A televisão aberta é tão ruim porque exige muita pressa em seu processo de produção. Tudo tem que ser rápido para cumprir os horários apertados. O resultado é um conteúdo quase sempre "meia boca". Preste atenção em qualquer ator mediano dessas novelas da Globo - esses que não convencem muito, mas têm algum talento (bem lá no fundo). Assista a qualquer trabalho que esse mesmo ator tenha feito no cinema e compare. É praticamente impossível ser melhor na TV do que no cinema.
O cinema tem um tempo mais longo, o diretor assume as rédeas das filmagens, conduz o artista, pede para repetir quantas vezes forem necessárias. Não tem como ser pior que a novela.
Mas a TV também tem coisas incríveis. Outro dia eu assisti ao documentário sobre o Chacrinha. Seu anarquismo não era uma tentativa de fazer algo anárquico como desculpa para o amadorismo, como fazem hoje. Chacrinha tinha ótimas ideias. Não me lembro qual foi a bobagem que o governo (em plena ditadura) fez, que provocou o aumento desenfreado do preço do bacalhau. Chacrinha mandou comprar um monte de bacalhau e começou a jogar no público. Pelo que deu para entender, o programa era uma orgia, cuja parte menos picante (a do palco) era transmitida ao vivo. Nos bastidores deveria ser pior.
Aliás, os anos 80 foram os mais radicais em se tratando de loucura e excessos de toda sorte. Quando se fala de insanidade, subversão e romper tabus, todo mundo lembra da contra cultura dos anos 60. Mas os anos 60 traziam um projeto de um novo mundo. Havia a contestação, mas havia também a esperança de algo melhor, mais bonito, mais justo.
Depois vieram os anos 70, a sociedade da crise do petróleo, com o punk niilista - mas que pelo menos queria quebrar tudo. O objetivo dos punks era acabar com aquela sociedade e ponto. Não havia uma alternativa de mundo, ou algo que pudesse ser sonhado. Era a revolta pela revolta - o grito dos filhos dos operários desempregados pela crise -, mas acabava sendo revolucionário também.
Os anos 80, por sua vez, foram os anos do hedonismo, da depressão, do ego, da ressaca idealista, da falta de Norte. Por isso que o pessoal cheirou tanta cocaína. Era uma droga que falava bem daquele momento, pois dava um baita sentimento de poder e impregnava as pessoas de uma artificialidade gigantesca. A cocaína era yuppie como as pessoas deveriam ser naquela época.
No fundo, os anos 60 foram mais leves. Pelo menos no Brasil. Olha o Caetano Veloso, o Gilberto Gil... esse pessoal não ficou sequelado pela loucura. Mas pense em qualquer um que passou pelos anos 80 e preste atenção! Cazuza, Renato Russo, Rafael Ilha, Bozo... muita gente se deu mal. No documentário do Chacrinha (que mostra como aquelas pessoas vivem hoje) não tem um normal. Todos enlouqueceram com mais ou menos gravidade.
Eu tive sorte de pegar só o finalzinho dos anos 80. Ainda bem, acho que os anos 80 na íntegra teriam sido fatais para mim.
Por outro lado, foi a última década autêntica. Os cabelos dos anos 80 eram dos anos 80 mesmo. As roupas dos anos 80 eram dos anos 80 - assim como a sonoridade inconfundível das músicas. Aquela década não foi uma colagem de décadas anteriores, como foram os anos 90, por exemplo.
E foi uma década que conseguiu, como nunca, atingir o máximo do brega na cultura pop, ao mesmo tempo que atingiu a inteligência e a elegância na cultura alternativa. Hoje, raramente temos o privilégio de escolher a inteligência e a elegância. O lixo cultural impregnou quase tudo da pior forma. Podemos dizer, enfim, que nos anos 80 ainda tínhamos referências claras. Depois que a internet chegou, as identidades foram pro espaço, em todos os aspectos. Na casa do meu amigo Jaime (que tem uma coleção de 4 mil discos de vinil), eu ainda consigo apreciar um disco como uma obra de arte - a capa, o encarte, as letras.
O que eu baixo na internet, por mais que seja música do mesmo modo, soa como um quadro mal acabado, um signo opaco, uma imagem distorcida e imprecisa, uma fração daquilo que o artista gostaria de comunicar.
O autor, Luís Paulo Domingues, é professor de história e colaborador de Opinião