Rural

Preço alto estimula renovação de cafezais no Brasil em 2011


| Tempo de leitura: 4 min

Os saquinhos com mudas de café ainda não começaram a ser preparados para a próxima temporada de plantio no Brasil, mas a expectativa é de um movimento intenso de renovação de cafezais este ano, maior que o registrado em 2010, diante de preços recordes em várias décadas no mercado internacional da commodity, afirmaram representantes de cooperativas.

Em Minas Gerais, a região que produz cerca de metade do café do maior produtor e exportador global, a temporada de formação de mudas só se inicia em meados de abril, para que o plantio possa ser efetivado a partir de novembro, após a colheita.

Na última temporada de plantio, que se encerrou em fevereiro, a renovação ou mesmo a abertura de novas áreas não foi tão expressiva quanto se poderia imaginar, disseram representantes de cooperativas.

Pois os preços dispararam após a maioria dos produtores ter comercializado antecipadamente a sua safra. Mas num parque cafeeiro considerado relativamente velho, os produtores deverão agora aproveitar a oportunidade.

"No ano passado, não deu para botar o dinheiro no bolso. Quando o preço melhorou, o pessoal já tinha vendido o café... Então acreditamos que este ano deverá aumentar sim o plantio para renovação", afirmou Marcelo Almeida, gerente do Departamento de Gestão do Agronegócio da Cooparaíso, cooperativa com sede em São Sebastião de Paraíso (MG).


Produção


Embora as árvores só comecem a produzir após dois anos do plantio, atingindo o pico de produção com quatro, cinco anos, a renovação do cafezal no Brasil é vista pelo mercado como fundamental, em função de uma demanda global crescente e de problemas na produção em outros países.

Os representantes das cooperativas dizem que o processo de renovação no Brasil não deve levar a quedas importantes na produção, já que as áreas que serão substituídas produzem muito pouco pela idade avançada das árvores.

Almeida avalia que a produção de mudas da Cooparaíso praticamente dobrará em relação a 2010, quando produziu-se 3,5 milhões de brotos.

E mesmo assim, para evitar que produtores fiquem sem mudas, a cooperativa quer que cafeicultores antecipem as reservas do produto. "Vamos fazer uma reserva antecipada, porque normalmente deixamos as reservas para junho e julho. Este ano vamos adiantar um pouco...", disse.

As 6 milhões de mudas seriam suficientes para o plantio em 1.400 hectares, pouco mais de 1 por cento da área de abrangência da Cooparaíso.

____________________

Preparo para a guerra


Segundo Almeida, os cafeicultores com lavouras de produção relativamente baixa, inferiores a 15 sacas por hectare, provavelmente investirão em renovação, buscando um cafezal mais produtivo e com um espaçamento que permita o plantio mecanizado, que pode reduzir custos no futuro, permitindo que eles sigam na atividade se os preços eventualmente caírem.

José Edgar Pinto Paiva, presidente da Coccamig (Cooperativa Central dos Cafeicultores e Agropecuaristas de Minas Gerais), de Varginha, concorda.

"Quando está na paz, você se prepara para a guerra. E quando está na guerra, prepara-se para a paz, como diz aquele livro A Arte da Guerra (de Sun Tzu). Agora estamos entrando na paz... Se o pessoal quer continuar, ele tem que preparar suas lavouras, renovar, mecanizar, irrigar, trazer toda a tecnologia, para quando vier um preço mais baixo ele ficar competitivo", disse Paiva, representante do extinto IBC (Instituto Brasileiro do Café) em Minas na década de 70.

O entusiasmo no setor até preocupa o coordenador de Desenvolvimento Técnico da Cooxupé, Mário Ferraz de Araújo, que teme que uma eventual explosão de plantio possa, no futuro, desequilibrar a oferta.

"Não é uma expectativa necessariamente boa, porque com essa euforia a pessoa fica animada e acaba plantando além da conta, aí desequilibra. Daqui uns anos, vamos assistir o quadro de ter oferta maior que a demanda, mas há necessidade no sul de Minas de renovação de lavouras, o nosso parque cafeeiro é antigo", afirmou.

Segundo ele, os preços altos têm atraído "muita gente que não é do setor", profissionais liberais de olho em dinheiro fácil. "Esse filme já assistimos antes. Agora é a hora de o pessoal fazer o planejamento..."

Mas Araújo disse que os agricultores ainda não começaram a trocar de cultura, apesar dos preço altos do café. "Não tirou cana para plantar café... então agora pode vir a ocorrer este ano, mas aí o futuro a Deus pertence", afirmou, ressaltando ser prematuro falar sobre a demanda deste ano de mudas na área da Cooxupé, a maior cooperativa de café do mundo.

Comentários

Comentários