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Entrevista da semana: ?Sempre há tempo para recomeçar?

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 9 min

"Nunca desista ou deixe seu ideal escapar de suas mãos. Também é importante lembrar que a vida não é uma política onde você joga sujo e limpo em horas iguais e tempos diferentes", diz Fernando Muinõs, o Espanhol, quando indagado sobre qual mensagem gostaria de deixar em sua entrevista.

Nascido em São Paulo, Fernando veio para Bauru ainda jovem, onde se casou, teve dois filhos e montou seu primeiro bar - dos 19 que já teve. O apelido que o fez bastante conhecido é herança dos pais, que vieram da Espanha. Com mais de duas décadas de experiência no comando de bares de sucesso, foi fácil a marca "Bar do Espanhol" se espalhar e se fixar por Bauru e região.

Entre o sucesso e a fama também vieram os altos e baixos, os erros e os acertos, e a vida boêmia. "Aprender com os erros e jamais deixar de lutar é o segredo para quem deseja se reerguer. É o que procuro fazer ao lado de pessoas queridas. Muita gente me abandonou quando mais precisei, mas também sempre tive mãos amigas. É onde o Espanhol ressurge, cheio de alegria e com um bar lindo e maravilhoso", relata.

Com o trabalho atual ao lado do irmão Eduardo no bar Saudosa Maloca, Espanhol também fala, na entrevista a seguir, sobre seus projetos para o futuro.


Jornal da Cidade - Onde nasceu o "Espanhol"?
Fernando Muinõs - O apelido surgiu ainda na infância quando eu morava em São Paulo. Como os meus pais vieram da Espanha, o pessoal da minha rua me chamava de "o filho do espanhol" e, aos poucos, ficou apenas "Espanhol".


JC - Quais são as lembranças marcantes daquela época?
Espanhol -
Minha infância foi um pouco triste. Falo isso pensando na maneira como fui educado por meus pais. Na época, a educação era muito agressiva. Apanhávamos muito. Mas eu dou graças a Deus por tudo isso, porque, à maneira deles, realmente eu recebi educação.


JC - Por que a escolha de Bauru como a "sua cidade"?
Espanhol -
Eu comecei a vir para a cidade em 1982, quando conheci uma menina daqui. Tínhamos amigos em comum em São Paulo, cidade em que nos vimos pela primeira vez. Lembro-me que a conheci em uma festa de noivado de uma das irmãs de um amigo meu. Ficamos amigos na festa e ela me convidou a vir para Bauru. Nos correspondíamos por cartas e começamos a namorar. Era engraçado porque, para eu vir para Bauru, minha mãe precisava fazer uma autorização na rodoviária, já que eu ainda não era maior de idade. Então eu vinha a cada 30 ou 40 dias. Foi aquele primeiro amor, uma coisa diferente. Depois nos separamos, até pela idade, e depois de uns quatro anos voltamos a namorar e nos casamos.


JC - Então foi o amor que o trouxe a Bauru.
Espanhol -
É. Eu trabalhava em uma empresa de informática que tinha matriz em São Paulo. Ficava durante a semana lá e passava o fim de semana aqui. Fiquei um tempo assim até que fui mandado embora daquela empresa. E nisso, o avô da minha ex-mulher - hoje estamos divorciados -, tinha um bar no Higienópolis, o bar do "Zé Maneta", e decidiu vender o estabelecimento quando ficou doente. Eu e minha ex-mulher compramos o bar.


JC - Foi seu primeiro bar?
Espanhol -
Sim. Eu abria o bar às 5h para vender pão e leite e o bar só começa a ter movimento à tarde, depois das 17h. Eu precisava de grana para mantê-lo. Foi quando o JC abriu as portas para que eu vendesse salgadinhos para o pessoal, toda a tarde. E eu abri um "fiadinho" (risos). Quando eles chegavam para me pagar, no jornal, eu dizia que só receberia no bar. Assim, a clientela foi aumentando e o estabelecimento virou o "Bar do Espanhol". Os estudantes também começaram a frequentar e a gente fazia umas coisinhas diferentes para vender.


JC - E assim nasceu a marca "Bar do Espanhol"...
Espanhol -
Isso. Depois do Higienópolis, montei o bar na Duque de Caxias e um tempo depois na Getúlio Vargas. Mais tarde comprei a República do Espanhol e o Alecrim. Nesse meio tempo, entre a República e o Alecrim, eu comprei o Bar do Português junto com meu ex-cunhado. Depois disso tive uma crise financeira. Por "meios políticos", fecharam a Getúlio Vargas na quadra 11 e o Bar do Espanhol faliu, porque não podiam parar na frente do bar, coisas assim. Eu ainda era casado, e por todos os problemas que eu tinha com o alcoolismo, bebedeira... acabei perdendo, infelizmente, minha família, ou seja, veio o fim do meu casamento.


JC - Nessa época, além de dono de bar você também se entregou à boemia?
Espanhol -
Bastante. Tanto que o Espanhol era amigo, cliente, fornecedor e bebedor. Eu vivia diretamente com os clientes, tanto na parte comercial, quanto no lazer. Isso acabou atrapalhando minha vida matrimonial. Acho até que não fui o marido que minha ex-esposa precisava. Hoje, eu não bebo mais.


