Estive fora de Bauru quase todo o mês de maio passado. De volta recebi de uma colega , professora aposentada do magistério estadual, dois exemplares do JC, dos dias l2 e l3, para que os lesse. O do dia l2, a matéria se referia ao artigo intitulado "Intervalo do professor: rito sagradao"", de autoria da professora e jornalista Cátia Carriço, publicado no espaço Opinião - página 2. O do dia l3 se referia à reportagem sob o título - ?Recreio dirigido continua gerando conflito nas escolas da rede municipal". Lidas as matérias, pelos assuntos abordados lembrei-me do Bolteim nº 4, do Centro do Professorado Paulista, intitulado "O Professor" (seu trabalho e seus problemas, deveres, direitos, frustrações e compensações, fé e compromisso). Esse Boletim publica na íntegra o pronunciamento feito pelo então presidente do Centro do Centro do Professorado Paulista, já falecido, prof. Sólon Borges dos Reis, em 15 de outubro de 1976, perante altas autoridades e o professorado, na antiga sede do CPP, em São Paulo, em celebração ao Dia do Professor.
Entendo oportuno esclarecedor extrair desse pronunciamento, feito há 35 anos passados, neste particular a parte referente ao trabalho do professor, especificamente o exercício da função docente. Procurando ser objetivo, atenho-me ao assunto em análise, ?recreio dirigido pelo docente?.
"Nós, do Centro do Professorado Paulista, dizemos: não há dinheiro que pague o trabalho do professor, mas o trabalho do professor precisa ser pago também com dinheiro. Por que não há dinheiro que pague esse trabalho?. Porque é um trabalho realizado com a criatura humana em termos de futuro e é, singularmanete, importante para os destinos da pessoa, da coletividade, da família, da pátria e da humanidade. Trabalho que não se faz com madeira, com couro ou latão, mas se faz com a matéria-prima imensurável que é a criatura humana, a natureza humana. E é esse trabalho que merece da coletividade o aplauso, o acoroçoamento, o reconhecimento, a gratidão.
Para o Centro do Professorado Paulista, o trabalho do professor não se pode medir apenas por horas de permanencia dentro de uma sala de aula. Os termos da medida devem ser outros e a escola não pode ser encarada exclusivamente sob parâmetros de empresa, mas também em termos de instituição, com uma responsabilidade teleológica que vai muito além do êxito e da eficiência. Para que a escola não se perca na burocracia, não se afogue na papelada, mas tenha sempre em vista o objetivo de alcançar a finalidade última do ensino, que é a criança e o jovem.
É preciso muito cuidado para impedir a inversão de fins e meio. Em qualquer regime, em qualquer sociedade, o papel do professor assume realmente uma relevância muito grande.
O desgaste da função docente comporta um paralelo para esclarecimento. Na administração e no cargo técnico, é possivel protelar um trabalho para depois, bater um papo, tomar um café. Mas dentro da sala de aula, isto é impossivel. É preciso enfrentar os alunos, nas classes numerosas, heterogêneas e buliçosas destes tempos agitados. Ai do profesor que não ocupar seus alunos, porque não manterá a dísciplina e será vítima se parar um instante para descansar ou pensar. Aluno ocupado, aluno disciplinado. Durante o tempo emque o professor permanece na sala de aula, ele se desgasta muito mais do que em atividade administrativa, técnica. Não por ser homem ou mulher, mas porque a função docente é penosa e desgastante. À porta do Departamentop Médico Civil do Estado chegam filas de professores ?docentes? com os ouvidos moucos, a garganta rouca, e o sistema nervoso, às vezes, afetado.
Conclusão: recreio escolar dirigido pelo professor-docente após o exercício da docência é desconsiderar o desgaste da função docente e descanço natural do professor, além de ser um desvio de função.
Rodolpho Pereira Lima - professor aposentado e membro do Conselho Superior do Centro do Professorado Paulista - CPP