Bairros

?Bairristas sim, e com muita honra?, diz morador orgulhoso

Neto del Hoyo
| Tempo de leitura: 9 min

Pra entender um pouco da história do Parque Vista Alegre é preciso compreender antes a origem do nome de um dos bairros mais antigos da cidade.

De acordo com o historiador Luciano Dias Pires, responsável pelo Bauru Ilustrado, suplemento mensal do JC, o nome do bairro remete ao seu posicionamento referente à cidade. “Vista Alegre foi um nome utilizado para representar a vista privilegiada que se tem de Bauru nessa localidade, uma das mais altas do município”, diz.

Essa região pertenceu a uma das mais tradicionais famílias bauruenses. Aos 56 anos, Paulo César Madureira conta com riqueza de detalhes o processo de fundação do que chama de sua “terra”. Sobrinho-neto de Joaquim Rodrigues Madureira, ele cresceu, casou-se e constituiu família na mesma casa que um dia foi de propriedade de seus avós.

E é com orgulho que afirma ser um dos poucos bauruenses que nunca carregou um caminhão de mudanças. “Daqui nunca saí e nunca vou sair. Aliás, daqui só se for para o Saudade (risos)”.

Representante da família pioneira, ele conta que a fundação do bairro veio após negociação de Nicola Avalone Junior, o “Nicolinha”, prefeito da cidade de1956 a 1959, e seu tio-avô, que virou padrasto de seu pai após o falecimento do avô legítimo em Portugal. “O Vista Alegre foi o primeiro bairro projetado de Bauru, e teve início na verdade como uma espécie de condomínio, onde a prefeitura construiu as casas e sorteou. Aos poucos, o pessoal ia pagando. Era uma espécie de programa como esses do Governo Federal”, conta.

Para ele foi essa tentativa de loteamento que acabou fazendo do Vista Alegre o bairro mais difícil de se andar em Bauru. “É só pegar um mapa e você já vai ver. Onde estiver um monte de alamedas saindo de um lado para o outro, sem toda aquela divisão equilibrada, você estará olhando para o Vista Alegre. Achar no mapa, pelo menos, é fácil”.

 


Carona no ‘linhão’


Nas inúmeras histórias guardadas com carinho e contadas em detalhes, Paulo César destaca a importância da passagem da linha de energia elétrica da Companhia Paulista (CPFL) ainda nos primeiros anos do PVA. “Isso não sei se realmente foi verídico, mas o que sei é que passaram um ‘linhão’ para levar energia até a fábrica da Brahma (cervejaria) em Agudos, e o bairro se aproveitou disso. Isso era muito difícil na época, e acabou ajudando na consolidação da região”.

A análise é mais uma das milhares de curiosidades do bairro, e um dos tantos causos contados pelos moradores mais antigos que se orgulham das conquistas do PVA. Nas palavras de Paulo César, ex-jogador, técnico e diretor do Parquinho FC, não restam dúvidas do orgulho de seus moradores. “Se defender o bairro e as entidades que levam o nome do Vista Alegre é ser bairrista, então somos sim, e com toda honra”.

 

‘Quem não conhece o Bar do Mauro...’

Nas décadas de 70 e 80, três bares localizados na quadra 7 da rua Floresta configuravam o “point” da época. “Ficaram uns 15 anos por ali e acabaram transformando o lugar em um ponto muito violento. Mas da mesma forma acabou trazendo a fama para a região que ficou reconhecida por ter bons bares”, conta Paulo César Madureira.

A fama a que se referem os moradores foi herdada pelo Bar do Mauro. “O bom vista-alegrense que não passou pelo Bar do Mauro, não é um bom vista-alegrense”, destaca Paulo César.

Segundo o próprio dono do estabelecimento que leva seu nome, “até os cachorros sabem onde fica o bar mais famoso do Vista Alegre”.

“Me lembro do dia certinho em que abri o primeiro bar, na quadra 3 da alameda Cônego Aníbal Difrancia. Foi em 17 de setembro de 1970, em um prédio alugado. Depois consegui juntar um dinheirinho e construí na quadra 5 da mesma rua, onde estou até hoje”, conta Mauro Devides, 83 anos, 51 deles “de balcão”.

Hoje Mauro é auxiliado pelo filho, Lúcio Mauro Devides, de 39 anos. “Vivi aqui no bairro e não tem um que não conheça o Bar do Mauro”, diz.

A fama e o reconhecimento, segundo o próprio dono, é simples de ser compreendida: “Além do carinho que temos com todos do bairro e da identificação com o Vista Alegre, é aqui no Bar do Mauro que está a cerveja mais gelada de Bauru” (risos).

 

‘Uma família que sempre foi unida’

Junto com o Parquinho FC, a escola de samba Acadêmicos da Cartola é considerada um dos grandes símbolos esportivo-culturais do Parque Vista Alegre. Pouca gente sabe, mas a escola do azul e branco não nasceu no bairro e apenas dois anos após sua fundação é que, de fato, foi incorporada pela região.

“O Grêmio Recreativo Escola de Samba Acadêmicos da Cartola nasceu na Vila Cárdia, em 1977. Dois anos depois, um dos jogadores do Parquinho que fazia parte da escola de samba, convidou o time para um desfile. Foi uma coisa engraçada, eram uns 80 homens desfilando. Mas o pessoal gostou da ideia e foi aí que assumimos a escola de samba. Enquanto o Parquinho encampou, o Vista Alegre adotou a Cartola”, conta Pasqual Storniolo, diretor da escola desde 1982 e na presidência desde 1992.

