Bairros

I wanna rock and roll all night and party every day!

Wanessa Ferrari
| Tempo de leitura: 12 min

Lenda do Rock


"Você não escolhe o rock, é ele que te escolhe. Ou você nasce com o rock na alma ou o adota por pose, modinha, e depois fatalmente o abandona. Ser roqueiro é um estilo de vida, um estado de espírito". É assim que Alan Breslau, vocalista das bandas Cavalo Morto e Bömber, define aquilo que, para ele, é quase uma religião: o rock n? roll.

Alto, olhos claros, cabelos raspados, tatuagens pelo corpo e sempre com roupas pretas, Alan é a personificação do estilo musical que adotou ainda quando adolescente, assim que ouviu pela primeira vez o vinil do volume quatro da banda Black Sabbath, encontrado quando fuçava nas coisas dos irmãos.

"Meus dois irmãos já tinham veia musical. Um tocava sax e amava jazz. O outro, era adepto da country music e tocava violino. Eu, com tantas referências, preferi deixar minha mãe louca: me assumi rock n? roll", lembra, rindo.

O interesse pelo estilo o levou a pesquisar e a conhecer bandas como Deep Purple, Kiss e Motörhead e, consequentemente, a mergulhar de cabeça no universo do rock n? roll.

Entre as lembranças da época de adolescente, estão as viagens a São Paulo e incursões à Galeria do Rock em busca de fitas e vinis de suas bandas preferidas; as horas que passava trancado no quarto viajando nas letras e fotos que compunham o encarte dos discos; as frequentes reuniões com os amigos para trocar informações, customizar roupas com patch, deixando-as mais adequadas ao estilo, ou, simplesmente, ouvir rock.

"Posso dizer que eu vivi uma experiência completa no rock e isso formou minha personalidade. Hoje, o acesso ao rock é facilitado pela internet. Por um lado, é bom. Por outro, sinto que não é o mesmo rock n? roll", avalia.

Quando fala de rock, Alan fala com paixão. Talvez, seja esse sentimento incontrolável que o tornou, aos olhos de quem curte rock em Bauru e Região, uma lenda.

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Palcos nos bairros


Dia 20 de novembro de 1980 é uma data para ficar marcada no calendário dos bauruenses amantes do mais puro rock n? roll. Nesta data, especificamente na rua Quintino Bocaiúva, 2-20, o Armazén Bar, carinhosamente chamado de Arma por seus frequentadores, abriu as portas pela primeira vez. Quem estava presente naquele dia, certamente, jamais imaginou que, em poucos anos, o bar se tornaria o templo de rock em Bauru.

Em 31 anos de existência, o bar inovou ao trazer para seu palco bandas locais e de fora, além de nomes consagrados da música, como Velhas Virgens, Dr. Sin, e Voodoo, e também ao dar abertura aos novos talentos do rock, como Mercado de Peixe, Hell, Cavalo Morto, entre outras.

A ideia de montar um bar rústico, com a essência do rock n? roll, foi de Paulo Roberto Penatti. Daí a torná-lo um templo do rock, foi questão de tempo.

"É nossa identidade. Eu só ouço rock, respiro rock. Se fosse para ter um bar, que fosse então um bar com a minha cara, do jeito que eu curto", afirma Valéria de Carvalho Costa, sócio-proprietária do Armazén.

Durante anos, o Arma reinou absoluto na preferência dos amantes do rock. Atualmente, o bar divide espaço com algumas casas novatas no circuito, como o Shiva Bar, aberto em julho do ano passado com o objetivo de ser um espaço destinado ao público gay, mas que, por conta da demanda, assumiu a identidade rock de seu DNA.

"O bar abria de quinta-feira à domingo e tinha como público alvo os gays. Contudo, o pessoal que curte rock começou a aparecer. Abrimos espaço para as bandas, e hoje, de quinta e sábado, o bar é tomado pelo estilo", conta Gisele Sita de Souza, proprietária do Shiva.

A história do Capela Bar, aberto em 2008, também é parecida: a intenção era fazer do espaço um palco constante para shows de MPB.

"Certa ocasião, abrimos a casa pela primeira vez para uma banda de rock e lotou. Percebemos que tinha demanda, que o público que curtia rock estava carente de espaço, por isso, assumimos esse lado rock. Hoje, o bar abre de sexta e sábado, à partir das 23h, sempre com duas bandas dividindo palco", afirma.

O On The Road, o Luna Bar e o Galpão Paulista Beer completam o circuito.

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Guitarra afinada


As distorções da guitarra combinadas com a batida forte da bateria e o som único do baixo tornam o rock um estilo musical único, capaz de fazer velhas bandas, mesmo depois de acabadas, sobreviverem eternamente e transitarem, sem a menor cerimônia, em um universo marcado pela alegria e irreverência da juventude.

Por isso, tocar pelo menos um do trio de instrumentos que dão identidade o rock n? roll e formar uma banda é o sonho de qualquer adolescente roqueiro.

