Com o tênis ele marcou o esporte de Bauru
Aos 83 anos, muitas e boas histórias não faltam para o eterno tenista de Bauru, Roberto Meira Cardoso. Sorte daqueles que podem sentar-se ao lado dele e da esposa, Vilma Zulian Cardoso, para ouvir, rir e aprender com tanta experiência de vida. E talvez tamanha disposição para um bom papo e lembranças intactas venham da simpatia e do bom humor, a primeira impressão que fica de seu Roberto.
Como para a maior parte dos garotos, futebol era o esporte preferido do menino Roberto que foi encorajado pelo pai a trocar as chuteiras pela raquete. Assim, aos 8 anos de idade, sua paixão pelo esporte e pelo Bauru Tênis Clube (BTC) teve início. Ainda aos 15 anos, ele ganhou sua primeira final de campeonato, o infantojuvenil da Sociedade Harmonia de Tênis, em São Paulo.
Depois do primeiro título, a sala de sua casa ficou pequena para a quantidade de troféus e medalhas que passou a colecionar. Já adulto, o tenista passou a representar o Brasil no Exterior. "No auge da minha carreira, em 1951, disputei os primeiros jogos Pan-Americanos pela equipe brasileira, em Buenos Aires. Fora disso, disputei a Taça Davis na Finlândia, também em 1951. Nós ganhamos dos finlandeses e fomos para a França onde, em Paris, jogamos contra os filipinos e perdemos. Porém, tive a oportunidade de disputar a Roland Garros", relembra.
Casado há 61 anos, pai de três, avó de sete e bisavô de duas crianças, ele diz que o casamento é como o vinho: quanto mais velho melhor, mas é preciso respeito e amor. Esses e outros temas fazem parte da entrevista que Roberto Meira Cardoso concedeu ao JC. Confira os principais trechos.
Jornal da Cidade - O tênis lhe rendeu incontáveis medalhas e troféus. Lembra-se da primeira conquista?
Roberto Meira Cardoso - Tudo começou no Bauru Tênis Clube (BTC), onde comecei a jogar por volta dos 8 anos. Fui levado pelo meu pai. Eu gostava muito de futebol, mas ele achou melhor que eu jogasse tênis. E teve um detalhe engraçado sobre isso. Era difícil os melhores meninos jogarem contra os garotos que estavam chegando. Então, meu pai me levava ao Clube todo sábado e domingo e apostava em mim contra os melhores jogadores. Foi o único jeito que ele achou para que os melhores jogassem contra mim. Apostava jogos de bolas, refrigerantes...Teve uma época em que eu tinha quase 40 tubos de bolas (risos). Minha primeira conquista de primeiro lugar foi um campeonato infantojuvenil em 1942, aos 15 anos. A final foi na Sociedade Harmonia de Tênis, em São Paulo.
JC - E essa foi apenas a primeira conquista marcante.
Roberto - Na minha época não havia muitos campeonatos. Tínhamos o campeonato do Tênis Clube de Santos, do Esporte Clube Pinheiros, do BTC, do Curitiba...Esses eram os mais importantes da época. Venci seis anos o campeonato de Bauru. Tem uma história que gosto muito. O jogador de um clube que tivesse vencido por cinco anos consecutivos ou por sete anos alternados teria a posse definitiva da taça correspondente. Eu ganhei em 1949, 1950, 1952, 1957, 1958 e 1959. A taça grande ficou com o BTC e eu ganhei uma pequena que guardo com muito carinho junto de todas as outras.
JC - Sei que também participou de disputas internacionais.
Roberto - Ah, sim. Fui várias vezes para fora do Brasil, principalmente como veterano. Em 1951, no auge da minha carreira, eu disputei os primeiros jogos Pan-Americanos pela equipe do Brasil, em Buenos Aires. Foi o próprio Juan Domingo Perón que me entregou a medalha. Fora disso disputei a Taça Davis na Finlândia, também em 1951. Nós ganhamos dos finlandeses e fomos para a França onde, em Paris, jogamos contra os filipinos e perdemos. Como era o mês do torneio de Roland Garros, um dos mais famosos do mundo, a federação francesa convidou a equipe brasileira para a disputa. Eu tive a oportunidade de disputar Roland Garros. Perdi no primeiro jogo, mas estive lá (risos).
JC - Quando foi sua última disputa?
Roberto - O último campeonato que disputei e ganhei foi um brasileiro de veterano, em 1988, no Tênis Clube de Santos. Tive um problema no fêmur, precisei fazer uma cirurgia e colocar uma prótese total de quadril. Depois de 1988 não disputei mais nenhum campeonato. Até brinquei na quadra por mais uns cinco anos e depois parei totalmente.
JC - Muitas histórias marcantes?
