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Câmeras de vigilância: sem privacidade para trair!

Alberto Consolaro
| Tempo de leitura: 3 min

Quando o livro "1984" foi publicado, os comentários universais questionavam se era uma ficção ou uma previsão. O Grande Irmão controlava tudo com câmeras instaladas em todos os lugares, inclusive dentro das casas e apartamentos. Daí surgiu o termo Big Brother. O impacto foi tão grande que é o livro de um único autor traduzido para 65 idiomas. O nome do autor, George Orwell ? pseudônimo de Eric Arthur Blair ? acabou gerando o adjetivo "Orwelliano", que refere-se à ação totalitária, ou tentativas, de governos para manipular a informação com o propósito de controlar, apaziguar ou até subjugar a população. Assim surgiram alertas como: cuidado, o Grande Irmão pode estar te observando ou, de outro modo, sorria, você está sendo filmado!

Cada vez mais oportuna é a trama deste livro. A Polícia Militar está ampliando rapidamente a instalação de câmaras de vídeo do tipo IP nas ruas e demais logradouros públicos. As câmeras IP permitem gravar imagens e trocar dados on line, ou seja, na hora do acontecimento; as câmeras analógicas só gravam imagens. Em uma central, a polícia pode controlar tudo que acontece na cidade.

Não é só isso: a Polícia Militar paulista planeja ampliar a vigilância eletrônica nas câmeras privadas de prédios comerciais e residenciais. Os condomínios serão internamente controlados, assim como bares, restaurantes, shopping centers, bancos, motéis, hotéis, aeroportos, estádios, rodoviárias, aviões e ônibus. Claro que isto será feito com autorização dos proprietários, mas parece claro que todos autorizarão: afinal quem quer arrastões em restaurantes, bares, motéis e condomínios? E ser assaltado no banco ou no carro?

Nos dias de hoje, em casos de crimes, a polícia ou a justiça requer imagens gravadas internamente e cenas com moradores e outros estão gravadas e serão analisadas. O processo apenas será ampliado e feito rotineiramente. Na capital, a PM tem 270 câmeras, mas em três anos quer chegar a 3000 em locais públicos, sem contar as de prédios, condomínios, casas comerciais e residências. Os convênios com a Guarda Metropolitana incorporarão mais 200 câmeras, juntamente com outras 300 da Companhia de Engenharia de Tráfego. É provável que logo estas câmeras estarão nos carros e caminhões particulares!

As torturas de crianças e idosos por empregadas, os maus tratos de policiais, a violência contra alunos, professores e diretores de escolas e muitas outras situações diminuirão em frequência e ou serão castigados, quando registradas pelas câmeras. O pagamento de propinas e as negociações soturnas serão cada vez mais expostas, assim como os encontros ilegais.

Tudo em nome da segurança, mas perde-se em privacidade. Se estas câmeras estivessem presentes no paraíso, provavelmente Eva não teria traído Adão. Muitos adultérios não aconteceriam, pois as câmeras flagrariam amantes saindo de porta-malas de seus carros nas garagens dos condomínios, enquanto o cônjuge viajava. Beijos "calientes", mas ilícitos, já não são mais dados nos elevadores. Os escritórios e consultórios deixariam de ser palco de adultérios como frequentemente se relata nos filmes, noticiários e relatos policiais. Para o filósofo Kant nós fazemos o certo e o bem por dois motivos: pelo medo da represália, do castigo e da sanção ou porque entendemos a razão das leis, normas e regras. Para sermos verdadeiramente morais e livres, segundo Kant, o bem e o certo devem ser feitos pela racionalidade!

O autor, Alberto Consolaro, é professor titular da USP e colunista da página de Ciências do JC

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