Em Bauru, o Instituto Guitarisma é uma das escolas de música mais procuradas por esse público. De acordo com Marcos Pópolo e Fabiano Moura, conhecido como Mr. Fabian, proprietários da escola, 70% dos alunos do local curtem rock.

"Não foi intencional, mas o Guitarisma desenvolveu essa identidade rock. Na verdade, damos aulas de todos os estilos. Contudo, como eu e o Fabiano sempre fomos muito ligados ao rock, os alunos acabaram fazendo essa associação", explica Marcos.

Pelas notas da escola já passaram nomes que hoje compõem o circuito nacional de bandas do estilo, como o AC/DC Cover. Além disso, palestras com os principais guitarristas do País, que são realizadas periodicamente, ajudam a fortalecer a identidade do Instituto.

Mas Marcos garante: tocar o instrumento não é a principal dificuldade encontrada por quem sonha em ser um rockstar. "Rock é espontaneidade. A pessoa nasce ou não nasce com o rock na alma. Tem de sentir a vibração", avalia.

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Estilo e atitude


O box de poucos metros quadrados, localizado no interior do mini shopping da Batista de Carvalho, é o paraíso dos amantes do rock que apreciam, além da boa música, um look estiloso. Lá, uma infinidade de acessórios e roupas convidam o seleto grupo de consumidores a fugir do pretinho básico, visual mais tradicional dos adeptos desse estilo musical.

Nas vitrines, piercings coloridos, alargadores neons, anéis de caveira, lenços, bandanas, chaveiros e mochilas estilizadas. Nos cabides, camisetas, corpetes e vestidos de fabricação própria, que chamam a atenção de quem passa pelo local, independentemente da preferência musical.

A loja é a única da cidade a oferecer opções especializadas para o público roqueiro e, por isso, vive lotada. O espaço é também a materialização do sonho da proprietária, Michelle Kaam de Almeida, 25 anos, estilista de profissão e roqueira de coração.

"Curto rock desde minha adolescência e sofria com a falta de lojas especializadas aqui em Bauru. Perdi a conta de quantas vezes fui à Galeria do Rock, em São Paulo, atrás de um corpete, camisa de banda ou acessório", afirma.

Por isso, quando completou 18 anos, com a ajuda do pai, Michelle criou a loja que sonhava frequentar como adolescente. Com o tempo, abriu um atelier e uma estamparia para a fabricação das roupas e mochilas que vende no estabelecimento.

"Eu desenho as peças, escolho as estampas e as costureiras executam. Deu tão certo que ?exportamos? para lojas importantes da Galeria do Rock de São Paulo, de Belo Horizonte, e também para Curitiba", orgulha-se.

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Aventura sobre duas rodas


Eles usam jaquetas pretas, circulam por aí em motos invocadas, pertencem a uma facção e têm apelidos como Carcaça, Bagaça, Cabeça e Boca. Ficou assustado? Pois não precisa. Essas são as características dos participantes do moto clube Cães do Asfalto, uma família fundada em 1995 que tem como principal objetivo desfrutar de paixões como o rock, o motociclismo e a liberdade.

"Por conta do nosso estilo e das motos que usamos, onde passamos, chamamos a atenção. Creio que o sentimento que predomina nas pessoas é o de curiosidade", afirma Antônio Carlos Batista, carinhosamente apelidado de Barbino, uma referência a sua cidade natal, Balbinos.

Com facções ? nome dado aos grupos formados em outras cidades - em Jaú, Limeira e São Carlos, as atividades do Cães do Asfalto consistem em reuniões semanais, para trocar ideias sobre motociclismo, ouvir rock, estabelecer atividades e se confraternizar; ações filantrópicas, viagens e participação em eventos; entre outras coisas.

"É como uma irmandade. No moto clube reunimos as coisas que mais apreciamos. Rock e motociclismo andam juntos. É um prazer inseparável, não sei como explicar", define Fernando Dias, conhecido como Fernandão.

Não precisa explicar, Fernandão. Dá para imaginar o quão interessante é a união de elementos como música, aventura, paisagens, liberdade e motociclismo.

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Corrente do bem


Não parece, mas por baixo de espessas barbas, uma longa cabeleira, roupas pretas e muitas tatuagens, os roqueiros guardam, a sete chaves, um coração de manteiga. Prova disso é que os adeptos do estilo são responsáveis por organizar e realizar três festivais beneficentes por ano, já tradicionais na cidade.

Tudo começa no início do ano, com o Educa Rock. O festival teve sua primeira edição este ano, na época do Carnaval, e reuniu bandas de diversos segmentos do rock, que tocaram em bares da cidade com o objetivo de arrecadar cadernos para doar a entidades carentes do município. As doações abatiam parte do valor pago na portaria do estabelecimento.

Já no meio do ano, em agosto, Bauru sedia o Solidary Rock. O festival foi criado em 2008 e tem sua quarta edição este ano. Diferente do Educa Rock, o Solidary Rock é realizado em uma chácara, em um único dia, com 12 horas de música.

