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Depois do terremoto

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Em toda tragédia provocada por abalos sísmicos os cronistas relembram o terremoto de Lisboa, que provocou profundas reflexões nos intelectuais da época. No dia 1º de novembro de 1775, às nove e trinta da manhã, as igrejas estavam lotadas por causa do feriado religioso de Todos os Santos. A terra tremeu e os tetos decorados com figuras divinas desabaram sobre os fiéis. Os sobreviventes fugiram para as planícies do Rio Tejo e se surpreenderam com o recuo das águas que deixou os navios expostos. Sobreveio então a segunda catástrofe, com um gigantesco tsunami de ondas de 10 a 20 metros de altura. Mas haveria ainda uma terceira parte da desgraça. O grande incêndio iniciado pelo fogo das casas e pelas velas das igrejas iluminadas. Como não havia quem apagasse o incêndio, Lisboa ardeu durante cinco dias. Morreram entre dez mil a trinta mil pessoas, cerca de 50% da população; 80% das edificações ruíram.

Expoentes do iluminismo como Voltaire, Kant, Rousseau e Goethe escreveram sobre o terremoto. Por que Deus teria sido tão cruel com um dos países mais religiosos da Europa? Era a pergunta que todos faziam e que eles tentavam responder. Leibiniz, metafísico, otimista, dizia que vivíamos "no melhor dos mundos". Pior do que qualquer terremoto teria sido Nero e Calígula. Rosseau achava que eram os erros dos homens os responsáveis pela corrupção da harmonia da Criação. Em vários ensaios Kant se apegava às ideais de Aristóteles sobre canais no interior da Terra. Dizia que sob nossos pés há cavidades e galerias estendendo-se por toda parte, contendo fogo brilhante que, com pequeno estímulo pode lançar-se a agitar ou mesmo fender a terra. O sábio grego não estava muito longe da hoje conhecida movimentação das chamadas placas tectônicas. O que eles queriam dizer, em síntese, é que o raio que cai na cabeça de quem reza nada tem a ver com Deus. Contemporâneo, Mahtma Ghandi (1869-1948) tinha uma explicação mais chã: "Deus não tem religião". Para não ser considerado ateu teria que acreditar nele mesmo.

A tragédia vivida há dias pelos japoneses, certamente foi a mais documentada da história. Hoje qualquer pessoa pode registrar cenas com o telefone celular. Há câmeras espiãs em todo cenário urbano. A tecnologia possibilitou a captura de imagens ao vivo dos efeitos dos tremores, da invasão das águas, da destruição, e o que se segue desde o vazamento de radiação das usinas atômicas, em Fukushima. O que surpreende em todas as imagens mostradas pela televisão, altamente dramáticas, é que não há uma única cena onde os flagelados demonstrem desespero. Nenhum grito. Sobreviventes procuram ajudar outros a sobreviverem. Ninguém reclama, protesta ou berra. As pessoas sequer tocam no que sobrou. Nada de saques às joalherias e nem mesmo aos supermercados para conseguir água e comida.

A cultura japonesa está alicerçada no coletivismo. É muito melhor juntar as forças para reconquistar o que foi perdido do que gastar energia em lamentações. Os brasileiros estranhavam, no século passado, o costume das famílias japonesas imigradas dormirem, pais e filhos, todos sob o mesmo alcochoado. Mal percebiam que o coletivismo dos japoneses, que leva à cooperação, à disciplina e à obediência hierárquica dentro da família nasce desse ato singelo de dormirem aconchegados. Um esquenta o outro. O princípio do Iluminismo é parecido: os seres humanos estão em condições de tornar este mundo melhor mediante introspecção, livre exercício das capacidades humanas e engajamento político-social. Kant dizia que nós, humanos, precisamos ter coragem de fazer uso da própria razão e não sermos tutelados. Nem por Deus. "A fé começa quando termina o pensamento", arrematou Kierkegaard quase um século depois. Hiroxima e Nagasaki foram totalmente destruídas por bombas atômicas. Mais de cem mil morreram em cada cidade e outras 300 mil sofreram e ainda sofrem consequências da radiação. Hoje são duas cidades-jardins. Os japoneses nunca condenaram nem a Deus e nem aos norte-americanos pela crueldade despejada do céu. Em meio às flores, monumentos e obras de arte evocativas, cuidaram de deixar algumas marcas do holocausto para lembrar ao mundo a estupidez humana, para que ela não se repita. Riobaldo (Guimarães Rosa ? 1908-1967) retemperava: "O diabo é às brutas, mas Deus é traiçoeiro". No Juízo Final, Ele acerta as contas sem maiores tragédias.


O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC

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