Uma das primeiras informações divulgadas sobre a ação militar que matou Osama Bin Laden foi do encontro, no seu esconderijo, de "uma grande quantidade" de pets de Coca-Cola e Pepsi. A leitura óbvia é de que ninguém resiste aos ícones do império capitalista, nem mesmo o seu "Inimigo Número 1". Se os mariners não acharam nenhuma embalagem com o logotipo do McDonald?s é porque o terrorista vivia muito isolado. Fidel Castro também já foi fotografado bebendo Coca-Cola na boca da garrafa. Os desejos de consumo, mesmo os inconfessáveis, fazem parte do nosso consciente. Outras utilidades encontradas na mansão de Bin Laden começam a ser agora reveladas. Medicamentos para úlcera, estresse e pressão alta. Foi descoberto um xarope de estrato de aveia para aumentar a potência sexual. O homem tinha três esposas jovens morando com ele. Daqui a pouco, o xarope estará sendo vendido pela Internet, como "um santo remédio" para quem não dá conta da única que tem em casa. Aliás, os souvenires de Bin Laden já são comercializados nas lojas da rede. Camisetas com a cara do "campeão mundial de esconde-esconde"; "Osama Bin Killed" (Osama foi morto) e outra que diz "Osama, comida de peixe, 100% morto". Bonés, chaveiros, canecas e o mais que você queira criar já fazem parte de uma indústria que movimenta milhares de dólares.
Nada resiste ao capitalismo avacalhador. O ataque ao terrorismo envolve muito dinheiro e uma indústria de guerra poderosíssima. A caçada a Bin Laden custou US$ 1,3 trilhão para os Estados Unidos. O líder da Al-Qaeda foi morto como parte de uma cruzada contra o terrorismo que, desde que foi lançada em 11 de setembro de 2001, envolveu duas guerras e o gasto trilionário para o Tesouro dos EUA. A guerra ao terrorismo é para os americanos a segunda mais cara da história, de acordo com cálculos do economista e ganhador do Prêmio Nobel Joseph Stiglitz. Ele estima que a Segunda Guerra Mundial tenha custado US$ 5 trilhões para os americanos em valores atualizados. Com muito menos que um trilhão seria possível acabar com a fome no mundo e descobrir tratamentos para todas as doenças graves, inclusive o câncer nas suas variadas formas. Será que o mundo ficou melhor e mais seguro sem Bin Laden? Duvido que os extremistas islâmicos se sintam dissuadidos a prosseguir espalhando o terror. Washington apoiou muitos ditadores que maltratavam o povo porque os julgavam importantes para conter o terrorismo islâmico. O próprio Bin Laden foi apoiado pela CIA quando lutava contra os russos no Afeganistão. As rebeliões no mundo árabe mostraram que um dos berços do terror é a pobreza, a ignorância e a falta de perspectivas. Agirá com inteligência a Casa Branca se apoiar decididamente a luta do povo árabe por democracia e liberdade, e, com a comunidade internacional, ajudá-lo na transição.
O presidente Barack Obama foi o primeiro e natural beneficiado com o marketing do sucesso da ação dos "navy seals". Sua popularidade subiu 11%, mesmo com um governo até aqui medíocre. Está assegurada sua reeleição. Nem será preciso convencer os milhões de eleitores que duvidam da morte de Bin Laden, porque o corpo não foi mostrado. Estatisticamente é irrelevante: 24% dos americanos acham que Obama é muçulmano e 7% acreditam que Elvis Presley não morreu. O que importa para a sociedade é o sucesso. O fracasso de Jimmy Carter na missão de resgatar os funcionários da embaixada norte-americana em Teerã, em 1979, custou a sua derrota para Ronald Reagan no ano seguinte. Os seis helicópteros enviados para o assalto ao prédio onde estavam os 52 presos foram colhidos por uma tempestade de areia, dois deles explodiram e a missão teve que ser abortada.
Invadir um país, caçar um criminoso que poderia ser capturado vivo, jogar o seu corpo no mar... Isso é legítimo? Em primeiro lugar, um Estado democrático tem o direito de agir contra terroristas, em ações de contraterror, identificando e eliminando um alvo militar legítimo. Isto não destoa de qualquer noção de democracia ou de Estado de Direito. Não há reclamação formal do governo do Paquistão. O país recebe ajuda financeira substancial dos EUA, que prometem ampliar o cala-boca. A ação de capturá-lo vivo e levá-lo a julgamento poderia desencadear mais conflitos. Bin Laden não era um chefe de Estado deposto, como Sadam Hussein. Ele era chefe de uma organização terrorista clandestina. Vivo ou morto as críticas seriam as mesmas. Se apresentarem fotos do corpo, inúmeros clérigos muçulmanos levantarão vozes para dizer que isso afronta a dignidade humana. Se não apresentarem, dúvidas surgirão sobre a morte do terrorista. A melhor escolha foi mesmo a de Bin Laden aguardar no fundo do mar o julgamento da história. O homem matou três mil pessoas em Nova York, destruiu as Torres Gêmeas, explodiu embaixadas, homens-bombas eliminaram milhares de muçulmanos. Agora está morto e ponto final.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC