A escassez de mão de obra tem pesado mais nas negociações por reajustes salariais do que a inflação mais alta e o crescimento econômico menor previsto para este ano. Categorias mais fortes, como metalúrgicos, bancários, petroleiros e químicos, costumam obter ganhos reais maiores que as menos organizadas, mas mesmo categorias historicamente pouco sindicalizadas ou ligadas à informalidade obtiveram reajustes acima da inflação neste ano.
O economista da LCA Consultores, Fabio Romão, cita o rendimento das empregadas domésticas como um dos exemplos desse fenômeno. Ele cita dados da mais recente Pesquisa Mensal de Emprego do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que mostra que o rendimento das empregadas domésticas cresceu 5,9% em julho na comparação com o mesmo mês de 2010. São praticamente dois pontos porcentuais acima da média do País.
"A empregada doméstica tem o rendimento muito relacionado ao salário mínimo, mas mesmo em um ano em que o mínimo não teve aumento real a categoria obteve um rendimento acima da média", afirmou. "Isso ocorre por causa da escassez de mão de obra: parte das domésticas migrou para o comércio e os serviços e os patrões preferem dar um aumento maior para não perder a empregada."
De acordo com o coordenador de relações sindicais do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), José Silvestre Prado de Oliveira, 84,4% de 353 acordos salariais acompanhados no primeiro semestre obtiveram reajustes superiores à inflação medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC). Foi o segundo melhor resultado da série histórica do estudo, inferior apenas ao primeiro semestre de 2010, quando os acordos com ganho real somaram 86,7%.
Para Silvestre, essa tendência tem tudo para se manter no segundo semestre. "Não dá para dizer que os reajustes que os metalúrgicos do ABC, São Carlos e Taubaté obtiveram no último fim de semana, de 10% a partir de 1 de setembro, vai se reproduzir em todas as categorias, mas não deixa de ser uma referência", afirmou. "Não serão reajustes tão bons quanto os de 2010, mas serão bons e positivos, de qualquer forma."
Mesmo os setores em dificuldade, como a indústria da transformação, acabam sem alternativa a não ser conceder reajustes reais acima da inflação. Para o economista Rafael Bacciotti, da Tendências, isso ocorre em razão da mobilidade da mão de obra entre os setores. "A única forma de a indústria manter seu quadro de empregados é dando reajustes", afirmou.
"Isso é desafiador, pois a indústria não tem espaço para repassar esse custo aos preços devido à concorrência dos importados, o que deve estreitar ainda mais as margens de lucro", destaca o economista.
Cenário deve mudar em 2012
Historicamente, a inflação mais elevada tende a reduzir os ganhos reais dos trabalhadores, mas neste ano contaram mais nas negociações a escassez de mão de obra em algumas categorias e a baixa taxa de desemprego, diz o economista da LCA Consultores, Fabio Romão.
"Também contribuiu para esse quadro o fato de não termos tido um susto na atividade econômica. Muita gente projetava um crescimento de 4% a 4,5% do PIB neste ano e só agora ficou claro que a economia vai crescer menos de 4%. Isso demorou para se configurar como fator de negociação na mesa", afirmou.
O coordenador de relações sindicais do Dieese, José Silvestre Prado de Oliveira, salienta, porém, que o cenário econômico para o início de 2012 será muito diferente em termos de negociações salariais. "A incerteza será maior em razão dos impactos da crise no País em um momento de desaceleração econômica", afirmou.
"No começo deste ano, tínhamos salário aquecidos por causa da inflação. No início de 2012, será o contrário, com a inflação convergindo para o centro da meta. A queda no preço das commodities deve se refletir internamente."
Segundo ele, esse cenário deve ser compensado em parte pelo reajuste do salário mínimo, que costuma puxar para cima os salários e os pisos de muitas categorias profissionais, além das aposentadorias. "Mas o ano de 2012 deve ficar muito longe do dinamismo de 2010 e 2011", afirmou.