A história do presidente, aliás, se confunde com a da própria agremiação. Nascido em Ibitinga (90 quilômetros de Bauru), Pasqual também foi “adotado” pelo Parque Vista Alegre. “Quando mudei para Bauru, em janeiro de 1975, vim morar no Vista Alegre e aqui construí minha vida. Frequentávamos o Bauru Atlético Clube (BAC), que tinha grandes Carnavais, e fui pegando gosto pela festa e pelo samba. Depois acabamos assumindo a Cartola que, junto com o Parquinho, são amostras do carinho e do orgulho que os moradores tem dessa região. Para uma Escola ou um time ser grande, é preciso que se construa uma família e que esta seja muito unida”.

A união é exemplificada pelo morador na relação de amizade com Paulo Madureira. Enquanto vereador, Madureira convidou Storniolo para ser assessor e chefe de gabinete, cargo que exerceu por dois anos. “Ele (Paulo) é como um grande irmão. Nossa relação é tão próxima que ele é padrinho do meu filho que, em sua homenagem, recebeu o nome de Paulo César. Foi a primeira pessoa com quem tive uma amizade sólida na cidade”, diz.

Mas as semelhanças e a relação da escola de samba com o time de futebol não param por aí. Assim como o Parquinho, a Cartola acumula status de grande campeã. São nove títulos no Carnaval bauruense, sendo que, antes da parada de oito anos dos desfiles, levou o caneco por seis vezes consecutivas. “Tanto o Parquinho quanto a Cartola são agremiações a serem batidas. Mas ninguém nunca vai superar”.

 

“Orgulho do Parque

“Se a cidade tem o Noroeste, o PVA tem o Parquinho”. É dessa forma que Valdecir Novaes da Silva, o “Branco”, há 12 anos ocupando o cargo de presidente do Parquinho Futebol Clube define o time do bairro.

Maior campeão do futebol amador de Bauru com 14 títulos - 9 pela Liga Bauruense e 5 pela extinta Liga Regional -, o clube que já teve até torcida organizada – a Carinhosa – também foi tema de Carnaval da escola de samba local (leia mais abaixo).

O “Orgulho do Parque”, como ficou conhecido, impõe respeito. Na Liga Regional sagrou-se bi-campeão em 2002/03. Pela Liga Bauruense foi o campeão da década de 80, com o tetracampeonato em 1987/88/89/90 o tri em 1983/84/85 e o bi em 1979/80. Pelas duas Ligas, seus 14 títulos estão longe de serem alcançados pelo Fortaleza, que tem 7. O outro time que poderia ameaçar o Parquinho está ainda mais distante disso. Trata-se do Noroeste, que tem nove conquistas no amador.

“Sempre existiu uma rivalidade com o Noroeste. Tem gente que não sabe, mas o Parquinho já disputou a 3ª Divisão do Paulista em 1986, quando não perdemos um jogo sequer, ficamos em terceiro lugar mas não subimos porque o campeonato não foi validado”, lamenta Branco.

A relação do time com o bairro vem antes mesmo de sua fundação, em 15 de novembro de 1967. Paulo César Madureira conta que existia uma certa rivalidade entre dois grupos: a turma de baixo, do time dos Madureira, e a turma de cima, que se reunia para jogar em um campo ao lado de um parquinho infantil. “Era uma rivalidade incrível, mas só conseguiram subir depois que se juntaram. E muita gente acha que o nome do time é Parquinho porque vem de Parque Vista Alegre, mas não é. Tentaram vários nomes mas de todo jeito todo mundo falava: ‘vamos jogar lá no parquinho’, e aí pegou”.

A relação da família Madureira com o futebol do bairro fica ainda mais evidente com a participação de Luiz Olavo Madureira, irmão de Paulo César e zagueiro central do time, que sagrou-se nove vezes campeão como titular do Parquinho. “É o maior campeão do futebol amador de Bauru”, ressalta o presidente da equipe atestando: “E era bom de bola”.

 

Casa do Garoto virou sinônimo de respeito

Em uma das poucas alamedas que não têm o nome de flor se encontra um dos maiores orgulhos do PVA. Na altura da quadra 12 da alameda Cônego Aníbal Difrancia, ao lado da Paróquia Nossa Senhora das Graças, está a Casa do Garoto. A instituição que faz parte do programa da Congregação Rogacionista da Igreja Católica atende hoje cerca de 500 crianças, adolescentes e jovens com atividades culturais, esportivas, artísticas e educacionais no sistema de contra-turno. “Nosso trabalho teve início como forma de internato, depois passou a semi-internato e, há uns quatro anos, foi modificado para atender crianças e jovens no período oposto aos estudos”, explica Elisabeth Aparecida Nardo Baio, assistente social da entidade.

Assim como a fundação do próprio bairro Vista Alegre, a viabilização da Casa do Garoto foi uma iniciativa do ex-prefeito Nicolinha. “Me lembro de ter assistido junto ao Nicolinha o filme ‘O Bom Pastor’ (1944, EUA) que falava de uma espécie de internato para garotos. Foi quando ele afirmou que iria lutar bastante para que Bauru também tivesse um lugar como aquele”, afirma o historiador Luciano Dias Pires.

Além dos 500 atendimentos diretos, a Casa do Garoto também oferece suporte às famílias das crianças e adolescentes, totalizando por volta de 1.200 pessoas assistidas. “Temos muita relação com o Vista Alegre. Enquanto oferecemos esse serviço para a comunidade, temos o respaldo de todos que sempre estão aptos para ajudar e fazer o bem. A Casa do Garoto virou sinônimo de respeito”, afirma Elisabeth.

 

 

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