As bandas participantes, seis por edição, tocam gratuitamente. As despesas com aluguel da chácara, aparelhagem, segurança, convites, entre outras coisas, ficam por conta dos patrocinadores. Já a entidade beneficiada com a verba arrecadada no evento fica responsável pelos serviços de caixa, portaria, bar, organização e limpeza.

Este ano, Rogério Rocco Magalhães, Rafael de Almeida Ribeiro, Fábio Alexandre Jacob e Luiz Carlos Gonçalves Junior, da comissão organizadora do Solidary Rock, já estão correndo com a organização da quarta edição do festival. As novidades podem ser conferidas no site www.solidaryrock.com.br.

Já no fim do ano, em meados de dezembro, é a vez do Rock do Bem agitar o circuito rock da cidade. Organizado pela Sociedade do Rock, o evento visa arrecadar brinquedos para doar para crianças de bairros carentes de Bauru. A primeira edição do projeto foi realizada em 2005.

"Meu filho tinha acabado de nascer e notei que ele já tinha um monte de brinquedos, muitos novos e sem uso. Então, tive a ideia de produzir um festival para arrecadar brinquedos e doar para quem não tem", explica Márcio Lanzarini, roqueiro de profissão e de coração, que não imagina mais o mês de dezembro sem o Rock do Bem.

A ideia foi bem aceita e, este ano, o Rock do Bem terá sua sétima edição, com eventos em vários bares da cidade.

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Meninas também entram


Magérrima, estilosa, delicada e dona de uma voz doce e afinada. Ser descrita com estes adjetivos, certamente, é o sonho de qualquer garota. Contudo, poucas conseguem a façanha de reuni-los com harmonia. Em Bauru, Adriane Santana, 25 anos, vocalista da Banda Move Over, é um destes casos de exceção.

Apaixonada por rock desde a adolescência, ela combina a cabeleira vermelha com uma voz potente, um braço coberto por tatuagens supercoloridas e look rock n? roll. Tudo isso, sem perder a simpatia nem a delicadeza.

Mas conquistar o título de referência no estilo pop rock não foi tarefa fácil. Quando começou na carreira, Adriane despertava a curiosidade e até mesmo a desconfiança das pessoas que contratavam seus shows.

"Uma vez fui tocar em Avaré. Chegando lá, notei que o dono do bar que tinha contratado a Move Over começou a me olhar com certa estranheza. No mínimo, devia estar pensando: ?é essa menina magrelinha e de cabelo vermelho que vai cantar??", conta rindo. "Depois que comecei o show, a cara de preocupação dele desapareceu", diverte-se ao lembrar do fato.

A transformação feita pelo rock na vida de Adriane teve início por acaso. Suas irmãs mais velhas costumavam ouvir muita música no rádio e, na época, o rock estava em alta. "Me interessei pelo som e procurei conhecer mais", afirma.

Daí para frente, mergulhou de vez no estilo. Aos 14 anos, montou a primeira banda, tingiu o cabelo aos 19 anos, e fez a tatuagem no braço, que hoje é sua marca registrada, dos 22 para os 23 anos.

Nessa pegada, criou a banda Move Over, que já tem 8 anos de existência, e participou de shows e programas de televisão em várias partes do País.

Com essa carreira, alguém ainda dúvida que mulher não só entra, como também é bem aceita no circuito rock.

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Vitória Rock is dead


Quem curte rock n? roll e morou em Bauru e região entre 2002 e 2006 sabe: neste período, todo terceiro domingo do mês era dia de Vitória Rock.

Som alto, guitarras afinadas, baterias potentes, um mar de gente trajando roupas pretas e muito rock n? roll eram os elementos de uma combinação explosiva, que movimentou o Parque Vitória Régia e fez surtar os vizinhos do anfiteatro.

Tudo começou em 1987, logo que o Parque Vitória Régia foi inaugurado. Roqueiros de todos os cantos da cidade passaram a se reunir no palco do anfiteatro para curtir o bom e velho rock n? roll.

A reunião ganhou caráter oficial somente em 2002, quando passou a se chamar Vitória Rock e a contar com o apoio da Secretaria Municipal de Cultura (SMC). A ideia era utilizar com mais frequência o amplo espaço do parque e, de quebra, gerar diversão e entretenimento para os moradores da cidade.

O projeto seguiu até 2006, sempre começando no meio da tarde e se estendendo até a noite, com pelo menos três bandas de Bauru e da região subindo ao palco. Mas, infelizmente, não chegou a 2007. O motivo que a SMC deu para justificar o fim do festival foi falta de segurança, abuso de bebida alcoólica entre menores e violência.

Em 2009, o projeto foi retomado. Voltou ao parque por algumas vezes no ano e, novamente foi interrompido. Desta vez, parece que para sempre.

"Pretendemos, sim, utilizar o anfiteatro do Parque Vitória Régia para eventos culturais. Afinal, é um ótimo espaço público. Contudo, não está nos planos da SMC pôr em prática um projeto destinado somente ao rock. A ideia é variar os estilos", afima o Elson Reis, titular da SMC.

Ou seja, na linguagem rock n? roll, ao que tudo indica, Vitória Rock está morto.

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