Ser

Profissão: fazer o bem


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Quando a pediatra Maria Cláudia Senatore Soares, 41 anos, decidiu ser voluntária do Médicos Sem Fronteiras (MSF), organização médico-humanitária, em 2008, a mãe dela quase enfartou. Passado o susto, veio a satisfação e o orgulho da família. A vontade de colaborar com o MSF vinha há tempos, mas ela esperou até que estivesse numa situação financeira estável.

Sem marido ou filhos, se inscreveu, e encarou um rigoroso processo seletivo semelhante ao de um emprego: comprovou fluência em idiomas, experiência profissional, passou por simulações e teve seu perfil psicológico analisado. "Perguntaram qual seria a minha reação diante de situações extremas", conta ela.

Por definição, voluntário é quem age espontaneamente; é o soldado que se alista por vontade própria. Na prática, são pessoas que trocam o centro urbano por um país longínquo em conflito, que abdicam do conforto do lar por um acampamento improvisado no meio da floresta ou em pleno deserto, que esquecem dos próprios problemas pelos outros.

Assim fez Maria Cláudia, um dos 88 brasileiros que participam de algum projeto no MSF, que atua em 65 países assolados por desastres naturais, conflitos e epidemias. Enviada à Etiópia, um dos países mais pobres do planeta, para trabalhar com crianças desnutridas, a médica encontrou condições precárias - sem chuveiro, geladeira ou banheiro.

Eu estava no meio do nada. Durante a noite, uma fogueira ajudava a espantar o frio", conta. O grupo de voluntários dormia em colchões em alojamentos montados pela instituição. "Minha vaidade era lavar o cabelo todo dia." Com água fria e de caneca.

Nos três meses em que ficou no país, Maria Cláudia penou, mas descobriu o lado positivo de não ter o celular à mão a todo instante. "Nesse tipo de situação, celular incomoda. E você percebe que é possível viver com pouco". E gastar quase nada. No caso do MSF, os voluntários recebem ajuda de custo diária para comida e necessidades básicas. "Você precisa de pouco. Tudo é muito barato."

Muito mais difícil do que as privações é a frustração de chegar tarde demais. "Acontece de às vezes a gente não ter como salvar pessoas que morrem de fome", diz. Situações extremas, como a morte, tocaram a médica. "Fiquei mais tolerante com o trabalho. Muitos mimos que a gente tem não são necessários." No mesmo ano, Maria Cláudia foi para o sudeste asiático, em Bangladesh, num projeto de saúde básica e combate à desnutrição. "Lá tinha até azulejo no meu banheiro", brinca a médica. Hoje, a pediatra trabalha em um hospital particular de São Paulo e programa na agenda os períodos em que sai em missão. No ano passado, os brasileiros do MSF estiveram em 42 países - Moçambique representa a maior incidência, com oito voluntários daqui.

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Ajuda por perto


Para desenvolver uma atividade voluntária não é preciso ir longe. A Cruz Vermelha é uma das instituições de ajuda humanitária mais conhecidas, e sua área de atuação se concentra no socorro de vítimas de desastres, prevenção e orientação de saúde. O processo seletivo, que atrai estudantes e profissionais de saúde, dura seis meses. As fortes chuvas e enchentes que assolaram em 2009 a região de São Luiz do Paraitinga, a 170 km da capital, levaram o empresário Fábio Leança, 27 anos, a se engajar. Lá, atuou na triagem de alimentos e roupas, além do atendimento de primeiros socorros. "Passei 17 dias lá. As condições eram muito ruins. Montamos abrigos improvisados, como os do Exército. Usávamos o banheiro de uma creche que ficava ao lado", conta ele, que dois anos depois ainda lembra de como a situação o chocou. "Não existia comida, não tinha onde dormir. As pessoas perderam tudo. Então mesmo que você doasse uma cesta básica, eles não tinham onde armazenar produtos, muito menos onde cozinhar. Uma situação de total impotência", diz Leança, que também participa de campanhas de saúde e conscientização na capital e no interior. "Ajudar ao próximo desperta a consciência de que pequenas atitudes podem fazer grandes mudanças. Hoje, penso muito antes de fazer qualquer coisa para não prejudicar ninguém."

Luta verde

Nem todo mundo tem estrutura psicológica para atuar em catástrofes como a de São Luiz do Paraitinga ou se desligar de uma rotina fixa de trabalho para se dedicar ao trabalho voluntário. Causas ligadas ao meio ambiente, como as defendidas pelo Greenpeace, exigem menos dedicação. Famosa pelas campanhas agressivas de proteção à caça de animais e contra navios pesqueiros, a instituição foca, aqui no Brasil, o trabalho de conscientização da sociedade. Rosto pintado e faixa na mão, a administradora de empresas Bruna Buchman, 28, pôs os protestos na agenda há três anos. Na semana passada, sua última tarefa foi participar de uma manifestação contra o Código Florestal, no Parque do Ibirapuera, na zona sul de São Paulo. "Faço por ser algo em que realmente acredito. Sinto que estou cumprindo meu dever", diz Bruna. "Sempre quis lutar pela causa ambiental. Eu me identifiquei com o Greenpeace." Para se tornar um ativista, é preciso estar disposto a ações arriscadas. Todas as situações exigem algum tipo de preparo. Com escritórios espalhados no mundo todo, a instituição mobiliza voluntários locais para suas ações.

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Embarque imediato


Trabalhar por longos períodos longe de familiares, ter formação superior completa e dominar um segundo idioma são apenas alguns dos requisitos na formação das missões internacionais da instituição. A maioria dos voluntários vem das áreas de saúde, como médicos, enfermeiros, psicólogos, mas também integram a lista administradores, economistas e logísticos. Curiosamente, a maioria dos voluntários nacionais no MSF é mulher, na faixa dos 30 anos: elas são 61% do contingente brasileiro.

A psicóloga paulista de 28 anos Ana Cecília Moraes é uma delas. Em 2006, ela começou o trabalho com o MSF, no escritório de recursos humanos. Dois anos depois, foi enviada para Nairóbi, no Quênia. Na região marcada por graves conflitos étnicos, funcionários eram ameaçados de morte e o papel de Ana era gerenciar essa crise. Muito mais simples é convencer o marido de suas viagens, que ele sempre apoia, como toda sua família. Voluntários como Ana recebem cerca de R$ 2.200 (mil euros) mensais para despesas. O trabalho de deslocar uma equipe para um determinado projeto exige muito planejamento e um sistema de logística. As condições de acomodação variam. Muitas vezes, a comida se resume a enlatados. Em 2009, a psicóloga foi para a República Democrática do Congo para atender portadores do vírus HIV. No ano seguinte, foi passar um mês num Haiti recém devastado por um terremoto que deixou 200 mil mortos. Além do cenário caótico, o relacionamento com os membros da equipe também traz dificuldades. "Você fica separado da população local por ser estrangeiro, então já existe uma segregação. E nem sempre as pessoas com quem você trabalha estão tão motivadas como você. E o trabalho é complexo", diz a médica. "Você salva uma mãe e o bebê dela e em seguida eles voltam às ruas, porque simplesmente não têm para onde ir. A gente tenta fazer nossa parte, mas não dá pra resolver todos os problemas do mundo. É um grande desafio."

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