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Sociedade dos ex-presidentes vivos

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

O discurso é guiado por espectros. Ao falar ou escrever tentamos materializar fantasmas. Assim parece demonstrar o artigo escrito pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso sobre "O papel da oposição". A reação do outro ex, Lula da Silva, veio rápida desde Londres, onde exerce sua nova profissão: conferencista. FHC escreveu artigo para uma revista onde aconselha o seu partido, o PSDB e seus aliados, a desistir de disputar com o PT a influência sobre "os movimentos sociais" ou o "povão", isto é, sobre as massas carentes e pouco informadas, sob pena de "falar sozinho". Isto porque o governo "aparelhou", cooptou com benesses e recursos as principais centrais sindicais e os movimentos organizados da sociedade civil e dispõe de mecanismos de concessão de benesses às massas carentes mais eficazes que a palavra dos oposicionistas, além da influência que exerce na mídia com as verbas publicitárias. Lula entendeu, mas não perdeu a deixa: "Nós já tivemos políticos que preferiam cheiro de cavalo que o povo. Agora tem um presidente que diz que precisa não ficar atrás do povão, esquecer o povão. Eu sinceramente não sei como é que alguém estuda tanto e depois quer esquecer o povão".

Os ex-presidentes procuram exorcizar os seus fantasmas. De um lado o sociólogo espera que a classe C, à medida que escapa da pobreza seja mais imune aos apelos populistas. Na outra banda o populismo persiste na figura do "pai dos pobres" ? agora metamorfoseado em mãe. O populismo atende a um clamor em países onde a população pobre é ainda muito expressiva. O PT soube se apossar do destino dos mais pobres. Quem nada tem só houve o apelo da benesse para poder sobreviver. Numa campanha eleitoral não entra em jogo uma causa, a razão, o país. Só o poder a qualquer custo. Sabemos todos que o "Estado Democrático de Direito", mencionado na Constituição, não passa, em nossa triste realidade, de uma peça de ficção política. A democracia pressupõe a atribuição efetiva (e não simbólica) da soberania do povo, devendo os órgãos estatais atuar como meros executores da vontade popular.

Entre nós esse esquema funciona em sentido inverso. A soberania pertence de fato aos governantes, que vivem numa espécie de estratosfera ou círculo celeste, onde são admitidos, tão-só, os que detêm algum poder econômico ou alguma influência junto ao eleitorado e à opinião pública. Todos os demais cidadãos são confinados cá embaixo, como simples espectadores. Os governantes de há muito lograram transformar a representação política em representação teatral; eles encenam, perante o povo, a farsa do rigoroso cumprimento da vontade eleitoral. FHC só quis demonstrar como se dá esse mecanismo e qual a melhor estratégia de lutar com as mesmas armas.

Ou seja, não vale à pena gastar energia naquilo que foi conquistado e consolidado pelo adversário. Melhor partir para novos nichos de mercado. "Até a virtude tem necessidade de limites" ? disse Montesquieu ao analisar a montagem dos mecanismos do poder e do contrapoder (O Espírito das Leis). Por isso os eleitores são tratados como mercadoria. É preciso fazer de tudo para descobrir os instrumentos mais eficientes para assumir o controle das coisas. Não só na política, onde os marqueteiros hoje ganham milhões com as suas fórmulas de sucesso eleitoral. Ninguém resiste às seduções do poder, às suas pompas, às suas glórias. "Não há coisa que mais mude os homens", observou com ironia o padre Vieira, "do que o descer e o subir; e o subir muito mais do que o descer".

A UDN já recorreu à classe média na década de 50, sem sucesso. Acabou extinta com a pecha de "elitista", a mesma que agora tentam pespegar no PSDB. A novidade está no uso da internet. FHC parece ter descoberto a força mercadológica da grande rede, tanto que enfaticamente sugere o seu uso pela oposição ? ele próprio está construindo um grande portal nesse sentido. Fora isso, resta a inabilidade do ex-presidente no uso das palavras, ainda que o seu artigo, como tese acadêmica, seja reconhecido como de boa qualidade. Mas, uma coisa é algo escrito por um sociólogo, outra quando escrito por um político e dirigido aos políticos.

Daí a confusão que produziu e do qual Lula e o PT se aproveitaram. A baixaria intelectual distorceu a essência da questão do ensaio. Perdeu-se a oportunidade de debater como os partidos políticos podem voltar a interpretar o que realmente interessa à sociedade, em tempos de transformação. Os ex-presidentes, vivos-mortos ou mortos-vivos, tratam do destino do povo como se fosse tema exclusivo de uma sociedade privada.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC

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