Vida familiar de dedicação ao comércio
O trabalho passado de geração a geração. Foi na quadra 1 da rua Batista de Carvalho, ainda no tempo do "fio do bigode" e das contas mensais anotadas em cadernetas, que Juarez Vieira Sampaio aprendeu, com o pai, suas primeiras lições práticas do comércio.
Tradicional e uma das lojas que sobreviveram às mudanças do tempo e do comércio, a Casa Sampaio ainda é referência em ferragens. "Tudo começou em outubro de 1936. No início, a Casa vendia de tudo. Como essas lojas de departamento de hoje", lembra Juarez.
Sempre atuante no comércio, o entrevistado aponta alguns aspectos das mudanças ocorridas ao longo das décadas. "Antes existiam balcões onde os clientes chegavam e pediam as mercadorias. Hoje, as pessoas pegam e olham os produtos que já estão com os preços, independente do tipo de loja. Quando meu pai fundou a Sampaio, havia apenas três lojas de ferragens, hoje são 14 estabelecimentos desse tipo. A forma de pagamento também mudou muito. Não existia crediários e, cartões, nem pensar".
E também aponta o que nunca deve mudar no relacionamento entre o comerciante e o cliente. "Cortesia é algo que nunca pode faltar, principalmente no atendimento. O calor humano também é muito importante".
Amante dos cães, Juarez foi um dos fundadores do Bauru Kennel Club (BKC) e ganhou muitos prêmios ao lado do rottweiler "Grimmer". Para eternizar a história da família, o comerciante criou o www.sampaio75anos.com.br, site que em breve dará origem a um livro.
Jornal da Cidade - São 75 anos de Casa Sampaio. Como teve origem a história de um dos mais tradicionais estabelecimentos comerciais de Bauru?
Juarez Vieira Sampaio - Meu pai chegou na cidade por volta de 1923 para trabalhar na antiga Casa Lusitana, aos 19 anos de idade. Mostrou-se competente e, em 1936, saiu para montar seu próprio negócio. Isso aconteceu no dia 1 de outubro de 1936. No início, a Casa vendia de tudo. Guardadas as proporções, seria como essas lojas de departamento de hoje. No início, o prédio era alugado. Depois ele o comprou e foi construindo o patrimônio.
JC - E quanto ao Supermercado Sampaio?
Juarez - Antigamente a loja era chamada de armazém, depois secos e molhados e, por fim, supermercado. Na época, as pessoas gastavam, por exemplo, R$1.500,00, pagavam apenas mil e deixavam o restante para o próximo mês, o que fazia a conta aumentar cada vez mais. Meu pai não suportava mais aquilo. Então, ele foi para São Paulo e viu como funcionavam os supermercados. Foi quando surgiu o Supermercado Sampaio, por volta de 1966. O supermercado funcionava na parte de baixo do prédio e a ferragem ficava em cima.
JC - Quando você passou a dirigir a Casa Sampaio?
Juarez - Quando meu pai morreu. Eu acho que posso dizer que, aos olhos do meu pai, eu era o príncipe herdeiro. Digo isso pelas atribuições que ele me dava. Eu me mostrava interessado pelos negócios da família. Quando ele fez a primeira cirurgia, por exemplo, ele me deu uma procuração, assinada pelos outros dois sócios da época. Quando eu via a procuração, percebi que havia sido feita há dois anos, mas ele não me disse que ela existia. Ele era um homem ao estilo antigo. O que a mão esquerda fazia, a direita não sabia. Coisas assim eram comuns. Como éramos em seis irmãos, ele era muito preocupado em não fazer diferenças. Se ele comprava camisas, todas eram iguais, mudava apenas a cor. O mesmo acontecia com doces, todos eram do mesmo tipo e tamanho.
JC - O senhor chegou a montar outra loja há alguns anos, certo?
Juarez - Em torno de 1988, eu percebi que meu "astral" para os negócios não estava batendo com o pensamento dos meus irmãos. Foi quando eu decidi sair do negócio. Montei uma loja parecida em frente a Casa Sampaio. Foi com muito trabalho, mas o negócio foi para frente. Toda vez que a loja abre eu estou aqui, não peço para os funcionários abrirem para eu ficar em casa. Como as lojas eram uma em frente da outra, as brigas eram grandes. Descobri que eles estavam com dívidas e estavam em uma situação difícil. Foi quando me ofereceram a Casa e eu voltei, sem eles. Na minha saída da firma, demorou para meu nome sair da razão social e, por causa disso, os fatos ocorridos após a minha saída podem ser interpretados como seu eu também fosse responsável. Vez ou outra preciso provar que eu não devo porque não estava na firma, na época. Dessa forma, tenho uma assessoria jurídica que me ajuda a provar que eu não devo.
JC - Ao longo de todos esses anos, quais são as mudanças mais perceptíveis no relacionamento entre o cliente e o comerciante?
Juarez - A criação do ramo dos supermercados mudou totalmente o atendimento do varejo. Ele proporcionou o autoatendimento. Antes existiam balcões onde os clientes chegavam e pediam as mercadorias. Hoje, as pessoas pegam e olham os produtos que já estão com os preços, independente do tipo de loja. Quando meu pai fundou a loja, havia apenas três casas de ferragens, hoje são 14 estabelecimentos desse tipo. A forma de pagamento também mudou muito. Não havia crediários e, cartões, nem pensar.
