É impossível comer um só. A frase, usada como slogan de produtos como salgadinhos e batatas fritas, não é mera sacada de marketing. Mais do que pela fome ou pelo sabor, a gula por comidas gordurosas pode ser explicada pela ação de substâncias produzidas pelo organismo quando ingerimos esse tipo de alimento e que são responsáveis por fazer com que o corpo sempre peça mais um.
Esse mecanismo biológico "viciante" foi confirmado por uma pesquisa norte-americana, divulgada na última semana (leia mais ao lado). Segundo o estudo, o processo tem início na língua, onde as gorduras contidas no alimento geram um sinal que viaja do cérebro, através de um feixe de nervos conhecido como nervo vago, para o intestino, onde ocorre o estímulo para a produção de substâncias químicas conhecidas como endocanabinóides. "Essas substâncias aumentam a nossa compulsão por alimentos ricos em gordura, a partir desse processo que tem início já na nossa boca", explica Suely Prieto de Barros.
De acordo com a nutricionista, a existência de um mecanismo que induz a ingestão desenfreada de comidas gordurosas sempre instigou pesquisadores e especialistas. "A espécie de vício e dependência que as pessoas têm com esse tipo de alimento sempre foi percebida. Achava-se que tinha relação com as endorfinas, dopaminas, conhecidas como ?hormônios de prazer?. Depois, as pesquisas revelaram que também eram produzidos ?hormônios de compulsão?; agora estamos começando a dar nome aos bois", descreve.
Segundo Barros, por isso o cuidado que devemos ter ao associar carboidratos e gorduras. "Ao comermos batata frita, por exemplo, enquanto o carboidrato nos proporciona prazer dizendo ?ai que delícia, ai que delícia?, a gordura presente na fritura fala ao organismo ?come mais, come mais?", ilustra.
Entre os "reféns" desse ciclo vicioso está Rogério de Oliveira Santos, 33 anos. "Almoço fora todos os dias e sempre ganham destaque no prato as comidas mais gordurosas e pesadas como churrasco, costela e feijoada. À noite, chega a vez de comer um lanche, batata frita, pizza", conta o microempresário que faz suas refeições em churrascarias praticamente todos os dias. "A gente sabe que não é o ideal, mas eu chego no restaurante, vejo aquele monte de coisa gostosa, aquela carne com gordurinha, e não consigo resistir", completa.
Apesar da "atração" por esse tipo de alimento, Santos descarta a possibilidade de ser um "viciado" em gordura. "Eu gosto bastante mesmo, mas se não tem, não sinto falta. Então não acho que isso seja um vício", ressalta.
Herança
Além dos mecanismos biológicos que explicam a gula por comidas gordurosas, uma razão adicional pode estar no passado, quando era mais difícil obter gorduras devido à alimentação escassa. "Como em boa parte da história da humanidade a fome e a busca pela sobrevivência foram grandes problemas, a avidez por gordura pode ter significado, para nossos ancestrais, sobreviver a um inverso rigoroso", explica o endocrinologista Flávio Miano.
"No passado, tinha-se que caçar o alimento. Hoje, a comida vem pronta em uma caixinha, é super fácil, mas o nosso cérebro, nossas células estão marcadas para serem econômicas", completa a nutricionista Suely Prieto de Barros.
Pesquisadores comparam
os efeitos da gordura no
organismo ao da maconha
Divulgada na última semana, uma pesquisa feita por cientistas da Universidade de Califórnia considera que o efeito provocado pela gordura no organismo assemelha-se ao da maconha. Apesar de produzidos naturalmente pelo corpo após a ingestão de comidas gordurosas, os endocanabinóides são, segundo o estudo, uma espécie de lipídios biologicamente ativos e se parecem com substâncias presentes na droga.
"Nós sabemos que comidas gordurosas podem ter um bom sabor, mas os mecanismo moleculares e sinais por trás dessa resposta eram desconhecidos. Agora sabemos que comidas gordurosas geram um sinal na língua que leva o intestino delgado a produzir as substâncias químicas conhecidas como a maconha natural do corpo humano, que induzem ao consumo de gordura", afirmou em entrevistas Daniele Piomelli, que comandou a pesquisa. A descoberta foi feita em testes com ratos.
Para a nutricionista Suely Prieto de Barros, a grande contribuição da pesquisa foi identificar que o estímulo para a produção de endocanabinóides ocorre no intestino delgado. "Agora será possível bloquear a formação dele lá no intestino, não precisando usar medicamentos que mexam com o sistema nervoso, evitando efeitos colaterais como ansiedade e depressão", avalia.
Para nutricionista, saída é encontrar
outros meios de proporcionar prazer
Antigamente adeptos ao cardápio farto em gordura, a família bauruense Campi decidiu vencer o "vício" após um susto com a saúde de um de seus integrantes. "Meu marido Laércio sofreu um infarto há oito anos e a educação alimentar de toda a família foi obrigatória", conta Jaine, 48 anos. "Antes, comíamos muito frango, batata frita, lanche. Esse tipo de alimentação era bem rotineira mesmo. Mas meu marido, por necessidade, e meu filho, por medo, decidiram cortar esses hábitos", lembra.
Apesar da adaptação, Jaine confessa que é difícil não se render, vez ou outra, às delícias ricas em gordura. "Se a gente falar que não gosta, que não sente vontade, estamos mentindo. No começo foi difícil, sentíamos muita falta mesmo, não foi um processo rápido. Mas hoje apenas nos rendemos quando a vontade aperta mesmo", conta.
Driblar a vontade por aquela batata frita com a casquinha bem crocante ou por aquela carne deliciosamente suculenta não é tarefa fácil. Para a nutricionista Suely Prieto de Barros, a saída está na substituição do comer por outras fontes de prazer.
"O que libera as endorfinas do prazer são comida, sexo e exercício. Que tal deixar um pouco de lado o excesso de comida e nos movimentar mais, fazer mais sexo?", sugere. Para as crianças, a profissional destaca a importância da educação nutricional desde cedo. "É possível mudar hábitos, em qualquer fase da vida. Mas é importante que a gente não contribua com esse vício, essa dependência por comidas gordurosas desde o berço, educando as crianças", alerta.