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Ainda aberto, túnel faz asfalto ceder

Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 7 min

Tapado parcialmente, o túnel criminoso descoberto sob a Nações Unidas continua gerando problemas. Na manhã de ontem, o asfalto da quadra 2 da avenida, que é uma das mais movimentadas da cidade, cedeu. A provável causa é uma infiltração gerada justamente pelo fato de o segundo túnel, descoberto há 15 dias, não ter sido fechado. E o dilema deve continuar, uma vez que a Prefeitura Municipal aponta que não é sua responsabilidade tapar a escavação. A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) de Bauru discorda totalmente dessa posição. Enquanto ninguém assume, os moradores continuam com o mesmo temor noticiado há mais de duas semanas pelo JC.

Felizmente, o problema de ontem não deixou feridos. Na ocaisão, o asfalto no sentido Rodoviária-Shopping na quadra 2 da Nações Unidas cedeu exatamente onde o segundo túnel foi descoberto. O primeiro ponto a apresentar o problema foi ao lado do canteiro central. O local foi interditado parcialmente, porém, horas depois, com o fluxo de veículos desviado, o asfalto também cedeu nas proximidades da calçada, o que demonstrou toda a fragilidade do solo.

Após descoberta essa segunda parte do túnel no último dia 17, a prefeitura cobriu o local que passava sob a via com terra. Entretanto, a continuação da escavação, que possui cerca de 150 metros, ainda está aberta e sem planejamento.

O diretor da Divisão de Drenagem da Secretaria Municipal de Obras, Cláudio da Silva, apontou que o problema provavelmente foi uma infiltração ocasionada exatamente por essa parte do túnel que está aberta. "Como o local tinha sido todo tapado com terra, é bastante provável que a água tenha escoado pelo túnel que ainda está aberto e infiltrado nessa terra, o que fez com que o asfalto cedesse".

Após o problema de ontem, a Secretaria de Obras despejou mais de cinco caminhões de pedra sobre o buraco e ainda realizou um dreno hidráulico. Questionado sobre o motivo de não ter feito isso antes, o diretor revelou que nem eles sabiam que o túnel não seria tapado, o que evitaria todo o problema.

Por conta do asfalto que cedeu, trabalharam ontem cerca de 30 servidores municipais. O trânsito ficou interditado desde as 11h até o fim da tarde nas quadras 1 e 2 da avenida e os veículos foram desviados para a pista contrária, que passou a funcionar com sentido duplo. O ponto de ônibus localizado na quadra 2 também foi temporariamente transferido para o quarteirão 3.

No último dia 22, no mesmo local, uma jovem de 23 anos caiu ao passar de motocicleta. A provável causa da queda foi exatamente um problema no asfalto gerado pela escavação criminosa. Felizmente, a motociclista não se feriu. Na ocasião, a Secretaria de Obras realizou reparos na mesma localidade, entretanto, ontem o problema se agravou.

No primeiro túnel, descoberto na quadra 3, não há o mesmo perigo. Com recursos da empresa, a própria Protege concretou toda a escavação.

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Moradores permanecem com medo


Há duas semanas, o JC noticiou o medo das pessoas que moram nas residências localizadas no trajeto de aproximadamente 150 metros do túnel escavado pelos bandidos. Desde o problema, todos convivem com a insegurança.

Ontem, retornamos ao local e nada mudou. O aposentado Acary Nabor dos Santos, 69 anos, aponta o aparecimento de uma rachadura na parede do banheiro de seu quarto. "Além de mim, mais três pessoas moram aqui. Tenho medo de que algo aconteça, como um desabamento, por exemplo".

O aposentado reclama que o chão do banheiro está oco. A reportagem confirmou que, ao bater no piso, o barulho remete a essa constatação. Duas casas acima, há um imóvel vazio. No local, existe um grande pedaço cimentado no chão que, segundo Acary Nabor, foi onde se abriu um extenso buraco. "Foram necessários dois caminhões de terra para tapar essa cratera. Provalvemente foi por causa desse túnel".

Gerson de Oliveira, 45 anos, tem um centro automotivo bem ao lado de onde o túnel foi localizado. Ele também já havia sido entrevistado pelo JC e relatou que o temor continua. "Procurei a prefeitura e falaram que a Protege era a responsável por tapar esse túnel. Na Protege, falaram que era a prefeitura", afirma o proprietário, que afirma ter um grande fluxo de veículos no estabelecimento.

