Tribuna do Leitor

A MÁGICA DE UM SONHO DE UMA NOITE DE PRÉ-INVERNO


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Segunda-feira, dia 20 de junho, noite de pré-inverno, Bauru foi brindada com um privilégio sine qua non, quando a magnífica orquestra sinfônica de Botucatu, sob a regência do aclamado maestro dr. Marcos Virmond, diretor do Hospital Lauro de Souza Lima e professor de música de nossa querida Universidade Sagrado Coração de Jesus, juntou-se à prodigiosa pianista Silvia Molan para um concerto inédito de grande música de extraordinária beleza que, sem dúvida, marca uma data que deverá permanecer na história de nossa cultura para sempre.

O concerto se iniciou com a dinâmica e trágica abertura Coriolanus, de Beethoven, uma obra de grande impacto com seus acordes impressivos e poderosos caracterizando imediatamente a imponência do grande general romano que Shakespeare retrata em sua tragédia. As cordas, apesar de muito bem sucedidas nos compassos fortes e fortíssimos, não conseguiram o mesmo nos pianos e pianíssimos, mas em compensação a sessão dos metais demonstrou grande virtuosidade e sonoridade excepcional. O maestro, dr. Marcos Virmond, regeu com absoluta precisão, conseguindo uma dinâmica maravilhosa entre contrastes de sons poderosos e pianíssimos tão importantes nessa obra onde Beethoven penetra profundamente no psique e peculiaridades de cada personagem trágica ou conciliatória da obra shakespeariana.

A segunda peça, a Marcha Nupcial de Felix Mendelssohn, que também se trata de música incidental a outra obra de Shakespeare, "Mid summer night dream", "Sonho de uma noite de verão", a orquestra esbanjou virtuosismo, especialmente entre os trompistas Adriano Bueno, Robson Bertinotti e Tiago Crepaldi, que demonstraram grande domínio desse instrumento tão temperamental e exigente. Os trompetes e trombones uniram-se às trompas e a mágica foi total. O público que lotou o auditório foi ao delírio e o mesmo aconteceu após a interpretação maravilhosa da abertura de Zampa de Herold F.

Depois de tanta emoção e fascínio, fomos transportados à dimensão do mundo desconhecido dos noumena das coisas que existem em si mesmas que, segundo a Schopenhauer, cujo sentimento pela experiência musical ultrapassa o de qualquer outro filósofo do século XIX, "precisamos atribuir à música um significado mais sério e mais profundo, referente à mais íntima existência do mundo e de nosso próprio ser". O momento mágico começou com a entrada da magnífica jovem pianista Silvia Molan, nascida em Jaú, mas que é considerada a mais preciosa "prata da casa" e que tem o potencial de vir a ser a próxima a ocupar o lugar da memorável Guiomar Novaes, considerada pela crítica mundial como "a primeira dama do piano".

Tive o privilégio de assistir a última etapa do Concurso Prelúdio na aclamada Sala São Paulo, na capital, onde Silvia conquistou o primeiro lugar entre muitos outros jovens também extremamente talentosos. Em Bauru, Silvia, teve a oportunidade de demonstrar o seu imenso talento, pois tocou as três partes do maravilhoso Concerto Número 1 de Chopin em Mi menor para piano e orquestra. Essa peça maravilhosa apresenta grandes dificuldades de interpretação e técnica do solista, portanto só talentos do naipe da Silvinha conseguem atingir o nível de perfeição onde não precisam se concentrar inteiramente na parte técnica da peça, mas podem ir muito além da técnica e atingir o âmago da peça transcendendo o espaço do mundo fenomenal e atingindo o noumenal. Logo nos primeiros acordes após a introdução orquestral já se podia reconhecer o laço de profundo amor e respeito entre o piano e a solista, não poderia ter sido uma melhor inauguração para o magnífico piano Yamaha que a profa. dra. Rosa Tolan escolheu com tanto carinho para a Universidade do Sagrado Coração de Jesus.

O primeiro movimento Allegro maestoso exige muita clareza e técnica superior, o que faria de um artista menos qualificado a se preocupar tanto com a técnica que fatalmente iria prejudicar a dinâmica, Silvia não teve esse problema, mergulhou com perfeição nas profundezas transcendentais dessa obra-prima e trouxe à superfície toda a beleza, todo brilhantismo que Chopin esculpiu nessa rocha monumental.

O segundo movimento, Romance, é uma obra-prima de lirismo especialmente na segunda porção onde o piano e a orquestra dialogam como amantes ao lado de um riacho borbulhante sob a lua cheia. As notas claras cuidadosamente esculpidas pela Silvia mesclavam magnificamente com o sussurro acalentador dos violinos apaixonados. Foi um momento de graça e mistificação que só a música e a fé podem proporcionar.

No terceiro movimento, Rondo, o artista tem a oportunidade de revelar toda a sua dexteridade e virtuosismo, a partitura está repleta de saltos, cadências em alta velocidade, terças, sextas e acordes sequenciados, Silvia transpôs todas as barreiras brilhante e corajosamente. Tudo foi como um sonho maravilhoso de uma noite amena de pré-inverno. Obrigado Bauru e Botucatu, parcerias como essa devem acontecer com muito mais frequência, pois sob a influência da verdadeira música universal, todo ser humano se torna melhor.

Benedito S. Guedes de Azevedo - professor

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