JC - Acredita ter feito amigos verdadeiros no "mundo da noite"?
Espanhol -
Amigos de longa data são as pessoas que realmente ajudaram o Espanhol. Não estou falando do Fernando, ele e o Espanhol são pessoas diferentes. O segundo é aquele cara do bar, que brinca, se diverte, serve o cliente bem. Agora, o Fernando em si, é uma pessoa que vive de amigos. Tenho muito a agradecer a esses amigos que me estenderam a mão e conviveram comigo nas horas difíceis e quando passei por problemas pessoais. Eles sabem que estou falando deles.


JC - Por que a "nota 10" para seus filhos?
Espanhol -
Não fui um pai exemplar como eles gostariam que eu tivesse sido, mas acredito que, hoje, depois de tudo o que passei, sou exemplo por mostrar como é a vida e que não é permitido desistir.


JC - A vida foi carrasca com você?
Espanhol -
Tem gente que hoje me diz: "Poxa, Espanhol, você estava bem e quebrou". Realmente, acho que no comércio há altos, baixos e ponto moderado, que é onde você vê exatamente o que quer e faz algumas mudanças. A marca "Bar do Espanhol" tem dois lados: a alegria e a desgraça. Do jeito que eu levo todo mundo para o meu bar, há o lado ruim que quer me tirar tudo. Se você tem dinheiro no bolso, pagar é muito fácil. Agora, se você não tem, eles também não deixam você ter para pagar. Eles vão tomando, tomando e tomando até o cara acabar. Isso já tentaram várias vezes comigo, mas não conseguem porque existe o lado bom Espanhol, o lado amigo, companheiro. Não importa o lugar em que estamos, os bons amigos acompanham. É onde o Espanhol ressurge, cheio de alegria e com um bar lindo e maravilhoso.


JC - Esse é o segredo?
Espanhol -
Para um bar dar certo é preciso haver sinergia. Hoje sou uma pessoa muito tranquila, centrada. E quem me ensinou isso foi meu irmão, Eduardo. Nós dividimos tarefas e, com isso, cuidamos dos clientes e, graças a Deus, estamos bem.


JC - Quais são as suas atividades atuais?
Espanhol -
Hoje eu trabalho com meu irmão no Saudosa Maloca. Meu irmão é uma pessoa maravilhosa. Tudo em família é mais fácil. Está vindo uma grande novidade e diferente por aqui, um negócio chamado "galinheiro". Uma novidade para os amigos. A ideia do bar é reverenciar os velhos amigos. Além de trabalhar com meu irmão, também ofereço consultoria para donos de bares em Bauru e em São Paulo.

JC - O comércio está no sangue?
Espanhol -
Fiz um ano de administração, mas meu negócio sempre foi o comércio. Meu pai teve sapataria durante muitos anos em São Paulo e, aos fins de semana, a família toda ajudava em um bar/restaurante de uma tia. Lidar com o público sempre foi o trabalho da família. Acredito que meu gosto pelo trabalho no comércio venha da infância.


JC - Imagino que o trabalho com bares também tenha rendido boas histórias?
Espanhol -
Ah, sim. O bar é legal por isso. Até hoje o Espanhol já teve 19 bares. Eu falo que já uni muitos casais, mas também já separei muitos outros. Histórias tenho tantas que fica difícil lembrar. Certa vez, em época de festa de Barretos, fechamos o bar e um cara todo paramentado, com chapéu, botas e cinturão, atravessou a Duque e não percebeu a porta de vidro, bateu com o rosto e quebrou o dente da frente. Acabou não indo para a festa, coitado. Mas tudo isso eu ainda quero contar em um livro.


JC - O livro é uma promessa?
Espanhol -
É um projeto para a aposentadoria. O título será: "Nada como ter um bar com quatro dedos". Vou explicar o porquê do título no fim do livro. As pessoas mais próximas já sabem. A intenção é mostrar que o importante é nunca desanimar na vida. Já morei dentro de carro, em posto de gasolina... Fiquei quase um ano sem lugar para dormir. Isso tudo depois do sucesso de todos os bares que já tive. Nessa época, muitos que se diziam amigos, não me estenderam a mão. Foi quando recomecei com um pequeno boteco - mais pela necessidade de ter um lugar para dormir -, parei de beber e me reergui. Teve uma época em que muitas pessoas diziam que eu era comédia na cidade. Então, tive a ideia de montar um bar com o nome de "Bar do Espanhol, a verdadeira divina comédia". Foi sucesso por três anos.


JC - Além do livro, outros planos para o futuro?
Espanhol -
Meu projeto futuro é morar na praia. Isso é um projeto de vida. Ter um canto sossegado e montar um "Espanhol" por lá. Mas, por enquanto, estou curtindo minha nova estrela, que é meu netinho Mateus, um presente em minha vida. Vivo para vê-lo crescer.


JC - Um arrependimento.
Espanhol -
Arrependo-me de não ter dado tanta alegria e atenção aos meus filhos como eu gostaria de ter feito. Eles não sabem o quanto eu os amo.


JC - Um grande acerto.
Espanhol -
A coisa mais certa que já fiz na vida foi ter parado de beber. Hoje sou uma pessoa mais centrada, responsável e vejo a vida corretamente, não como se tivesse bebido, com a visão sempre embaçada, devagar...


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Perfil

Nome:
Fernando Muinõs (Espanhol)

Idade:47 anos

Local de Nascimento:São Paulo

Signo:Câncer

Filhos:Fernanda e Lucas

Hobby:Golfe

Livro de cabeceira:"O Segredo do Sucesso"

Filme preferido:Aventura

Estilo musical predileto:Rock

Time:Palmeiras

Para quem dá nota 10:Para meus filhos

Para quem dá nota 0:Aos invejosos

E-mail:cachacariadoespanhol@hotmail.com


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