Na edição de ontem, o secretário de Obras, Eliseu Areco, apontou que havia sido feita uma vistoria em todas as residências no trajeto. Os dois entrevistados, entretanto, não confirmaram o fato.

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Responsabilidade?


Na tarde de ontem, o prefeito Rodrigo Agostinho declarou que a responsabilidade de tapar o túnel de cerca de 150 metros que passa por inúmeras casas não é da prefeitura. "Não é função do município. É algo que foi aberto por terceiros e passa sob propriedades de terceiros. Infelizmente, cada morador vai ser o responsável por tapar o buraco de suas casas".

Na edição de ontem, o secretário de Obras, Eliseu Areco, também havia afirmado que não saberia o que fazer com a escavação. Segundo Agostinho, o problema é mote de segurança pública, o que compete ao Estado. "Eu acho que, se fosse para acionar alguém, seria o Estado. Esse é um problema de segurança pública e, pela Constituição, é relativo ao Estado. O município não pode abrir as casas das pessoas de fora a fora e consertar esse túnel", completa.

Todavia, o presidente da Subseção Bauru da OAB, Caio Augusto Silva dos Santos, aponta uma direção bastante oposta. De acordo com ele, o poder público precisa dar continuidade às obras e resolver o problema.

"É responsabilidade do município providenciar que esse túnel seja fechado. Quem se sentir prejudicado pode, inclusive, acionar o Ministério Público contra o município", explica.

Para o presidente da OAB, o argumento de que a obra está sob propriedades privadas é falho. "Se algum morador resistir que a prefeitura entre na residência e, com isso, impedir que a obra seja feita, o órgão público deve entrar com uma medida judicial e exigir isso. É uma questão de exposição de risco", afirma.

Em relação à motociclista que, provavelmente por conta do túnel sofreu uma queda no última dia 22, Caio Augusto dos Santos informa que ela pode acionar a prefeitura judicialmente e ajuizar uma ação indenizatória.

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Relembre o caso


A investigação do caso começou em 3 de fevereiro. Na ocasião, funcionários da Prefeitura Municipal de Bauru, ao consertar um buraco, localizaram na quadra 3 da avenida Nações Unidas um túnel com 30 metros de extensão. A obra foi feita por criminosos e partia da galeria pluvial abaixo do canteiro central, terminando na empresa de segurança e transporte de valores Protege.

A polícia informou que havia várias entradas públicas possíveis para a galeria, como a do próprio rio Bauru, localizada na avenida Nuno de Assis.

Entretanto, no último dia 17 foi descoberto um segundo túnel. Dessa vez, a obra partia de uma casa e terminava na quadra 2 da Nações Unidas, cerca de 150 metros de distância da Protege. Pelas posições das travas, foi possível saber que essa era a rota pela qual os bandidos acessavam a galeria.

No dia seguinte, ao percorrer essa nova escavação de aproximadamente 150 metros de comprimento, foi localizada a casa utilizada pelos bandidos como ponto de origem do túnel, uma casa construída pelos criminosos e que funcionava como "Quartel-General" dos bandidos.

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Engenheiro aponta riscos e possível solução

O engenheiro e professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) em Patologia de Fundação Cláudio Vidrih Ferreira aponta que, mesmo sem ter feito uma vistoria detalhada do local, realmente há relativos riscos aos moradores.

"O solo bauruense é muito arenoso. As partículas de areia ganham liga pela argila. Quando entra em contato com a água, esse material fica ainda mais instável e pode haver um desmoronamento. Ao retirar grande parte de terra, a escavação desse túnel pode ter acelerado esse processo de instabilidade. Resta saber se é algo de tendência ou iminência", aponta.

Como uma possível solução para tapar o túnel, Vidrih descarta o concreto puro justamente porque, no futuro, pode ser preciso construir algo na área e o cimento dificultaria qualquer obra. "Preliminarmente, eu vejo o solo-cimento como a solução mais viável. É basicamente a terra com uma mistura de 5% a 6% de cimento, que serve para dar a liga. Isso endurece o solo, mas não tanto quanto o concreto puro. É algo que dá uma boa sustentação e fundação para o imóvel", conclui o engenheiro.

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