Munir Zalaf, 84 anos, é um homem incorrigivelmente idealista e romântico. Certamente, suas mais de oito décadas de vida contribuíram para que ele adquirisse a fascinante sabedoria que deixa transparecer pelo tom de voz sempre baixo e calmo.
No decorrer da vida, Munir ganhou, mais do que números na idade, uma ampla bagagem cultural e intelectual, construída lentamente com intensas pitadas de literatura, e aprendeu a ver a vida com olhos de poeta.
João Henrique S. Paschoal, 29 anos, é estudante de design e apaixonado por Rolling Play Game (RPG), um tipo de jogo feito, basicamente, com elementos do imaginário. Seus cabelos compridos e o visual despojado são, além de marcas de sua personalidade, um atestado de sua juventude. Como jovem que é, João busca inspiração nas aventuras dos heróis de histórias em quadrinhos e parece não ter medo do futuro
Agora a pergunta: o que Munir e João Henrique tem em comum? A resposta é simples: ambos são curiosos, apaixonados pela leitura e têm muita sede de saber. Além disso, os dois compõem o rico time de escritores bauruenses que batalham para despertar nos jovens o interesse pelos livros.
Munir iniciou a carreira literária cedo: escreveu os primeiros poemas aos 12 anos. Assim como João Henrique, seu mergulho na leitura também começou pelos gibis. Depois, passou para os clássicos infanto-juvenis e, quando tinha cerca de 16 anos, já devorava obras dos grandes mestres da literatura.
Hoje, Munir soma quatro livros publicados e um quinto engatilhado, esperando apenas por revisão. Além disso, há 14 anos orgulha-se em compor a Academia Bauruense de Letras (ABLetras) e já contabiliza 10 anos como ocupante da cadeira de presidente.
Já João começou a carreira de escritor em 2002, quando decidiu se aprofundar no universo da leitura para desenvolver sua capacidade narrativa, fundamental para criar histórias e cenários para as partidas de RPG. Em 2004, deu início ao seu primeiro grande projeto: o livro Primeira Alvorada ? A Lua, o número um da trilogia.
Como iniciante no rol de escritores bauruenses, João Henrique conta que encontrou muitas dificuldades para publicar sua obra e, em muitos momentos, foi colocado em cheque, por parte das editoras, se, de fato, seu livro teria consumidores.
"É um meio muito complicado de entrar. Eu fiquei meio perdido. O livro estava pronto e eu não sabia como chegar até as editoras. Na verdade, muitas preferem importar best sellers, como Harry Potter e Crepúsculo, do que dar crédito às pratas da casa. No fim, para publicar o livro, os escritores acabam colocando verba do próprio bolso", explica.
Desafio
Vendo que atrair a atenção dos leitores seria um grande desafio, João Henrique decidiu dar um formato interativo à obra e disponibilizou um conteúdo complementar ao livro no endereço virtual www.primeiraalvorada.com.br/site.
"É uma forma de oferecer algo a mais ao leitor. No site tem várias ilustrações, feitas por mim mesmo, mas que não entraram no livro senão o custo da impressão se tornaria inviável", justifica.
Já Munir, para despertar o interesse dos leitores pelos livros, adotou uma outra tática: realizar palestras para estudantes das escolas da cidade. Atualmente, segundo suas contas, ele já falou para mais de 6 mil alunos a respeito do tema.
"Se um por cento deles captou minha mensagem e deu uma chance aos livros eu já me dou por realizado. Significa que consegui mudar para melhor a vida de, pelo menos, 60 crianças e adolescentes", calcula.
Embora adotem métodos diferentes, tanto Munir quanto João Henrique acreditam que o esforço para despertar no público jovem o interesse pela leitura deve ser estendido às bibliotecas municipais da cidade.
"Acho que a biblioteca tem de ser atrativa. Quem sabe se passasse por uma reformulação de acervo e organização. Acho que este espaço deve ser um local movimentado, confortável e agradável, que não tenha cara de depósito de livros", opina João Henrique.
Feira do Livro vai até quarta
Para quem não visitou a 11ª Feira do Livro Infantil, ainda há tempo. O evento, que teve início no último dia 12, está sendo realizado no Serviço Social do Comércio (Sesc), tem entrada gratuita e vai até o próximo dia 20.
Este ano, os visitantes poderão bater um papo com autores de livros, participar de brincadeiras recreativas, oficinas de origami e artes; assistir a apresentações teatrais, curtas e animações; e ainda mergulhar no universo da literatura visitando os estandes dos 12 expositores que compõem o evento.
O dia 19, por exemplo, está cheio de atrações. Nesta data, às 9h, o ator e contador de histórias João Acaiabe, o Tio Barnabé, do Sítio do Pica-pau-amarelo - destaque desta edição -, apresenta ao público um repertório de contos, lendas, poemas e cantigas. Já às 15h é a vez da bióloga e escritora Martha Argel levar aos visitantes da Feira os encantos do repente, do cordel e da literatura fantástica.
De acordo com o secretário municipal da Cultura, Elson Reis, o evento já se tornou tradição na cidade e a cada ano traz resultados cada vez mais positivos para o município. Este ano, por exemplo, a Feira teve de ser transferida do Centro Cultural, onde foi realizada nos anos anteriores, para o Sesc, por conta do espaço.
"É uma forma de estimular o interesse das crianças e até mesmo das famílias pela leitura. E tem dado certo. Depois da feira é possível perceber um interesse maior pelos livros, tanto é que a frequência nas bibliotecas aumenta consideravelmente", aponta.
Mas os lucros da feira vão além da esfera cultural. Isso porque cada expositor repassa à Secretaria Municipal da Cultura 10% de todo o valor arrecadado com a venda de livros no evento. Verba que é utilizada para enriquecer o acervo das bibliotecas municipais.