A Drogaria São Paulo e a Drogaria Pacheco, do Rio, fizeram fusão para formar uma rede de 691 farmácias, com faturamento anual previsto de R$ 4,4 bilhões. Dias atrás já havia acontecido a mesma coisa com a Drogasil e Droga Raia, também resultando numa rede de 700 farmácias e faturamento de mais de quatro bilhões. Perdigão e Sadia se uniram formando a Brasil Foods, o segundo maior conglomerado de alimentos do Brasil. Pão de Açúcar, que tinha aumentado com a participação do sócio francês Casino, pretendeu ficar ainda maior comprando o Carrefour brasileiro, que acabou não dando certo. A Brahma, que se unira à Skol, comprou a Antarctica, formando a Ambev, que saiu comprando outras cervejarias e fez fusão com a belga Interbrew, produtora da cerveja Stella Artois, criando a InBev, e finalmente comprou a americana Anheuser-Busch, dona da cerveja Budweiser, para ocupar o lugar de maior cervejaria do mundo. A Nestlé continua com seu voraz apetite de empresas que se tornam sucesso. Ainda está na lembrança dos mais velhos o jingle: "É hora do lanche, que hora tão feliz, queremos biscoitos São Luis."! A empresa tinha iniciado com um sucesso enorme e foi abocanhada pela Nestlé. O depósito de Bauru ficava na esquina das ruas Antonio Alves e Inconfidência.
O que está por detrás dessa ânsia de gigantismo? Racionalidade ou megalomania? Existe toda uma teoria sobre a racionalidade econômica, procurando explicar como os indivíduos fazem as suas escolhas nas decisões econômicas. Sem a preocupação de teorizar podemos dizer o que até as pessoas de pouca instrução sabem: entre duas coisas de mesma qualidade, elas preferem comprar a que custa menos; entre coisas diferenciadas, preferem comprar aquela que é mais durável ou lhes agrada mais, mesmo sendo mais cara. O produtor prefere fazer o que lhe proporcione uma rentabilidade que compense o investimento, de maneira sustentável, e não ganhar muito e logo perder os clientes. Assim a racionalidade explica as fusões e aquisições de empresas, para ganharem escala e reduzirem custo. Isso, que já acontecia nos mercados locais, com indústrias e casas comerciais procurando dominar dentro da cidade, foi se expandindo pelas regiões, pelo país, por países vizinhos, para outros continentes e o mercado se tornou globalizado. Foi uma combinação da racionalidade com o desenvolvimento dos transportes e das comunicações.
Mas será que a motivação não vai além da racionalidade? Não será da mesma natureza da que criou os impérios e reinados que fizeram a história da humanidade? O desejo de poder, de conquista, de domínio? Não é por acaso que são usadas as mesmas expressões, chamando de império, rei e dinastia as empresas e empreendedores gigantes. Há empresários e investidores, como Warren Buffett, com 81 anos, com fortuna em torno de 50 bilhões de dólares e que não largam o osso. O nosso Eike Batista, presidente do Grupo EBX, que reúne várias empresas de mineração - MMX, energia - MPX, petróleo - OGX e logística - LLX - (Superporto do Açu), considerado o mais rico do Brasil, não faz segredo que ainda deseja sair na revista Forbes como o mais rico do mundo. Segundo ele, o "X" nos nomes de suas empresas significa "vezes". Sua ambição não se limita a somar, o que deseja é multiplicar.
Olhando pelo prisma da racionalidade, todos lucrariam com as fusões e aquisições, porque as empresas diminuiriam seus custos, os consumidores poderiam comprar mais barato e as empresas venderiam mais. Mas a ambição sem limites, o desejo de ter cada vez mais, dá origem a monopólios e cartéis, e os benefícios ficam somente com os investidores. Os governos precisam intervir para contê-los. Os Estados Unidos sempre estiveram à frente nessa corrida gananciosa e foi lá que surgiu a primeira lei antitruste, a Lei Sherman, em 1890. Aqui no Brasil nós temos o Cade - Conselho Administrativo de Defesa Econômica, que tem procurado controlar as fusões e aquisições, como o caso da compra da Chocolates Garoto pela Nestlé, em 2002, que até hoje não aprovada.
O autor, Pedro Grava Zanotelli, é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru e membro da ABLetras