Foi-se o tempo em que a compra de um veículo básico era capaz de satisfazer o bauruense. Com maior poder de compra, acesso ao crédito e a facilidades de pagamento, o consumidor sofisticou sua escolha e, agora, está optando por carros zero quilômetro mais bem equipados. Para se ter uma ideia da força desta tendência, especialistas apontam que ela foi a principal responsável pelo crescimento de 15% na arrecadação do Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores (IPVA) neste ano em Bauru, em comparação a 2010. O volume recorde já soma R$ 43,1 milhões até julho, ante os R$ 37,4 milhões contabilizados no mesmo período do ano passado.
Segundo concessionárias consultadas pela reportagem, a procura por automóveis zero quilômetro de padrão superior ao popular aumentou em 20% no último ano. Como conseqüência, este tipo de veículo já começa a faltar nas lojas, fenômeno há até pouco tempo verificado apenas com a denominada "linha de entrada".
A bancária Michele Gomes Moura, 28 anos, por exemplo, comprou um Focus motor 2.0, mas não pôde sair da revendedora dirigindo o novo carro. "Vou ter de esperar mais um dias", comenta ela, que deu seu Polo 1.6 como entrada e pagará os R$ 39 mil restantes em 48 vezes.
A troca por um modelo mais espaçoso, ela conta, foi necessária para abrigar com maior conforto o novo membro da família, seu bebê de nove meses. "Era o carro que eu queria, inclusive porque sempre viajo para visitar familiares. Vi que tinha condições de comprar e não pensei duas vezes", comenta ela.
Além do Focus Hatch, o Focus Sedan, o Fusion, o New Fiesta e o Ecosport estão entre os mais vendidos deste grupo de automóveis nas concessionárias Ford. Na Fiat, tem boa saída o Idea, o Siena e o Punto, e, na Volkswagen, Crossfox, Golf e Polo. Já da marca Chevrolet, o Astra e o Classic vem se tornando os preferidos dos consumidores.
"A principal prioridade dos clientes é comprar um carro que tenha motor superior a 1.0. Depois, de acordo com as condições de cada um, optam por vidro e trava elétricos, direção hidráulica e ar condicionado, nesta ordem", detalha Jorge Simão Neto, proprietário de uma concessionária de veículos em Bauru. De acordo com ele, o valor médio destes veículos mais sofisticados, mas que ainda não se inserem no segmento de luxo, é de R$ 50 mil a R$ 70 mil.
Classe média
O perfil de consumidor é formado por pessoas acima de 25 anos já estabilizadas profissionalmente, incluindo comerciantes e profissionais liberais como corretores de imóveis, engenheiros e advogados. "É um público formado essencialmente pela classe média, que está cada vez mais exigente. Quem ainda opta por veículos básicos geralmente está comprando o primeiro carro ou tinha um modelo muito antigo. Também tem o pai que vem comprar para o filho", comenta Ana Cristina Alves de Lima Ervilha, consultora de vendas de outra revendedora da cidade.
Ela revela que os modelos populares ainda continuam no topo do ranking de vendas, mas vem perdendo espaço, ano a ano, para os veículos com mais itens de série e motor 1.4, 1.6 e 2.0. "Esta é uma tendência que começou a ser percebida nas concessionárias há uns dois anos, mas que se intensificou em 2011", revela.
Resultado superou expectativas, diz secretário
A arrecadação recorde de Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores (IPVA) em Bauru superou as expectativas da Secretaria Municipal de Finanças, que acreditava em um crescimento de aproximadamente 6% em relação a 2010. O titular da pasta, Marcos Roberto Garcia, concorda que uma das explicações para os R$ 43,1 milhões já destinados aos cofres municipais seja a maior procura por veículos que fogem da linha popular.
"Realmente, estamos vendo nas ruas mais carros de um padrão superior. Com certeza, esta é uma variável que ajuda a explicar este aumento na arrecadação", comenta. Outro motivo apontado pelo secretário é a frota de Bauru, que saltou de 196,9 mil para 211,5 mil veículos no último ano, um crescimento de 7,4%. Vale lembrar, entretanto, que a comercialização de automóveis de padrão superior cresceu 20% no mesmo período, conforme apontam empresários do ramo.
O crescimento de 15% na arrecadação de IPVA se torna ainda mais surpreendente porque, em 2011, o custo do tributo ficou 7,2% mais barato ao consumidor do Estado de São Paulo. A redução foi provocada pela depreciação, em 2010, no valor de mercado dos veículos, que serve como base de cálculo para a alíquota.
Por este motivo, a expectativa da Secretaria Municipal de Finanças era de que o aumento na arrecadação não passasse de 6%. "Esperávamos que a expansão da frota compensasse essa perda, sem fazer uma leitura muito otimista. Não imaginávamos que o crescimento chegaria a 15%", aponta Garcia. Até o final do ano, a estimativa é de que os repasses de IPVA para Bauru alcancem R$ 51,8 milhões, ante os R$ 46 milhões arrecadados em todo 2010.
Fiscalização
Titular da Delegacia Regional Tributária, Luiz Gustavo Gomes dos Santos explica que a Secretaria de Estado da Fazenda aprimorou seus mecanismos de fiscalização a moradores de cidades paulistas, incluindo Bauru, que registram seus veículos fora do Estado. A estratégia é utilizada por motoristas para pagar menos Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores (IPVA), já a alíquota em Estados como Minas Gerais, Paraná e Mato Grosso do Sul costuma ser mais barata.
Por meio de novos programas de informática que permitem confrontar dados, a pasta teria conseguido minimizar as fraudes e, assim, colaborar para o aumento na arrecadação do imposto. "A gente verifica que o endereço residencial não é da mesma cidade onde o carro foi licenciado e o proprietário é obrigado a fazer um novo documento no município de origem. Mas o crescimento na arrecadação é motivado por uma série de fatores, que não apenas este", aponta o delegado.