Sempre fiquei intrigada com a expressão: ele (a) é filho (a) de mãe solteira. A sociedade, não só a brasileira, é machista por excelência e não deixa de adotar expressões que menosprezam a mulher. A expressão "mãe solteira" é por demais desprezível, reprovável, cabendo impugná-la com veemência. O termo solteira é sinônimo de estado civil, como casada, viúva, divorciada. Não tenho conhecimento de ter ouvido: mãe casada; mãe viúva ou mãe divorciada.
Todos os meios de comunicação, a literatura (veja no livro Comprometida ? pag. 162 ? Gilbert, Elizabeth) e nós, de forma corriqueira, sempre nos referimos à mulher, no estado civil de solteira, que gerou e assumiu o nascimento e a criação de um filho, sem manter convivência com o marido, namorado, companheiro, parceiro, ou melhor, com o pai biológico de seu filho, passam a estigmatizá-la como mãe solteira, que não traduz a lei, mas o desrespeito ao princípio da dignidade humana assegurado por nossa Constituição Federal.
A expressão mãe solteira simplesmente traduz que a mulher ao optar pela manutenção da gravidez ou da adoção, no estado civil de solteira, transgride normas e afronta a sociedade. Em outros tempos, a gravidez representava a desonra da família, por expor publicamente a materialização da feminilidade/sexualidade antes do casamento, instituição que estabelece a comunhão plena de vida, com base na igualdade de direitos e deveres entre os cônjuges, ou seja, entre um homem e uma mulher.
Ser mãe na atualidade, frente a todo o avanço da ciência, é opção. É ato de amor, não só para com o filho, concebido ou adotado, mas para com a humanidade na preservação da espécie. As "transgressões" das mulheres não têm como objetivo somente o prazer sexual, a procriação, a convivência, mas sim a preservação de um povo, a continuidade da família e o futuro de uma nação. Mãe é palavra singular, única, exclusiva dos filhos, concebidos ou adotados, por uma mulher.
Sueli Maria Calonego - assistente social e advogada