Geral

Família enterra recém-nascido trocado

Vinícius Lousada
| Tempo de leitura: 5 min

Imagine a dor de uma mãe que perdeu seu bebê de apenas quatro dias de vida ao descobrir, momentos antes do funeral, que o corpo que seria enterrado não era o de sua filha, mas de outra criança? E mais: saber que sua filha já foi enterrada, por engano, dois dias antes por outra família.

Na manhã de ontem, uma mãe passou exatamente por isso em Bauru. Enquanto aguardava no cemitério municipal do Redentor pela chegada do corpo de sua filha, nascida em 21 de fevereiro e falecida na última quinta-feira, na Maternidade Santa Isabel, recebeu a informação de que a criança que seria entregue pelo Necrotério do Hospital de Base não era sua filha. O Jornal da Cidade está preservando os nomes dos envolvidos para evitar constrangimentos e danos ainda maiores após situação de tamanho sofrimento.

A constatação foi feita por servidores da Divisão de Necrópoles e Funerária da Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb), responsável pelos cemitérios municipais de Bauru e pelos funerais sociais, oferecidos gratuitamente às famílias que não têm condições financeiras de enterrar seus entes.

"Nossos funcionários foram buscar o corpo e detectaram que a identificação com o nome da mãe na criança não batia com a da ficha que eles tinham em mãos. Dessa forma, não seria possível levá-la para o enterro e nós fomos comunicar a situação à família", explica Paulo J. André, gerente da divisão da Emdurb.


Enterro


No entanto, a parte mais dolorosa para a mãe e outros parentes ainda estaria por vir: o corpo da recém-nascida já havia sido enterrado, no último sábado, no cemitério Jardim do Ypê, no lugar da criança que seria levada para o funeral na manhã de hoje, caso a troca dos bebês não fosse identificada a tempo.

De acordo com informações obtidas pela reportagem, essa criança nasceu e faleceu na última sexta-feira, também na Maternidade Santa Isabel. Ela seria enterrada no último sábado. No entanto, os corpos foram trocados e funcionários da funerária São Vicente levaram a criança errada.

Procurada pela reportagem, a funerária São Vicente informou que o funcionário que buscou no necrotério o corpo da criança enterrada no último sábado seria a única pessoa capaz de falar sobre o assunto e que ele estará na empresa somente hoje.

A assessoria de imprensa da Associação Hospitalar de Bauru (AHB), que administra a Maternidade Santa Isabel e o Hospital de Base, onde fica o necrotério, também foi acionada, mas afirmou que a entidade vai se posicionar oficialmente hoje. No entanto, confirmou a troca dos corpos.

____________________

Dez anos atrás


Os pais do bebê que morreu horas depois de nascer em 2001, também na Maternidade Santa Isabel, continuam reivindicando na Justiça o pagamento de indenização de 900 salários mínimos (o equivalente, hoje, a R$ 504 mil), além de custeio de tratamento psicológico para ambos, devido ao trauma provocado pela suposta troca no corpo do recém-nascido.

Moradores de Reginópolis, Vera Lúcia Dutra e Reginaldo Aparecido de Souza tiveram um bebê do sexo masculino, mas sepultaram uma menina. Desde então, a família não sabe se a criança está viva ou realmente morreu - como consta no atestado de óbito - e, se morreu, onde está enterrada.

____________________

Dor da mãe começou na hora do parto


O tio da mulher que teve sua filha enterrada por engano conta que ela, de apenas 19 anos, ainda não se deu conta do ocorrido. "A ficha não caiu. Ela ainda está com os 10 pontos da cesariana e em estado de choque com a notícia. Isso é inaceitável. O ser humano está sendo tratado como um animal qualquer", lamenta.

Ele conta que a primeira coisa que a mãe da criança deseja é poder retirar o corpo já enterrado para realizar novamente o funeral junto à família. Segundo o tio, isso deve acontecer na manhã de hoje, quando o corpo será levado do Jardim do Ypê para o cemitério Redentor.

A intenção da família, porém, é processar a AHB e a funerária São Vicente por conta do erro que, segundo o tio da mãe, causou danos morais e traumas irrecuperáveis para a saúde física e mental da sobrinha, que mora na Capital do Estado, e veio para a região no fim de semana passado visitar alguns parentes. Quando voltava a São Paulo, a bolsa estourou e ela foi trazida às pressas para a Maternidade Santa Isabel.

A moça estava grávida de gêmeas, com apenas 26 semanas de gestação. Apesar de prematura, a primeira criança nasceu de parto normal. Para a outra, que morreu quatro dias depois, foi necessária a realização de procedimento cirúrgico. "Além do problema da troca, avalio que houve erro médico. A segunda nasceu com muitos hematomas e foi necessário até colocar uma tala em uma das perninhas dela. Os médicos tentavam tirá-la de todo o jeito, mas estava difícil e eles fizeram de uma forma agressiva. Ela até sofreu uma parada respiratória. Fora isso, minha sobrinha deu entrada na noite de domingo, já com a bolsa estourada, mas o parto foi feito só na segunda-feira de manhã", acusa o tio da mãe das crianças.

Ele explica que, após receber alta do hospital, a mãe foi levada para a casa de parentes na cidade de Ourinhos, o que teria impedido que o enterro da criança fosse realizado antes da data de ontem. "Tanto tempo para enterrá-la e, quando chega o dia, acontece isso. Estamos inconformados", afirma.

A família da outra recém-nascida, que deveria ter sido enterrada no último sábado, preferiu não falar com a reportagem. Segundo informações, o corpo dessa criança continua no necrotério do Hospital de Base, após ser identificado que não era ela quem deveria ser enterrada na manhã de ontem.

Comentários

Comentários