Economia & Negócios

Trabalho evoluiu da obrigação para a realização

Luiz Beltramin
| Tempo de leitura: 2 min

Mais que um chavão, um clichê, o trabalho, de fato, dignifica o homem. Uma profissão, muito mais do que a garantia do ter, dá às pessoas a noção de ser. Estar desempregado ou tampouco possuir um ofício definido significa vazio existencial, mesmo para aqueles que, independentemente dos motivos, não necessitariam da labuta diária para sobreviver ou manter uma família.

Numa perspectiva psicossocial, comenta o sociólogo Hilário Rosa, o ócio prolongado em demasia é sinônimo de falta de sentido à própria vida. "Queira ou não, todos temos o potencial, a força de trabalho, que pode ser tanto física quanto intelectual. Isso, de algum modo, tem de ser colocado em prática. O emprego é a razão de ser do ser humano", relaciona.

Para o estudioso, uma das, segundo ele, grandes tragédias da modernidade é a substituição da força de trabalho humana pela automação deflagrada desde a Revolução Industrial. No entanto, ele acredita que a educação tem potencial para que o contingente excluído pela tecnologia, independentemente à área de atuação, pode conjugar as vertentes humana e mecanizada.

Outro conflito na relação psicossocial do trabalho com a própria existência humana, salienta o sociólogo, está na eterna "guerra de sexos". Com a conquista cada vez maior de espaço da mulher no mercado de trabalho ? apesar das estatísticas ainda afirmarem que as profissionais ganham menos do que os homens ?, a parcela masculina, aponta o estudioso, tende a se sentir inferiorizada.

Isso acontece principalmente dentro de casa, quando a mulher é o carro forte que puxa a economia familiar. "Isso é um claro sinal de machismo, que também é um fenômeno psicossocial", atesta o sociólogo. "Para muitos homens, o fato da mulher figurar na dianteira da economia de casa, com salário maior, significa humilhação", constata.

Esse complexo de inferioridade, comenta o sociólogo - que remete até mesmo a tempos tribais em que a mulher naturalmente se dedicava até mesmo a atividades primordialmente braçais, como a agricultura ?, é reflexo de uma cultura construída ao longo dos anos, com a obrigatoriedade de liderança familiar incutida ao sexo masculino. "É cultural. Sempre se espera que a cabeça do casal seja o homem. É algo incutido na cultura civilizada, até mesmo no Direito", argumenta.

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