Pesca & Lazer

História de Pescador: Filosofia na pescaria


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Há algum tempo, faleceu um grande amigo meu dos tempos de juventude. Ainda cursando o ginasial do Liceu Noroeste, nós já fazíamos as nossas caçadas e pescarias. Depois de adultos fizemos muitas pescarias no Pantanal e ele dizia, às vezes, que, se pudesse escolher a hora e o local para morrer, seria a maior felicidade morrer no Porto Esperança e ser enterrado no cemitério dali mesmo, embaixo das frondosas árvores, e bem na beiradinha do rio Paraguai.

Estava eu remexendo as fotos antigas e encontrei uma folha que ele me deu há bastante tempo. Eu não sei se as palavras são dele, porém eu estou fazendo questão de repassá-las aos amigos pescadores. O título é: "Testamento de um pescador". Leiam a seguir:

"Pesco porque amo pescar, porque amo o local onde os peixes são encontrados, que são invariavelmente belos, e odeio os locais invariavelmente feios onde se encontram multidões.

"Pesco porque assim fujo dos comerciais de TV, de reuniões sociais, e das falsas atitudes que a comunidade nos impõe! Porque em um mundo onde a maioria dos homens parece passar a vida fazendo coisas que detestam, minha pesca é uma fonte inesgotável de prazer e um pequeno ato de rebeldia, porque os peixes não mentem ou enganam, nem podem ser comprados, subornados ou impressionados pela força do poder, respondendo sempre a quietude, a humildade e a uma infinita paciência.

"Pesco porque suspeito que os homens percorrem este caminho somente uma vez, e não quero desperdiçar minha viagem.

"Porque não existem telefones (na época ainda não tinha o telefone celular) nos rios em que pescamos, porque somente na natureza posso encontrar solidão sem abandono. Porque a bebida que tomo em uma velha caneca à beira de um rio sempre é mais saborosa. E porque, talvez um dia, eu capture uma sereia. E finalmente, não porque eu considere algo tão terrivelmente importante, mas porque suspeito que tantas outras preocupações dos homens sejam igualmente sem importância... E nem de longe divertidas."

Isto foi escrito pelo meu amigo Alcy Lavor, num raro momento de grande inspiração. Eu achei interessante passá-las aos amigos pescadores, pois são muito oportunas.


Flávio Reis é pescador e contador de histórias.

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