Cerca de 30 funcionários do Lar Escola Rafael Maurício que estão com salários atrasados protestaram, ontem pela manhã, em frente à Justiça do Trabalho de Bauru. Eles cobram a liberação dos R$ 142 mil da entidade já bloqueados para que o dinheiro seja usado para quitar a dívida trabalhista.
O Lar Escola Rafael Maurício, entidade de Bauru que atende portadores de deficiência em regime de internato e mantém escola também para portadores de deficiência e projetos sociais, enfrenta uma crise financeira. O quadro de funcionários era composto por 106 pessoas, mas com atraso de salário dos meses de dezembro e janeiro e da segunda parcela do 13º salário, vários trabalhadores pediram demissão. Agora, eles são cerca de 80.
Parte deles está trabalhando mesmo com salários atrasados e enfrentando problemas financeiros. "Não entendemos porque não liberam o dinheiro para pagar os funcionários. Eles alegam que o dinheiro é dos alunos, mas eles precisam dos nossos cuidados", justificou uma funcionária que não quis ser identificada.
A juíza Gisele Pasotti Fernandes Flora Pinto, da 3ª Vara do Trabalho de Bauru, concedeu, no dia 1 de fevereiro, liminar que bloqueia o valor de R$ 142 mil de uma conta poupança da entidade, a pedido do Sindicato dos Empregados em Turismo e Hospitalidade de Bauru e Região (SETHBR), que representa os funcionários do Lar Escola Rafael Maurício. Mas o dinheiro ainda não foi usado para pagar os salários porque a verba seria destinada aos internos da entidade e não poderia ser usada para outra função. A juíza pediu esclarecimentos à direção da entidade, mas até ontem ainda não havia obtido resposta.
No protesto, os funcionários também cobraram transparência na utilização das verbas que a entidade recebe. "Nós queremos uma posição. Temos contas a pagar e muitos aqui estão até passando necessidades em casa porque não têm dinheiro para comprar comida", conta uma professora.
Em recente entrevista ao JC, o presidente da Comissão Especial de Reestruturação do Lar Escola Rafael Maurício, Carlos Roberto Pittoli, afirmou que faltou planejamento após a entidade perder receita por deixar de realizar um procedimento pelo SUS. "Era de conhecimento que contávamos com aquele dinheiro por conta de uma liminar que poderia cair a qualquer momento. Entre 2004 e 2010, era fundamental que parte do dinheiro fosse poupado para que a crise não chegasse aonde chegou", afirmou na entrevista.
"Nós só estamos trabalhado por amor às crianças que precisam dos nossos cuidados. Hoje nós estamos atendendo 49 internos que precisam de cuidados especiais 24 horas com enfermeiro, psicólogo já que possuem deficiências de leve a moderada. Além deles tem mais 100 estudantes especiais além de mais 270 crianças especiais que frequentam o nosso projeto social. A entidade está abandonada. As crianças brincam em meio ao mato alto. É um absurdo. A situação já virou calamidade", criticou uma professora.
Quem estava cuidando dos alunos na data de ontem eram um jardineiro, uma enfermeira, uma psicóloga e uma assistente social. "Nós queremos que eles sintam como a entidade fica sem o nosso trabalho. Isso não é uma greve, nós estamos faltando mesmo. Nós amamos as crianças, mas não podemos ficar sem salário. Também temos os nossos compromissos financeiros. Queremos uma posição definitiva das autoridades. Chega dessa história de não ter previsão", disse outra funcionária.
Alimentação
De acordo com os funcionários, a alimentação dos alunos internados já está perdendo em qualidade e estão faltando produtos de limpeza. Segundo eles, aos domingos o almoço era sempre especial. Macarronada farta, maionese e frango assado. No último domingo, eles contam que só havia arroz e macarrão.
O produto de limpeza que ainda resta é soda. Uma das funcionárias mostrou as mãos com machucados entre os dedos que, segundo ela, são fruto do uso do produto na limpeza sem luvas, que acabaram.
A entidade está sobrevivendo às custas de doações que, por bondade da população, não param de chegar. Uma cozinheira conta que na tarde de anteontem chegaram doações de carne. Mas não havia fósforo para acender o fogão. As funcionárias levam palitos de fósforo das próprias casas para conseguir cozinhar.