A ilha já era conhecida pelos navegantes, aventureiros e piratas, muito antes de Martim Afonso de Souza fundar a primeira cidade brasileira: São Vicente. Uma lenda diz que há uma gruta natural na ilha Porchat, na qual os piratas escondiam tesouros ("Histórias e Lendas de S. Vicente", jornal "A Tribuna", Santos, 17/9/1995). Em 1956 fomos a pé pela praia até a ilha Porchat. Eu (15 anos) e Gilberto Anastácio Nogueira (16 anos). Queríamos achar a gruta, cuja entrada só se faz pelas pedras que rodeiam a ilha, na maré baixa. Usávamos só sungas. Iniciamos o trajeto através das pedras. Certo trecho ficou difícil prosseguir. Em terra firme não acharíamos a entrada da gruta. Amarrei uma corda na cintura de meu amigo e segurei na outra ponta. Ele foi andando cautelosamente entre as pedras, para não escorregar. Mas veio uma onda. Para poupar meu relógio, que não era à prova de água, soltei instintivamente a corda. A onda carregou meu amigo. Outra onda o trouxe de volta. Desesperadamente agarrei com firmeza o braço direito dele. Seu corpo ficou muito lesionado, por ter sido esfregado inúmeras vezes nas pedras. Os mariscos (habitantes naturais das pedras e grudados nelas) agiram como um fio de navalha. Cortes profundos sangravam e ardiam em contato com a água salgada. Meu amigo foi me xingando sem parar, a pé, até sua casa no bairro do Embaré, em Santos. Em 1959 vim morar em Bauru. Meu pai (oficial do Exército) fora transferido da Fortaleza de Itaipu (Praia Grande) para a 6ª CR (Bauru). Mas continuei visitando Santos (minha terra natal), onde tenho parentes. Nossa amizade persistiu até 12 de janeiro de 2008, quando meu amigo faleceu, aos 67 anos. Não achamos a gruta. Ela está lá, à espera de alguém que a descubra, num dia de maré baixa.
Gilberto Sidney Vieira.
Gilberto Sidney Vieira.