Politicando

Na arte do restauro, homem busca sua identidade

Wanessa Ferrari
| Tempo de leitura: 9 min

Museus à venda

Poltronas do século 18, lustres da época do império francês, taças de cristal com detalhes entalhados manualmente em ouro e mais uma infinidade de móveis e objetos que em um passado distante foram de propriedade de alguma família.

Objetos repletos de memórias, que resistiram ao tempo e à era do consumismo, e que hoje ocupam os cômodos do antiquário Casarão Antiguidades, localizado na quadra 17 da rua Saint Martin, e enchem os olhos dos que procuram relembrar o que ficou para trás.

Naquele casarão, cada passo é uma surpresa. Cada surpresa, uma curiosidade. Como se cada objeto ali tivesse o poder de dizer aos visitantes: ?Ouça, tenho algo a te contar!?.

O cheiro de naftalina ou mofo, típico das coisas antigas, não existe ali. É que antes de serem expostos à venda, as relíquias passam por uma restauração que tem como objetivo manter as características originais de cada peça. Mesmo assim, a imaginação permite sentir o cheiro reconfortante do passado.

Fotografias espalhadas pelos cômodos do Casarão reforçam a ideia de que os objetos ali localizados continuam ativos na construção da história. E é proposital. Os retratos são da família dos proprietários do antiquário, Angela Maria Santos Storniolo e Márcio Luiz Storniolo.

"Passo a maior parte do meu dia aqui. Por isso, faço questão de organizar os móveis como se formassem pequenos cômodos. Assim, me sinto em casa. O retrato das pessoas da minha família ajuda a compor o cenário", conta Angela.

Ela e o marido sempre foram apaixonados por antiguidades. Conheceram-se, inclusive, trabalhando em uma loja que misturava móveis usados com antigos. De funcionários, passaram a proprietários e, assim, optaram por focar o trabalho da loja nas relíquias. Estudaram restauração e se inseriram no negócio.

De lá para cá, passaram-se apenas 46 anos, mas, por meio de móveis e objetos, o casal já pode experimentar um pedacinho de épocas que já se foram há muito tempo.

"Cada objeto que chega até a loja é uma conquista. Para tê-los é preciso um extenso trabalho de garimpagem, participação em leilões, entre outros esforços. Às vezes, demora anos para conseguirmos o móvel que desejamos", explica.

Como foi o caso de um lustre remanescente do império francês, todo em bronze e cristal, adquirido há cerca de um mês e já vendido pelo valor de R$ 16 mil.

"O cliente estava esperando. Já procurávamos pela peça há um tempão e só agora a encontramos em um leilão. Além disso, saiu bem em conta, o valor real dela é em torno de R$ 25 mil", avalia.

Questão de identidade


Pense em uma geladeira fabricada no ano de 1947. Sim, aquelas com as formas arredondadas, portas coloridas em azul, amarelo, vermelho ou verde, e com o interior pequeno. Agora faça sua aposta: é possível uma geladeira desta época ainda estar funcionando a pleno vapor?

Se você respondeu que sim, acertou. Embora seja uma raridade, existe uma delas na área de lazer da casa do engenheiro civil Geraldo Mesquita.

"Funcionando com o motor original!", destaca ele.

A relíquia pertencia ao sogro do irmão de Geraldo. Foi adquirida em setembro de 1947 em virtude de seu casamento. Depois, passou para o irmão de Geraldo e funcionou por um bom tempo, até que, na época do apagão, o eletrodoméstico foi desligado de vez e substituído por um aparelho novo.

"A geladeira ficou parada por uns oito anos. Foi quando meu irmão decidiu mudar de casa e eu percebi que a geladeira seria abandonada. Como gosto muito de coisas antigas, resgatei a geladeira e investi em sua restauração", conta.

A primeira etapa foi desmontar o eletrodoméstico e cromar suas peças. A lataria foi encaminhada para um funileiro, que fez o trabalho de restauração e a pintou de preto. Ao todo, cerca de R$ 1.000,00 foram investidos para recuperar o eletrodoméstico.

"Mas valeu a pena. Tenho uma ligação muito grande e, por isso, tenho um carinho especial por essa geladeira. Hoje, ao lado de outras antiguidades, ela faz parte da minha área de lazer, o local da casa que gosto muito e posso relaxar", conta Geraldo, que fez questão de colocar um pinguin, desses que decoravam a casa da vovó, em cima do eletrodoméstico.


Moderno,
mas familiar


Quem não se lembra de entrar na cozinha da avó e dar de cara com uma geladeira vermelha ou azul, de forma arredondada, sempre recheada à espera de um assalto no meio da tarde? E daqueles fogões amarelos, com abas laterais? E das televisões, com aqueles tubos grandes e antenas que sempre precisavam ser ajustadas para sintonizar o canal favorito?

Bons tempos, não é mesmo? Hoje, os eletrodomésticos são bem diferentes. Os televisores são finíssimos e sem antenas. A sintonia dos canais é automática, nem precisa de esponjas de aço. São tão tecnológicos que há quem nem se atreva a apertar outro botão que não o vermelhinho, com função de ligar e desligar. As geladeiras, então, são capazes de fornecer água gelada sem que ao menos a pessoa se dê ao trabalho de abrir suas portas que, aliás, já passam de duas e são de aço inox.

"Hoje, é tudo muito prateado, muito frio, muito tecnológico", avalia o antropólogo Silvio Maximino.

Há quem não goste. Para esse público as empresas estão investindo em um outro tipo de design: o retrô.

