Os alimentos, considerando tanto os comprados em supermercados quanto os saboreados em refeições fora de casa, ainda são responsáveis pela maior despesa das famílias de Bauru, independentemente da classe social. A informação consta em levantamento divulgado em maio pelo IPC Maps (antigo IPC Target), segundo o qual a cidade está na 46.ª posição no ranking nacional de potencial de consumo. Mas, pela maior facilidade de crédito, investimento na renovação nos eletrodomésticos, principalmente na chamada linha branca, como geladeira e fogão, também tem destaque nas intenções de gastos do bauruense. Além disso, a própria atualização tecnológica, como aquisição de modernos televisores LCD e celulares com acesso à Internet, impulsiona os índices locais de consumo.
Injeção de dinheiro na praça com os programas sociais verificados nos últimos anos, além da própria estabilidade da moeda, desde a implantação do Plano Real, também contribui para novas possibilidades de consumo, que vão além de alimentação e vestuário.
Sozinho, o setor alimentício movimentou, em apenas um ano, mais de R$ 900 milhões em Bauru, conforme o levantamento IPC Maps. As cifras, que consideram todas as classes sociais, entretanto, também são generosas no setor eletroeletrônico, com a injeção anual de quase R$ 125 milhões.
Nesse quesito, a chamada classe C-1 é responsável por movimentar R$ 22,4 milhões, ou seja, aproximadamente 17,6 do total. O gasto na categoria, por parte desta camada social, supera o dinheiro desembolsado até mesmo pela classe A, que despendeu, entre 2010 e 2011, pouco mais de R$ 20,5 milhões.
Uma das explicações, conforme especialistas, seria a busca, entre a categoria no topo da pirâmide econômica, por artigos de alto luxo, conforme evidenciado pelo próprio Jornal da Cidade, em matéria específica publicada na edição do domingo retrasado.
Essa fatia teria intenções de consumo voltadas a artigos ainda de difícil acesso à classe média, como carros importados, jóias, entre outros produtos de maior requinte e sofisticação, sem a necessidade de preencher lacunas voltadas ao setor eletroeletrônico ou tecnologia.
Mas a necessidade de modernização é sentida cada vez mais pela chamada "classe média baixa", que, com o aquecimento da economia, flexibilização das linhas de crédito e prioridades básicas como alimentação e vestuário já asseguradas, volta-se ao consumo de eletrônicos ou informática.
Não é raro observamos que, em qualquer lugar, é cada vez mais comum o vai e vem de pessoas de diferentes classes sociais com aparelhos celulares, por exemplo, cada vez mais modernos e lotados de mil e uma funções.
É o caso da atendente comercial Roberta Paulino Braz, de 33 anos. Moradora da Vila Dutra e com uma renda mensal que não passa de R$ 800,00, ela diz que não abre mão de estar antenada com a mais alta tecnologia quando o assunto é telefonia e Internet móvel. "Atualmente, estou com três aparelhos em casa. Sempre que aparece uma novidade, quero trocar", comenta ela, à procura de novidades. "Por ano, troco umas cinco vezes de aparelho. Busco os que tenham mais aplicativos. Gosto muito de acessar a Internet pelo celular, que é mais prático. Também gosto das redes sociais. Procuro a praticidade", prioriza.
Nessa esteira, um levantamento feito pelo economista Carlos Roberto Sette aponta que as prestações, independentemente ao foco de consumo (veículos, elétroeletrônicos, casa própria, entre outros), correspondem a 20% dos gastos dos bauruenses, particularmente inseridos nas classes C e D.
Os parcelamentos, observa o especialista, apenas perdem para o quesito alimentação, a maior fatia retirada do bolo salarial, com 22% dos gastos mensais. Boa parte desse gasto deve-se, também, ao maior número de gente comendo fora, nem que seja entre os novos adeptos da pizza de sábado à noite ou para quem começa a experimentar o que é almoçar num restaurante em dia de semana. As filas cada vez maiores nos caixas dos restaurantes por quilo da cidade comprovam que a demanda aumentou.
Viagens estão cada vez mais acessíveis
Outro sonho de consumo, até pouco tempo atrás privilégio apenas das categorias mais abastadas, as grandes viagens, sejam elas de navio ou de avião, estão mais palpáveis. Pacotes específicos como cruzeiros ou planos com voo, hospedagem e alimentação, até mesmo para o Exterior, estão mais acessíveis.
Nesse quesito, além da estabilidade da moeda ou prestações mais suaves, outro fator amortiza os custos para quem, literalmente, é de primeira viagem: dólar baixo. Além da maior valorização do real em comparação à moeda norte-americana, o dinheiro brasileiro também tem cotação extremamente favorável perante o peso argentino, por exemplo.
Uma viagem com duração média de três dias para a capital portenha, numa das agências de turismo de Bauru, tem o custo estimado em R$ 1,6 mil, valor parcelado em dez vezes e com pagamento feito ainda no boleto bancário. No caso, apesar da maioria das empresas aéreas aceitar apenas cartão de crédito ou dinheiro vivo, as agências bancam a passagem e as revendem ao consumidor final, que arca com os juros parcelados.
É a forma com que muita gente, que não estava acostumada a voar ou se hospedar em hotéis ou navegar nos cruzeiros, cada vez mais comuns e temáticos, desfruta desse prazer.
Um vendedor da cidade, que, após a entrevista pediu para ter sua identidade preservada, pretende viajar para o litoral nordestino em breve. Com uma faixa de renda que não ultrapassa a casa dos R$ 1,2 mil, está com passagem aérea comprada e estadia garantida por uma semana, após desembolsar R$ 1,2 mil, divididos em dez vezes. "Antes, eu só viajava de mochilão", compara. "As classes C, D e até E, nesse caso, quem tem família longe, já viaja mais e até de avião", cita Bia Lima, gerente comercial de uma agência de turismo de Bauru. "As temporadas de navio também são muito procuradas. As que esgotam primeiro são as cabines de luxo e as mais baratas. As que sobram são as intermediárias", constata. De acordo com a gerente comercial, as acomodações mais requintadas correspondem a 10% das embarcações, enquanto que as cabines com preços mais módicos ocupam até 30% dos navios. "Ou seja, quem está consumindo mais é a classe C", conclui.
Até mesmo para quem pretende priorizar os gastos no setor de linha branca, caso dos noivos Cláudio Araújo, de 32 anos, e Iara Cristina Minatel, 25 anos, ganhar ares ou mares também entra na discussão pré-nupcial. Contudo, não é consenso. "Agora, a prioridade é montar a casa. Se a gente já fosse casado, eu ia querer viajar", sonha Iara. "Eu ia querer é juntar", responde Cláudio. "Gostaria de comprar uma casa, pois, no começo, vamos morar de aluguel", prioriza o noivo.