Articulistas

A luz, os neutrinos e as novas formas de comunicação da ciência

Alberto Consolaro
| Tempo de leitura: 3 min

Meu avô diria que o apressado como cru, mas se considerarmos que muitas comidas são gostosas ao natural, não seria ruim saboreá-las. A ansiedade cada vez maior e a necessidade do rápido reconhecimento acadêmico e financeiro explicam a pressão dos pesquisadores sobre as revistas científicas. Na pós-idade média, os cientistas se reuniam periodicamente em algum país e comunicavam verbalmente seus progressos e desta forma nasceram as reuniões e congressos científicos. A popularização da forma impressa fez os congressos deixarem de ter importância científica para tornaram-se eventos sociais e comerciais. As comunicações científicas passaram às revistas científicas publicadas semanalmente. Antes da internet uma publicação científica demorava 1 a 2 anos, agora, 3 a 6 meses. As revistas mais importantes respondem aos autores em uma semana se os trabalhos enviados foram aceitos ou não. Quem não é da área científica pode perguntar: como as revistas escolhem o que publicarão? Cada uma tem consultores editoriais entre os quais, pelo menos três, examinam o trabalho e analisam criteriosamente os métodos e os resultados obtidos e interpretados. Se as análises forem concordantes, o trabalho será publicado. se rejeitado, envia-se para outra revista. O setor editorial atuaria como um filtro de controle de qualidade. A internet acelerou muito a comunicação e intensificou a necessidade de reconhecimento rápido das novas descobertas pela possibilidade de vazamentos e perda de competitividade para se obter patentes e marcas registradas. Algumas editoras criaram, há poucos anos, os chamados periódicos ou "revistas acadêmicas" abertas, nas quais se publica tudo, sem passar por um análise prévia do corpo de consultores. Desde que cumpridas as normas clássicas de escrever, será publicado disponibilizando-se o artigo a quem quiser via internet. As revistas clássicas estão preocupadas, pois certamente perdem artigos, leitores, assinantes e anunciantes.

Mais recentemente, os pesquisadores passaram a fazer anúncios de suas descobertas via internet em blogs, sites e entrevistas, antes de publicar formalmente seus trabalhos. A Nasa está sendo criticada por sistematicamente tornar públicas suas descobertas, com simulação e demonstração de resultados antes de publicar nas revistas científicas. Quando o trabalho sai publicado todo o impacto na opinião pública mundial já passou e o mercado editorial perde muito! Importantes pesquisadores questionam o papel das revistas científicas e as consideram fechadas e detentoras de um mercado limitado de informações como uma ditadura acadêmica. Cada vez mais se discute o papel das revistas científicas no contexto no sistema de produção científica mundial. Um fato destes últimos dias chama atenção. O resultado de um experimento realizado no Cern (Centro Europeu de Pesquisas Nucleares) foi comunicado à imprensa leiga e na internet sem qualquer análise prévia de consultores de qualquer revista científica. O mundo inteiro, e não só os cientistas, tomou conhecimento que partículas de neutrinos viajaram mais rapidamente que a velocidade da luz, apesar de Einstein ter afirmado que nada se move mais rápido do que ela. Depois de três dias, o Cern organizou uma entrevista coletiva via twitter e vídeo conferência com o líder do estudo Dario Autiero.

Na entrevista, Autiero foi muito questionado sobre os possíveis erros metodológicos e interpretativos. A maioria ficou satisfeita com as explicações, mas os físicos não! Um inglês perguntou: vocês não tem medo de passar ridículos caso descubram que erraram no método? Respondeu: temos alta confiança em nossos resultados, estamos ansiosos em compará-los com outros experimentos. No mínimo se demora um ano para novos experimentos e até lá será palavra contra palavra, mas o mundo inteiro hoje acredita que os cientistas europeus provaram que existe algo mais rápido que a luz. Os mais criteriosos, ainda perguntam: será? Ao ler uma informação científica, cada vez mais precisamos conhecer a origem, a fonte, o método e a coerência. As revistas científicas a cada dia perdem sua função de porta-voz da vanguarda do conhecimento. Novos parâmetros e paradigmas estão se estabelecendo na comunicação do mundo científico com a população acadêmica e leiga: a distinção entre ambas é cada vez mais difícil!


O autor, Alberto Consolaro, é professor titular da USP e colunista do JC


Comentários

Comentários