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Viva os gordos!

Luís Victorelli
| Tempo de leitura: 2 min

Este fato ocorreu dentro de um ônibus circular na cidade de São Leopoldo, estado do Rio Grande do Sul. Foi no dia 24 de outubro de 2009. Era um sábado e aquela senhora queria, por uma simples razão de bom senso, que você já vai saber nos próximos segundos, sair pela porta da frente do coletivo. Obesa, tinha dificuldades de passar pela roleta. As roletas dos ônibus, assim como assentos de aviões e aqueles furos nos vidros dos balcões de atendimento foram feitos por quem? E para quem? Se você é algum pigmeu e faquir, isso mesmo, as duas características juntas, bem-vindo ao padrão médio do povo brasileiro, segundo os "especialistas" que criam e aprovam esses equipamentos de uso comum.

 Num ônibus urbano geralmente o passageiro entra pela frente e sai pela porta de trás. Ao tentar descer pela porta dianteira, como sempre fazia, pelo bom senso citado, assim como fazem os idosos, então não há nenhum problema de segurança com o procedimento, foi impedida de forma humilhante. Irredutível aos argumentos, óbvios, o motorista manteve a porta fechada. Poderia ser desnecessário descrever as cenas que seguiram. Vozes sem rosto gritando "come menos, gorda!", "feche a boca para passar na roleta", piadinhas, risinhos, gargalhadas, dos passageiros aos funcionários da empresa. Passados o estado de choque e a vergonha, mesmo sem necessariamente ter superado os danos psicológicos e morais seguramente causados, ganha, agora, na justiça gaúcha uma indenização de R$3 mil. Um valor simbólico para ela, mas, pela condenação, carrega uma importante função pedagógica para a empresa e para a sociedade, ainda muito mal educada. E vivemos, sim, numa sociedade mal educada, ainda. Mesmo com o chamado discurso cordial, o brasileiro não raramente destila preconceitos no seu dia-a-dia. Quando não é pela cor da pele, é pelo tamanho da orelha, ou pela forma que expressa seu amor. Como um povo tão igual, na frágil compreensão do outro, pode se achar no direito de ridicularizar alguém por julgá-lo diferente, portanto pior?

O caso da obesidade é emblemático. O Brasil sem superar o gargalo da segurança alimentar, pela sua legião de famintos e miseráveis, agora passa a ter problemas na outra ponta, a educação alimentar. Na mesa não falta o que comer, mas muitos não sabem como fazê-lo de forma saudável. São dois extremos que parecem corroborar o termo Belíndia, cunhado por Edmar Bacha nos anos 1970s. Uma metáfora para as desigualdades de um país capaz de reunir num mesmo balaio uma Bélgica rica e uma Índia miserável.

Bem, já não precisamos mais de metáforas envolvendo terceiros para explicar o que somos. Nos dias de hoje podemos até sonhar com o justo equilíbrio. A miséria a gente pode re-solver com políticas ostensivas de inclusão, sem vacilo. Os perigos à mesa, com campanhas isentas sobre a real qualidade dos alimentos. Mas e a falta de educação, que não é a das letras, quem vai dar jeito?


O autor, Luís Victorelli, é jornalista

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