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Tv unesp: um desafio para a faac?

Pedro Celso Campos
| Tempo de leitura: 5 min

Reunidos com o vice-reitor da Unesp no exercício da Reitoria, prof. dr. Julio Cezar Durigan, dia 03/02/2011, na sala dos Órgãos Colegiados, no câmpus de Bauru, os professores da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação-Faac, responderam positivamente ao enfático desafio de assumirem a administração da TV Unesp. O canal ainda não está no ar, mas a emissora já está instalada em prédio próprio no centro de Bauru. Com a lhaneza e a cortesia geralmente esperadas no ambiente acadêmico, tanto o reitor quanto os professores evitaram crucificar as pessoas que tiveram a melhor das intenções ao lutarem e conseguirem o canal de TV digital para a Unesp ? à custa de muito esforço, muito trabalho e muita dedicação ? pelo fato das coisas terem se arrastado e não terem saído totalmente como esperado. Mas o reitor reconheceu que foi uma falha da Reitoria não ter aberto a discussão sobre a TV Unesp com os professores da Faac, tendo em vista que uma emissora de TV deve ser uma unidade auxiliar natural do curso de Comunicação, tanto como um hospital é uma unidade auxiliar natural da Faculdade de Medicina ou uma fazenda é uma unidade auxiliar natural da Faculdade de Agronomia... Infelizmente faltou essa compreensão, esse olhar mais abrangente, sobre o todo.

Mas águas passadas não movem moinhos. A TV está instalada, o corpo funcional inicial está contratado e não resta outra atitude, agora, senão atravessar o Rubicão, com as palavras de Cesar: "Alea jacta est", isto é, a sorte está lançada. Agora é arregaçar as mangas e trabalhar. Foi muito significativo o reitor adiantar que a Unesp não precisa de uma televisão para competir no mercado porque isso não é função da universidade. O canal deve se abrir à interação com toda a Unesp e com a sociedade, como instrumento laboratorial e de pesquisa, atendendo à sua finalidade de nova tecnologia a serviço da área acadêmica e das finalidades que movem a razão de ser da Unesp como universidade de integração regional, a serviço do ensino, da pesquisa e da extensão, contribuindo, assim, com o desenvolvimento do Estado de São Paulo.

Também foi oportuno o reitor estabelecer o paralelo entre a Faculdade de Medicina e o Hospital Regional de Bauru, porque isso nos coloca a abertura que a TV cria para a divulgação dos estudos, das pesquisas, das experiências, das histórias de vida de toda a Unesp. Na verdade, é pouco provável que um professor de Filosofia, ou qualquer outra área estranha à Medicina, tenha um grande papel como colaborador de um Hospital Regional (embora falar de Filosofia nunca seja demais para qualquer grupo profissional, pois a Filosofia explica a vida ? ou tenta - e o que pode ser mais importante que a própria vida?). Mas é perfeitamente lógico esperar que um médico tenha coisas interessantes a fazer dentro de um canal de televisão, com suas entrevistas, suas pesquisas, seus depoimentos que interessam a toda a sociedade. O mesmo se pode dizer dos graduandos, pós-graduandos e professores de qualquer outra área, como Agronomia, Engenharia, Direito, Filosofia, Letras, Química, Odontologia, Física, Antropologia, Biblioteconomia etc. Isto significa que a TV Unesp deve ser um desafio para toda a Unesp e não apenas para a Faac, deve contar com o envolvimento de toda a comunidade unespiana e seu sucesso dependerá do grau de envolvimento que a Faac conseguir estabelecer, evitando o erro inicial do isolacionismo, porque se há uma área do conhecimento onde a expressão popular "uma andorinha só não faz verão" aplica-se perfeitamente, esta área é a Comunicação e, especialmente, a Televisão. Só o trabalho em equipe pode fazer prosperar, a contento, uma programação de televisão, mormente quando se tem pela frente as limitações legais e os impedimentos próprios da gestão da coisa pública.

Sendo pacífico adiantar que não se trata de concorrer com as emissoras comerciais ? como afirmou o prof. Durigan ? então resta perguntar: Que programação pode servir a um canal de TV digital que não tem a finalidade de fazer "mais do mesmo"? Ora, a TV comercial, de um modo geral, coloca o forte da sua programação no noticiário de impacto, explorando repetida e insistentemente os temas mais impactantes como violência, sexo, conflitos, catástrofes e tudo que contribua para atrair audiência. Não é nenhum segredo que a operacionalidade de uma emissora comercial de televisão - ou de qualquer meio de comunicação que depende do mercado para sobreviver - está vinculada à sua capacidade de faturamento. O Índice Verificador de Audiência é peça-chave na confecção da Tabela de Publicidade. Mas esta preocupação a TV Unesp não terá. Do mesmo modo que providencia recursos para a fazenda da Faculdade de Agronomia ou para o Hospital da Faculdade de Medicina, a Reitoria providenciará recursos para a TV Unesp, certamente firmando convênios, buscando apoio das agências de financiamento à pesquisa e ao ensino superior, sem comprometer o orçamento regular da Faac.

Aqui, então, se delineia a programação ideal: uma programação que interesse à pesquisa acadêmica mas que não seja tão chata a ponto de dar traço no Índice de Audiência. Por outro lado, a televisão pode e deve contribuir com a melhoria do próprio ensino da Unesp, rompendo a barreira das salas de aula, sempre que possível. Todos sabemos como os alunos de Comunicação apreciam o glamour da televisão e também sabemos que o mercado pede cada vez mais profissionais de qualidade. Assim, a TV, enquanto laboratório, contribuirá para que nossos alunos de graduação e de Mestrado em TV Digital façam a diferença no mercado, sendo útil, também, para modernizar as práticas de ensino de Comunicação. Mas não se pode pensar em um canal de TV que se volta apenas para suas finalidades internas. Nenhum produto de comunicação terá êxito se não for concebido em função de um público-alvo. O espaço aqui acabou, mas em artigo futuro eu pretendo discutir os segmentos possíveis com os quais a TV Unesp poderá trabalhar com bom êxito.


O autor, professor Pedro Celso Campos, 61, é coordenador de Ensino de Jornalismo no Departamento de Comunicação Social da Faac

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