Com o assustador aumento da população carcerária e notória falta de espaço físico, a solução menos onerosa e mais célere indicada pelos legisladores foi o esvaziamento dos presídios. Enfim, os que lá estão, segundo os entendidos, nenhum crime grave praticaram. Apenas pequenos deslizes sociais, agressões físicas, furtos, assaltos à mão armada, atropelamento e morte no trânsito em consequência do alcoolismo, crimes de pequena monta ou coisas banais que não carecem de punição. E mais, se não foram condenados judicialmente, qual o motivo de restarem encarcerados? Avante! Vergonhoso êxodo organizado dos transgressores das leis! Enfim, serão resolvidos dois sérios problemas sociais: o esvaziamento dos presídios e a legalização da conduta criminosa.
E a segurança da população? Certamente a base maciça da sociedade empreendedora e laboriosa restará trancafiada em suas casas, ou talvez enterrando seus mortos, amortalhados no grande manto da injustiça social. Afinal, é o preço que a população paga por ser tola e ingênua a ponto de crer na bondade e na justiça dos homens e insistir em enaltecer a moralidade, a dignidade, a verdade e o direito. A classe trabalhadora, que paga impostos, educa os filhos e é coagida a votar, é quem vai arcar com as consequências do vergonhoso êxodo.
Não seria oportuno questionar: Para que leis, se não serão cumpridas? Para que existir o direito de ir e vir, se não podemos aproveitá-lo? Para que estatutos de proteção aos idosos e crianças? Para que pagar a Previdência Social se as regras do jogo são alteradas em meio do caminho com o exclusivo intuito de prejudicar os iludidos segurados? Para que eleições, se os escolhidos não batalham pelo bem comum?
Enfim, doravante, transgredir a lei tornou-se cobiçado portal para a fama e o estrelato. Podemos até mesmo afiançar que o infrator passou a ser considerado sujeito esperto, astuto, inteligente e grandemente enaltecido pela mídia. E através da imoralidade e do mau exemplo, atiramos no mármore do inferno os valores essenciais da formação humana. Bandidagem solta, degradação social, vandalismo a céu aberto, educação deficitária e sucateada, cardápio perfeito para a cegueira social. Imperativo mesmo é extinguir o camburão, as algemas, os presídios e quiçá, oferecer uma cópia das chaves das celas aos condenados, além do auxílio reclusão! E que se dane a cidadania, o direito e a justiça! Viva a anarquia! Afinal, como dizia o grande filósofo: Se Deus está morto, tudo é permitido!
A autora, Valderez de Mello, é advogada, pedagoga, psicopedagoga,escritora e autora do livro "Trama e Urdidura"