"Absurdo". É essa a expressão utilizada pelos motoristas bauruenses em relação ao preço do etanol registrado nas bombas de combustíveis. Ontem, o valor chegou a impressionantes R$ 2,25 por litro do produto (o equivalente a 84% da gasolina), superando em muito o maior já registrado na história da cidade. A gasolina manteve o preço - que também já é recorde - de R$ 2,69, mas segundo especialistas, ela também subirá "carregada" pela elevação do álcool. E o panorama tende somente a piorar, uma vez que a previsão é de que a safra da cana-de-açúcar, matéria prima do álcool, "atrase".
Conforme o JC havia noticiado há cerca de duas semanas, o valor do etanol já havia atingido todas as marcas históricas na cidade e preocupava. Na ocasião, com o produto ao custo de R$ 1,99, empresários do ramo já previam uma elevação, entretanto, de menos da metade do aumento de 13% que ocorreu ontem.
Para eles, um dos principais problemas estava no período de entressafra da cana-de-açúcar, sendo que a volta do plantio, que começaria no início de abril, amenizaria os altos preços. Porém, segundo o engenheiro agrícola da Associação dos Plantadores de Cana (Associcana) da região de Jaú, Denílson Heládio Vitti, a safra vai "atrasar".
"Nos outros anos, havia muita cana-de-açúcar que não havia sido colhida da safra anterior. Essa cana era usada logo depois da entressafra. No ano passado, houve uma seca de junho a novembro, que fez com que o produto se desenvolvesse pouco. Assim, a safra vai ter que partir do início mesmo, o que vai ocorrer somente em 15 ou 18 de abril", aponta.
De acordo com ele, no ano passado havia usinas que começaram a safra em 6 de março, quadro muito diferente deste ano. "E esse período que apontei é o que a safra começa. Ainda tem todo o tempo de estocagem e que a cana será moída. Creio que o consumidor verá algum reflexo disso nos preços somente no começo de maio mesmo".
Outra questão apresentada é a alta do valor do açúcar no mercado internacional. "As usinas podem escolher utilizar a cana para produzir álcool ou açúcar. E elas estão optando por esse último produto justamente pelo lucro que ganham com a exportação para países como a Índia, China e Estados Unidos, por exemplo", explica Denílson Vitti.
Gasolina
E tais questões econômicas e agrícolas resultam em diferenças no bolso do consumidor. Apesar de ainda não ter sido alterado, as projeções apontam que o preço da gasolina, que está em R$ 2,69 em Bauru, também subirá.
Pouca gente sabe, porém, a gasolina tem 25% de álcool anidro em sua composição e, por isso, o preço desse combustível também é alterado. De acordo com o Sindicato do Comércio Varejista de Derivados de Petróleo (Sincopetro), a cada R$ 0,04 de aumento no álcool, há um reajuste aproximado de R$ 0,01 na gasolina. Seguindo tal estimativa, o valor da gasolina atual deve chegar a cerca de R$ 2,75.
Mesmo com a elevação em ambos os produtos, quem possui veículos flex precisa ficar atento ao que é mais favorável. Segundo a conta básica de rendimento ainda compensa encher os tanques com gasolina.
Desorientado
Para o presidente do Sincopetro, José Antônio Reghine, tanto o sindicato quanto os empresários do ramo estão "desorientados". "Só sei que vai continuar aumentando. Mas estamos desorientados em como isso vai prosseguir. Não tenho nem mais como fazer projeções sobre isso".
Ele aponta também que as causas de toda essa situação já começam a ser sentidas em ângulos que vão além dos bolsos dos consumidores. "Já há pessoas negociando seus postos de combustíveis. Essa semana fiquei sabendo de uma negociação dessas. Está cada vez mais difícil sobreviver no ramo com essa realidade", completa.
Segundo Reghine, o valor assustador que aparece nas bombas de combustíveis começa com a elevação do preço de custo, ou seja, do que os proprietários de postos pagam às distribuidoras. "Nossa expectativa era de que as distribuidoras trouxessem o produto a R$ 1,89 para Bauru ontem. Mas teve distribuidora que trouxe o etanol por R$ 1,96 o litro. É um valor absurdo de alto", afirma Reghine, que ainda aponta como margem de "sobrevivência" dos empresários do ramo acrescentar R$ 0,30 ao preço de custo em cada litro do álcool.
Falta de matéria prima
Além de afirmar que a safra deste ano irá atrasar, o engenheiro agrícola da Associação dos dos Plantadores de Cana (Associcana), Denílson Heládio Vitti, aponta também que, em 2011, haverá falta de cana-de-açúcar para atender a demanda satisfatória.
Segundo ele, "alguns produtores passaram por situações difíceis e até mesmo optaram pela mudança de cultura para plantações de café e eucalipto". Com essa e outras questões, prevê que haverá uma quebra de 10% a 15% no total de cana-de-açúcar em relação a anos anteriores. "Com a volta da safra, os preços vão melhorar, mas não vai ser algo muito significativo. O consumidor vai sentir uma amenização desses valores por volta de maio, porém, será um ano difícil", conclui.
?Subida nos preços é para não
acabar o etanol?, diz distribuidor
Se os consumidores e empresários do ramo estão assustados com os valores que não param de subir, o mesmo ocorre com as distribuidoras - que compram o produto dos usineiros e vende para os postos de combustíveis.
Pelo menos é o que afirma Kléuber Henrique dos Santos, representante de uma dessas distribuidoras que abastecem Bauru e região. "Hoje (ontem), eu vendi o etanol a R$ 1,85 aos postos. É um preço muito alto e que reflete exatamente o que pagamos aos usineiros, que também só cresce a cada dia".
Ele aponta o aumento da frota de veículos flex e a já citada preferência na produção de açúcar sobre o etanol como responsáveis pela falta do produto no setor e ainda explica que o valor alto cobrado pelas usinas é para que o álcool não acabe. "Eles (as usinas) estão vendendo o etanol tão caro para nós porque querem exatamente que a venda diminua nos postos. Se não diminuir a venda, o produto pode acabar mesmo. Porém, é um absurdo faltar álcool no Brasil. Já foi cogitado até mesmo importar o etanol, que na verdade, é um produto nosso. É um absurdo que prejudica todo o setor".
Kléuber dos Santos explica que uma das alternativas para segurar o aumento dos preços seria a redução da quantidade de álcool anidro na gasolina de 25% para 20%. Ele acredita que, nos próximos dias, haverá alguma intervenção do governo para tentar controlar esse aumento.
Em relação especificamente a Bauru, ele informa que a diferença dos preços apresentados de um posto de combustível para outro pode ser justificada pelo volume de produto adquirido. "Têm postos que compram muito, pagam antecipado e estocam o etanol. Assim, eles podem oferecer o produto a preços menores. Não significa, necessariamente, que o combustível esteja adulterado", completa.
Para que o consumidor possa se orientar nessa questão e não cair no adágio do "barato sai caro", uma das orientações é consultar o site de Agência Nacional de Petróleo (www.anp.gov.br), que realiza levantamentos de preços semanais e verifica qual a média praticada em cada cidade.