A ideia é oferecer ao cliente toda a tecnologia dos produtos atuais, contudo, de uma forma que ele se sinta familiarizado com o produto.

"As pessoas precisam dessa proximidade, dessa identidade. As empresas enxergaram neste segmento retrô um grande filão e estão se aproveitando disso com interesses puramente comerciais", destaca Silvio.

Mas, confesse, é quase impossível resistir.


Restaurando o passado


Recompor pedaços que estão faltando, resgatar a cor original ou simplesmente dar uma cara moderna a um móvel do século passado. Este é o trabalho do restaurador de móveis Fernando Rosa, 34 anos.

Ele conheceu a profissão quando tinha 20 anos, ao visitar a oficina de restauração de um amigo, em Lençóis Paulista. Após passar dois meses por lá, descobriu que tinha talento para o negócio, e o melhor, gostava do oficio.

"Foi quando comecei a fazer este trabalho aqui. Hoje é muito comum ouvir falar em restauração de móveis antigos, mas nem sempre foi assim. Quando comecei, apenas pessoas mais velhas procuravam pelo serviço", conta Fernando.

Hoje, este cenário mudou. Atualmente, procuram pelo serviço pessoas de todas as idades, interessadas em recuperar um móvel pelos mais diversos motivos.

"Uns procuram pelo serviço por causa do valor sentimental que o móvel tem para a pessoa ou família; outros, por causa da qualidade da madeira; há ainda quem recorra ao serviço por moda", afirma.

De acordo com ele, boa parte de seus clientes prefere dar ao móvel antigo um ar de modernidade e, por isso, usam e abusam da pátina provençal, técnica que consiste em pintar o móvel de branco e depois desgastá-lo, deixando com alguns pontos mais escuros.

O trabalho, geralmente, leva de 20 a 30 dias para ficar pronto e custa, em média, R$ 500,00.


Que velho, que nada!


Da avó, para o pai. Do pai, para a cunhada. E, finalmente, da cunhada para o restaurador, rumo à casa de Flávia. Essa é a trajetória de uma cristaleira que hoje é o xodó de Flávia Florentino de Matos.

E pense bem: não é pouco tempo. Isso porque, de quando a cristaleira saiu das lojas até o momento, passaram-se, pelo menos, 70 anos.

"Minha avó a comprou quando se casou. Quando ela faleceu, meu pai ficou com o móvel. Ele tinha um ciúme danado dessa cristaleira. Era todo cheio de cuidados com ela. Do meu pai, a cristaleira passou para minha cunhada. Na época, eu queria muito ficar com ela, mas minha casa não tinha espaço suficiente. Agora, a situação se inverteu", conta Flávia, que acredita que, de uma forma ou de outra, um dia a relíquia ocuparia um lugar de destaque em sua casa.

O canto da cristaleira já está reservado, mas o móvel ainda não faz parte do cenário. É que por conta dos danos causados pelo tempo, foi necessária uma restauração.

"Pedi que o restaurador mantivesse a cor original da cristaleira e trocasse apenas os vidros. Prefiro mantê-la no original porque ela tem um grande valor sentimental para mim", justifica.

Mas não é só o valor sentimental de um móvel ou objeto antigo que chama a atenção de Flávia. Recentemente, em uma das visitas ao restaurador para conferir o andamento da obra em sua cristaleira, Flávia se deparou com um par de tronos antigos e não resistiu.

"Comprei na hora. Achei lindo, fascinante. Quando o restaurador chegou com o trono aqui em casa, meu marido quase surtou. Ele não gosta muito de móveis antigos. Então falei pra ele que era apenas um teste, pra ver se caía bem na decoração. Ele fingiu que acreditou", conta rindo, em tom de brincadeira.


Lembranças


Uma cristaleira de madeira escura e vidros trabalhados enfeita a sala de estar de Vera Lúcia Tozze Alves Neves. Nela, taças, jarros e outros objetos em prataria remetem a uma época que já se foi há muito tempo. Uma mesinha e uma cadeira, também antigas, ajudam a compor o cenário.

No quarto, um jogo de móveis da década de 50, com direito à cômoda, penteadeira, cabeceira e espelho, oferece mais uma oportunidade de viagem ao passado. Passado que, para a maioria dos jovens, pode parecer muito distante. Mas que, para Vera, ainda se faz presente.

A cristaleira, assim como a mesinha e a cadeira, foi comprada em uma loja de móveis antigos. Já parte do que está dentro dela, pertenceu à sogra de Vera, Celina Lourdes Alves Neves, mulher que modificou a cultura, o ensino e a política da cidade de Bauru.

"Ela gostava muitos de móveis e objetos antigos, da história que eles traziam com eles, e eu herdei isso dela", explica.

O jogo de quarto também tem valor sentimental. Pertenceu à madrinha de Vera, que vendeu a ela no início da década de 90 porque queria renovar os móveis da casa.

"Comprei por um valor simbólico. Hoje, esse jogo de quarto representa, para mim, uma parte de meu passado", conta, saudosa.

E é justamente a materialização de um passado tão bem vivido nos dias presentes que faz de Vera uma apaixonada por móveis e objetos antigos. Mesmo que estes móveis não tenham pertencido a nenhum conhecido.

"A madeira escura e maciça me dá segurança, conforto. O estilo colonial ou provençal me causa nostalgia e me faz reviver um tempo bom, do qual tenho muita saudade. Além disso, dá a sensação de individualidade. É diferente dos móveis de hoje, fabricados em série e com o frio material compensado", justifica.

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