Mesmo estando em um grupo de quatro pessoas, num local movimentado por barzinhos e baladas e em um horário considerado normal para a diversão, meia-noite, dois casais de Bauru viveram o drama de ser vítimas de três crimes: sequestro-relâmpago, roubo e estupro.
Tudo começou quando os dois casais foram vítimas de sequestro-relâmpago no início da madrugada de ontem, na zona sul de Bauru, quando saíam de uma lanchonete na avenida Getúlio Vargas. Após roubarem dinheiro, relógios e aparelhos celulares das vítimas, o grupo foi levado até um matagal, onde as duas meninas, de 17 e 18 anos, foram estupradas. Existe a suspeita de que os autores sejam dois presos beneficiados pela saída temporária de Páscoa.
As investigações sobre o caso estão sob sigilo e os nomes das vítimas não serão revelados para evitar constrangimentos. De acordo com o que foi apurado pela reportagem, os rapazes, de 18 e 19 anos, e as duas garotas deixaram o estabelecimento por volta da meia-noite. Quando seguiam em direção a um Pálio, que estava estacionado na quadra 9 da rua Doutor Fuas de Mattos Sabino, o grupo foi rendido por três homens, dois deles armados com revólveres.
Por motivos ignorados, um dos indivíduos, que estava encapuzado, não prosseguiu com a ação. Os outros dois obrigaram as vítimas a embarcar no banco traseiro e assumiram a direção do veículo. Durante todo o tempo, elas permaneceram com as cabeças abaixadas. Em um matagal, possivelmente próximo ao bairro Val de Palmas, os jovens foram obrigados a entregar seus pertences aos ladrões.
Não satisfeitos com a quantia entregue, eles ainda tentaram assaltar a residência de uma das meninas. Ao chegar em frente à casa, a dupla desistiu da ideia ao avistar o pai dela na calçada e seguiu até um matagal às margens da rodovia Comandante João Ribeiro de Barros (SP-294), a Bauru-Marília. Lá, os meninos foram separados das meninas e as duas foram estupradas por um dos acusados, um homem de cor negra, alto, com barbicha.
Em seguida, os dois homens fugiram abandonando as vítimas e o veículo no local, próximo a um posto de combustível. Os jovens foram até a casa de um deles, onde acionaram a polícia. Até o fechamento desta edição, os envolvidos no crime não haviam sido localizados. Informações extra-oficiais dão conta de que uma das meninas seria filha de um agente penitenciário e que os acusados tinham conhecimento do fato, o que poderia indicar uma suposta premeditação ou até mesmo vingança.
Contudo, em razão do sigilo solicitado pelas famílias dos jovens à polícia, o JC não conseguiu confirmar esta informação. A reportagem também não conseguiu confirmar se o ato sexual contra as duas meninas foi efetivamente consumado (se houve a conjunção carnal) e se, em algum momento, elas chegaram a observar se os acusados utilizavam tornozeleiras eletrônicas, equipamento obrigatório para alguns detentos da "saidinha".
Saída temporária
Segundo o tenente-coronel Nelson Garcia Filho, comandante do 4.º Batalhão de Polícia Militar do Interior (4.º BPM-I), se a suspeita de que os envolvidos tratam-se de presos beneficiados pela saída temporária de Páscoa for confirmada, o que fica para a Polícia Militar é uma sensação de trabalho perdido. "Nosso serviço de inteligência está trabalhando para verificar se as fotos das pessoas da saída temporária batem com a descrição feita pelas vítimas", conta.
"Para nós, é uma situação difícil porque a polícia combate o crime diariamente, cedo, tarde e noite, a gente executa as prisões. Mas chega um momento em que essas pessoas, até por cumprirem determinado tipo de requisito nas penitenciárias, acabam saindo por direito. Muitas vezes, dá a impressão de que estamos enxugando água com a torneira aberta".
O comandante propõe que a liberação dos detentos passe a ser feita de maneira diferente, em datas alternadas, por meio de doses homeopáticas, para que a PM possa dar conta de monitorar essas pessoas, sem comprometer o atendimento de rotina à população. "Os juízes da nossa região são muito bons porque acabam fazendo um tipo de saída onde não saem todos de uma vez só. Eu acho bem positivo", afirma.
"Mas a gente deveria estar pesando, por exemplo, é uma sugestão, se eles pudessem sair na data do aniversário deles, ou durante os 365 dias do ano. Nós íamos ter, talvez, menos pessoas saindo de uma vez. Ficaria pulverizado e daria para a gente combater, ao mesmo tempo, o crime que a gente combate diariamente e também monitorar os presos".
Na manhã de anteontem, conforme divulgado pelo Jornal da Cidade, 2.883 detentos que cumprem pena no regime semiaberto em três presídios de Bauru foram beneficiados pela chamada "saidinha" de Páscoa. Do total, 838 são do Instituto Penal Agrícola (IPA), 967 da Penitenciária 1 (P1) e 1.078 da Penitenciária 2 (P2).
Segundo o major da PM Airton Martinez, apenas 168 presos que moram em Bauru devem utilizar tornozeleiras eletrônicas de monitoramento nos dias em que estiverem fora de suas respectivas entidades prisionais. O retorno dos detentos deve ocorrer até as 17h de amanhã.
A saída temporária é assegurada pela Lei de Execuções Criminais, que determina que o benefício seja concedido em cinco datas por ano: na Páscoa, Dia das Mães, Dia dos Pais, Dia das Crianças ou Finados e no Natal e Ano Novo. A medida tem como objetivo ajudar o preso no processo de reinserção à sociedade.