JC - O que nunca pode mudar nesse relacionamento?
Juarez - Cortesia é algo que nunca pode faltar, principalmente no atendimento. O calor humano também é muito importante, pena que o proprietário nem sempre pode estar em contato direto com os clientes, pela demanda das vendas.
JC - Seu filho também tem o comércio nas veias?
Juarez - Estou passando a gerência da loja para meu filho. Ele já tem alguns anos de trabalho comigo e tem se mostrado bastante competente e responsável. Tento transmitir meus ensinamentos para ele de uma forma diferente do meu pai. Meu pai tinha seis filhos e não havia meia palavra para ele. Ele era rígido e nunca elogiou um filho, diretamente. Ele falava coisas elogiosas sobre a gente, mas para outras pessoas e não para nós. Mas foi o tempo em que ele viveu. Ele aprendeu que era assim. Sou formado em técnico de contabilidade e economia, mas não tenho dúvidas de que boa parte do que eu sei, aprendi com meu pai na prática. Meu filho tem o perfil diferente e eu acho que eu pude dar liberdade para ele, o que foi melhor para os dois, já que a relação tem mais carinho. Quanto à educação, eu acho que se você castiga o erro com severidade, muitas vezes você inibe a criatividade das pessoas. Ele precisa aprender com o erro para seguir em frente. A liberdade possibilidade que a pessoa crie responsabilidades.
JC - Já tem planos para quando o filho assumir os negócios?
Juarez - Vou poder diminuir meu ritmo de trabalho. Para você ter ideia, faz 20 anos que não tiro férias. Viajar mesmo só nos livros (risos). Fora do Brasil, eu conheço apenas a América do Sul. Mas é difícil sair totalmente, isso precisa ser feito aos poucos. Com meu filho no comando, eu também vou ter mais tempo para me dedicar aos esportes. Há uns 25 anos eu faço ginástica regularmente. Também vou poder ter mais tempo para o Bauru Kennel Club (BKC).
JC - E quando nasceu essa paixão por cachorros?
Juarez - Tudo começou em 1975 quando eu fui morar em uma chácara que nós tínhamos. Por questão de segurança, eu precisava de cachorros. Gosto de começar tudo certo, então fui até São Paulo comprar uma cachorra da raça pastor alemão. Um colega meu, companheiro de Tiro de Guerra, tinha interesse em montar um clube em Bauru. Só havia uma veterinária na cidade, hoje, só de clínicas há mais de 100. Fizemos uma festa e inauguramos o Bauru Kennel Club (BKC) na chácara. A maior parte dos cães era de pastor alemão, mas abrimos o BKC também para outras raças e começamos a nos reunir todos os domingos para adestramento. Fiz um grande círculo de amizade nessa época com as pessoas que frequentavam o Clube. Durante uns oito anos, mais ou menos, nos reuníamos na chácara. Hoje a sede é na loja. A criação tomou um rumo diferente do que era no passado e funciona como um cartório, para registrar um canil, cão...
JC - Chegou a ganhar prêmios com a criação?
Juarez - Hoje tenho um rottweiler, já velhinho. Ele é filho de um outro cão que foi o melhor cachorro que eu tive, o "Grimmer". Ganhamos muitos prêmios juntos em exposições especializadas. Ele foi por várias vezes "campeão" e "grande campeão nacional". Só faltou ser "grande vencedor nacional", caso ganhasse em três estados diferentes. Mas eu senti que o pessoal, em Bauru, não valorizava esse tipo de competição. Parei. Tenho vontade de voltar, mas quem sabe com uma raça diferente, de menor porte.
JC - De onde surgiu a ideia do site www.sampaio75anos.com.br?
Juarez - No site eu conto a história da loja e da minha família para não deixar que as muitas histórias se percam. Uma história interessante da minha família é de um trisavô, que abre a história dos Ferraz, que teve 43 filhos, com quatro mulheres. Minha avó era a de número 42. Uma tia contava que, para contar uma história, um Ferraz era capaz de diminuir o feito para ser exato e correto. Já um Sampaio era o contrário (risos). Então são histórias e mais histórias reunidas.
JC - O site vai virar livro?
Juarez - Sim. O livro em papel será especialmente feito para os mais velhos, que preferem o papel ao computador.
Perfil
Nome: Juarez Vieira Sampaio
Idade: 68 anos
Local de Nascimento: Bauru
Signo: Virgem
Esposa/Marido: Maria Thereza
Filhos: José Ferraz Sampaio Neto
Hobby: Bauru Kennel Club (BKC)
Livro de cabeceira: Pretendo fazer a leitura completa da Bíblia e da obra de Max Weber
Filme preferido: "Dança com lobos"
Estilo musical predileto: MPB
Time: São Paulo
Para quem dá nota 10: Para minha esposa
Para quem dá nota 0: Para os políticos corruptos
E-mail: sampaio@sampaiotem.com.br/ www.sampaio75anos.com.br