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PF investiga furto de madeira no Aimorés

Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 6 min

Sob um imbróglio jurídico, a Polícia Federal (PF) de Bauru investiga crimes de furto de madeira no Horto Aimorés. Na manhã de terça-feira, uma equipe de policiais encontrou três caminhões retirando madeira de um dos lotes, porém, sob a alegação de trabalharem para o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), os homens foram ouvidos e liberados com as cargas. Outro problema é que o mesmo impasse, que envolve a retirada da madeira dos lotes, causa outros sérios problemas aos assentados, inclusive no próprio plantio.

Na terça-feira, uma equipe da PF foi até o assentamento para a realização de averiguações exatamente por parte do inquérito de furto de madeira já em andamento. Ao chegar no local, os policiais encontraram três caminhões carregados retirando madeira de um dos lotes.

Os três homens responsáveis foram questionados, porém, afirmaram que estavam autorizados pelo Incra e que o transporte de madeira era totalmente legal. No local, há um posto de atendimento do instituto com uma espécie de "portaria", que seria a responsável por controlar tais transportes.

"O inquérito sobre furtos de madeira já estava em curso após a denúncia de um dos assentados. Esses homens que foram encontrados disseram que o transporte estava legalizado e que era de um projeto regular do Incra de manejo de madeira", explica o delegado da PF Carlos Alberto Fazzio Costa.

Entretanto, somente um papel escrito à mão foi apresentado como sendo a autorização. Por isso, os homens foram conduzidos à delegacia, onde, de acordo com Fazzio, declararam que faziam o transporte somente mediante o consentimento dos assentados. Eles foram ouvidos e liberados em seguida. A madeira também não foi apreendida.

Segundo a reportagem apurou, esses homens seriam servidores terceirizados pelo Incra. "No fim da tarde (de terça-feira), consegui falar com o Incra e eles confirmaram a identidade dos homens e que fazem parte de um projeto legal de manejo de madeira", afirma.

O caso, entretanto, continua sendo investigado pela PF. "É um inquérito que já estava em curso e que vai continuar. O que aconteceu foi uma coincidência em termos encontrado esses caminhões. Nossa equipe estava lá e localizou os veículos", completa o delegado Fazzio, que aponta que, por conta do mesmo inquérito, havia outro servidor sendo ouvido na delegacia também na última terça-feira.


Assentados


Os assentados, todavia, afirmam que o que está ocorrendo no local realmente é o furto da madeira. Segundo Lauro Rodrigues, que está assentado na localidade há mais de 30 anos, a madeira foi derrubada há aproximadamente sete meses e, desde então, é levada.

"É triste ver muita gente morando em barracos ainda. Essa precariedade e pobreza ocorrem justamente porque muita gente nem vê a cor do dinheiro repassado da venda da madeira. Alguém precisa fazer alguma coisa", desabafa.

O imbróglio no local é justamente em relação a quem pertence essa madeira. Enquanto os assentados reivindicam a posse, a União também alega ser a detentora desses direitos.

Segundo a reportagem apurou, na terça-feira foram retirados os três caminhões de madeira em questão. Tanto no dia anterior quanto na sexta-feira, a quantia foi bem maior: foram dez caminhões retirados por dia do assentamento.

A reportagem tentou entrar em contato com a assessoria de imprensa do Incra ontem, porém, sem sucesso.

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Assentados reclamam que não conseguem plantar


Por conta do imbróglio, cerca de 300 famílias assentadas no Horto Aimorés alegam passar por grande dificuldade. Segundo elas, as principais fontes de renda e subsistência foram perdidas porque a maior parte das áreas destinadas ao plantio e às pastagens estão cobertas de madeira embargada e que não pode ser mexida. Com isso, os cursos profissionalizantes oferecidos pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar) correm o risco de serem interrompidos.

Segundo o assentado Lauro Rodrigues, o imbróglio ocorre porque não se decide de quem é a madeira - dos assentados ou da União - e, por isso, ela não pode ser mexida. Assim, ele aponta que áreas como pastagens e hortas ficaram inutilizadas por conta dessas madeiras que não podem ser removidas.

"Essa é minha plantação de feijão. Olha o tanto de paus que têm no meio. Eu perdi várias mudas. Tem um monte de áreas que também estão cheias de madeira. Eu tive que mudar a horta porque, onde eu ia fazer a plantação, está com madeira", conta.

Com a falta de áreas de plantio, alguns dos mais de mil assentados do local partiram para uma prática ilegal: a venda de carvão. "O pessoal até sabe que não pode. Mas eles estavam passando fome. Perderam a renda que tinham e o que comer. Por isso, pegaram a madeira e transformaram em carvão para vender".

Todos os problemas também foram encaminhados em ofício no mês passado pelo presidente do Sindicato Rural de Bauru, Maurício Lima Verde, ao superintendente do Incra.

"Eu tentei falar com o posto de atendimento do Incra local, mas eles não me atenderam. Então, eu encaminhei um ofício ao superintendente do Incra com as reclamações dos assentados e com o que está acontecendo no Aimorés", explica.

A reportagem teve acesso ao ofício enviado no fim do mês passado. Nele, o presidente do sindicato aponta que "árvores derrubadas estão apodrecendo no solo sem qualquer providência do Incra, trazendo grandes prejuízos aos assentados e ao próprio País".

Ainda no mês passado, o gabinete do Incra foi acionado. Na ocasião, foi solicitado o envio de um e-mail com os questionamentos da reportagem ao superintendente Raimundo Pires, o que foi realizado. Porém, até ontem, não havia sido emitida qualquer resposta sobre o caso.

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Cursos do Senar


Outro ponto que Maurício Lima Verde aponta no ofício enviado ao Incra é o prejuízo que o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar) tem em relação aos cursos profissionalizantes que oferece aos assentados. De acordo com ele, sem área para pôr em prática, de nada adianta a oferta desses cursos.

"Damos uma série de cursos com o objetivo de que os assentados tenham uma renda maior. São cursos profissionalizantes voltados à área rural e à promoção social dos atendidos. Mas eles não têm onde realizar essas atividades que aprendem", aponta.

O próprio assentado Lauro Rodrigues confirma a posição do presidente do Sindicato Rural. "Não adianta o Senar vir aqui e gastar uma fortuna com os cursos se não temos a área liberada. Se for continuar desse jeito, é melhor que eles nem gastem dinheiro", completa. (VO)

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Relacionamento conflituoso


Outro ponto apurado pelo JC neste caso é o relacionamento conflituoso entre os assentados e o posto de atendimento local do Incra. Em ofício enviado pelo presidente do Sindicato Rural de Bauru e vice-presidente do Senar, Maurício Lima Verde, ao superintendente do Incra, é citada até mesmo a suposta visita de um pistoleiro ameaçando os assentados que não cumprissem o que foi determinado pelo Instituto.

Um assentado que não quis se identificar confirmou a história. "Esse pistoleiro era um homem que invadiu e pegou um lote para ele. Inicialmente, ele defendia os próprios assentados, mas de uma hora para outra, passou a defender os interesses do Incra", denuncia. Segundo ele, esse homem até chegou a matar um assentado que tinha mulher e filhos por causa de uma disputa territorial.

"Há uns três meses, ele veio aqui e nos ameaçou. Disse que era para a gente fazer as coisas conforme o Incra mandasse", desabafa. De acordo com ele, poucos dias depois, esse pistoleiro foi assassinado.

O medo também parece imperar como obstáculo às próprias investigações. Informações dão conta de que muitos assentados relatam o furto de madeira, porém, têm medo de fazer qualquer denúncia oficial à polícia.

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