de descanso. Com experiência de já ter trabalho no comércio, Joaquim pretende vender tapetes artesanais que serão confeccionados por ele, depois de anos sem exercer qualquer tipo de atividade. "Vai ser uma forma de o tempo passar, eu me sentir um homem melhor e ainda colaborar com a renda da família", afirmou.

As consequências da dor crônica não atingiam apenas Joaquim, mas toda a sua família e as pessoas ao seu redor, pois fatores como o humor dependem do bem-estar do paciente. Ele acredita, porém, que essa é uma página virada e, com o sonho da cirurgia realizado, chegou a hora de, finalmente, ser feliz.

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Cirurgia levanta auto-estima do HB


De acordo com os médicos neurocirurgiões responsáveis pelo tratamento de Joaquim Andrade, esse tipo de cirurgia, chamada de funcional neurológica, ainda é pouco praticada no País. Luis Fabiano Guerreiro Lopes afirma que existe um centro especializado na área na capital do Estado e que, em parceria com o médico Lauro de Franco Seda Junior, está desenvolvendo projeto técnico para a implantação de um semelhante em Bauru.

Os médicos destacam a importância de uma cirurgia de alta complexidade técnica ser realizada com os custeios bancados pelo SUS, no Hospital de Base (HB). "Isso é fundamental para que a população acredite no poder público e na importância desse hospital", defende Seda.

O HB é mantido pela Associação Hospitalar de Bauru (AHB), que enfrenta crise financeira-administrativa, eclodida em outubro de 2009 com a operação Odontoma, que afastou toda a diretoria da entidade e prendeu seis pessoas (posteriormente liberadas) suspeitas de participar de um esquema de desvio de recursos públicos, superfaturamento e cobranças indevidas de serviços.

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Por dia, Defensoria atende 9 casos de solicitações na área da saúde


A Defensoria Pública de Bauru atende, em média, nove pessoas todos os dias que solicitam judicialmente o recebimento de medicamentos, insumos e procedimentos médicos de alto custo não oferecidos automaticamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Esses dados, porém, não contemplam os casos de pessoas que procuram advogados particulares com esse objetivo.

Alandeson de Jesus Vidal, coordenador regional do Defensoria, informa que quando as pessoas recebem o receituário médico devem procurar a Secretaria Municipal de Saúde, da Prefeitura da cidade, e a Diretoria Regional de Saúde (DRS-6), órgão da Secretaria de Estado de Saúde.

Caso nenhum dos órgãos ofereça o que foi solicitado pelo médico, o paciente deve pedir, então, um documento por escrito informando que aquele remédio, insumo, tratamento ou cirurgia não está disponível. Este documento, então, deve ser apresentado à Defensoria Pública ou a um advogado.

Dessa forma, o defensor ou o advogado vai ingressar na Justiça com mandado de segurança apresentando os motivos para que o poder público forneça os medicamentos, insumos ou providencie os procedimentos médicos necessários sem custos ao paciente.

"Muitas vezes, o cidadão precisa de um remédio que não é fabricado no Brasil ou de uma cirurgia rara, de alto custo, e até mesmo de internações emergenciais. A Justiça tem acatado quase 100% dos pedidos", afirma Alandeson. (VL)


? Serviço


A Defensoria Pública fica na rua Raposo Tavares, 7-08, no Higienópolis. O órgão atende ao público de segunda à sexta-feira, das 8h às 9h30. Os casos urgentes, são recebidos até as 18h. Aos sábados, domingos e feriados, plantonistas atendem no prédio do Fórum, na rua Afonso Pena, 5-40, Bela Vista.


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