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Os defensores do mato e os padrastos da natureza

Marta Vieira Caputo
| Tempo de leitura: 3 min

No dia 2 de outubro do corrente, em artigo publicado na seção Opinião do Jornal da Cidade, o senhor Ricardo Coube, diretor-presidente do Grupo Tiliform, reacendeu a polêmica em torno da preservação da parcela bauruense do cerrado, defendendo de forma intransigente as ampliações da empresa que preside, fundamentando sua argumentação numa pesquisa da USP, cujo título e autor não menciona, mas que, segundo informa, trata da geologia do nosso solo com relação à proteção do Aquífero Guarani. A referida pesquisa que, como disse e repito, se desconhece título, autor e conteúdo, e, portanto, não pode ser examinada por todo aquele que se interesse pelo tema, foi utilizada pelo autor da missiva para fundamentar o descontentamento do deputado Pedro Tobias diante daquilo que ambos consideram um "mau uso da discussão sobre o cerrado". Afirmando que o deputado Pedro Tobias é contra o extremismo, o senhor Coube argumenta, em tom de reprimenda: "Agora é tudo proibido e a cidade perde para satisfazer os defensores do mato." (sic)

Relembrando as falas dos ambientalistas (os "defensores do mato", para o senhor Coube) que se pronunciaram durante a audiência pública que trouxe à baila os prós e contras relacionados ao relaxamento da Lei do Cerrado, não posso me esquecer que as in-tervenientes dessa questão não se debruçam unicamente na saúde do Aquífero Guarani, mas também na ameaça que a não preservação da parcela restante desse bioma representa também para o Aquífero Bauru, para a flora, para a fauna, para a qualidade do ar e do solo e, por conseguinte, para os seres humanos.

No momento em que a máscara do mito do crescimento econômico infinito começa a cair, em um cenário de recessão nos EUA e na Europa, causa espanto a dificuldade que empresários e políticos enfrentam para compreender que o sistema econômico não pode se expandir indefinidamente, pois os recursos do Planeta são finitos e a Terra não é um organismo em expansão.

Apegar-se aos preceitos capitalistas para fundamentar que só a economia nos trará a salvação social, a partir de um país tão rico em recursos naturais como o nosso, é procedimento por demais temerário. Primeiro, obviamente, porque colocamos em risco aquilo que desde antes do Brasil ser Brasil tem realmente nos sustentado: a água, o solo, as florestas, a biodiversidade. E, posteriormente, porque o capitalismo mostra os sinais de sua debilidade e os choques no sistema financeiro dos últimos anos, não me deixam mentir. O crescimento econômico, enquanto o mais importante objetivo político do mundo, mostra agora a sua verdadeira face de arlequim triste, em preto e branco, informando-nos que crédito é débito e que a esmagadora maioria da população trabalha apenas para saldar dívidas e pagar impostos, enquanto saúde, educação, segurança pública, cultura e lazer continuam itens de uma cesta básica capaz de existir... na Suíça. Afinal, neste país capitalista tais itens não são tratados como questões de mercado, mas administrados de forma socializada, para a integralidade de sua população.

A ladainha do crescimento econômico infinito está de tal forma cristalizada no ideário da-queles que acreditam estar conduzindo a sociedade pelo melhor caminho que tal qual um padrasto autoritário e onipotente, políticos e empresários de mentalidade anacrônica recusam-se a enxergar as múltiplas oportunidades econômicas que a preservação de nossos biomas pode nos proporcionar.


A autora, Marta Vieira Caputo, é coordenadora acadêmica do Fórum Empresarial de Responsabilidade Social e Sustentabilidade de Bauru

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