Roberto - Ah, sim. Uma passagem bastante interessante foi em uma final de tênis em Ribeirão Preto, final de dupla masculina. Era uma dupla de Bauru contra uma de campeões brasileiros, inclusive um campeão brasileiro individual da época, que era Armando Vieira. E quando nós entramos na quadra para jogar a final, teve um assistente que iria assistir à partida que perguntou para o Armando Vieira como é que seria o jogo. Ele respondeu que o dia em que perdesse para uma dupla do Interior iria criar galinhas. E por azar dele, nós ganhamos o jogo e no último ponto da partida, um "gaiato" lá de Ribeirão Preto jogou um galo com uma fita vermelha no pescoço (risos). Foi muito engraçado.
JC - Qual foi a emoção de ser homenageado na Copa Davis realizada em Bauru?
Roberto - Bom, o que eu senti foi não poder estar em quadra para jogar (risos). Mas foi uma homenagem muito bonita mesmo. Uma emoção muito grande.
JC - As quadras de tênis também lhe renderam um grande amor.
Roberto - Pois é. Começamos a namorar nos Jogos Aberto de Taubaté, em 1944. Já nos conhecíamos, mas nunca havíamos pensado em namoro. E de lá para cá nunca mais nos largamos. Éramos menores de idade ainda. Ela também disputava campeonatos. Foi campeã dos Jogos Abertos do Interior por duas vezes, em 1945 e 1946, onde a final foi em Santos. Hoje temos três filhos, sete netos e dois bisnetos, em 61 anos completos de casados. Até nosso bolo era temático. Ele tinha o formato de duas raquetes entrelaçadas.
JC - E qual é o segredo para um casamento durar tantos anos?
Roberto - Bom, eu acho o seguinte: casamento é que nem vinho: quanto mais velho melhor. Mas não pode deixar azedar (risos). Nossa turminha vem diariamente em casa. É preciso ter respeito e muito amor.
JC - Ganhou dinheiro com o tênis?
Roberto - Não, não. Infelizmente para eu disputar um campeonato precisava colocar dinheiro do bolso. Apenas quando participava de torneios pelo Brasil é que não gastava muito porque a estadia e os gastos desse tipo eram pagos pela Confederação Brasileira de Tênis.
JC - É feliz com os resultados?
Roberto - Sou muito feliz, sim. O esporte foi e ainda é a minha vida. Guardo todos esses troféus e medalhas com muito carinho. O esporte me trouxe muitos momentos bons e também muitos amigos. Não ganhei dinheiro, mas viajei muito, principalmente depois de veterano. Fui jogar na Bolívia, Argentina, Peru, Estados Unidos, alguns países da Europa...Então não foi algo financeiramente rentável, mas proporcionou belas lembranças, conhecimento e cultura com a oportunidade de conhecer esses países todos.
JC - Além do esporte, quais foram os seus trabalhos?
Roberto - Eu fiz uma porção de coisas. Tive comércio com meu pai na rua Batista de Carvalho, o Bazar 515. Vendíamos um pouquinho de tudo. Era um tipo de Lojas Americanas em miniatura (risos). Havia mercadoria até no forro. Às vezes chegava o freguês perguntando por tal coisa e eu até tinha, o problema era saber onde estava (risos). Apenas no balanço do fim de ano é que descobríamos onde é que tal coisa estava.
JC - Mas também foi funcionário público, certo?
Roberto - Prestei um concurso e fui trabalhar na Caixa de Aposentadoria e Pensões dos Ferroviários da Noroeste do Brasil, que mais tarde virou INPS e, hoje em dia, é o INSS. Mas depois de aposentado não parei. Ah, foi nessa época que ganhei dinheiro com o tênis.
JC - Depois de aposentado?
Roberto - Sim, porque fui ser professor de tênis de uma família rica da cidade de Promissão e combinei com eles que meu salário seria em dólares. Treinava aquela família todos os sábados e domingos. Fiquei com eles por cerca de dois anos e, como não precisava daquele dinheiro para viver, fui juntando todos os dólares para fazer uma viagem para Milão, para passar uma temporada na casa de uma cunhada que morava na Itália. De lá, eu e Vilma fizemos uma excursão para Paris e outras cidades. Foram dois ótimos meses que passamos na Europa. Sempre com minha esposa ao lado.
Perfil
Nome: Roberto Meira Cardoso
Idade: 83 anos
Local de Nascimento: Bauru/SP
Signo: Virgem
Esposa: Vilma Zulian Cardoso
Filhos: Thelma, Sérgio e Silvana
Hobby: Ver futebol e campeonatos internacionais de tênis na TV
Livro de cabeceira: Gosto de romances policiais
Filme preferido: Doutor Jivago
Estilo musical predileto: Música romântica
Time: Noroeste, São Paulo e Fluminense
Para quem dá nota 10: Para minha família
Para quem dá nota 0: À corrupção
E-mail: beticacardoso@hotmail.com