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A blindagem dos poderosos

Pedro Grava Zanotelli
| Tempo de leitura: 3 min

Não é um desabafo, nem protesto e, menos ainda, qualquer sentimento contra os que têm poder. Não é também a blindagem de escritórios e veículos usados por autoridades e pessoas ricas, contra ataques de desafetos ou de assaltantes. É apenas uma reflexão sobre um fato tão antigo quanto a humanidade e que nos dias de hoje provoca uma repercussão maior, devido à divulgação instantânea por todo o globo e por contradizer muitos dos avanços até aqui conseguidos. Principalmente por estes.

Dos povos primitivos e nômades da Ásia, África e Europa, que foram formando a linha de evolução da humanidade, passando pelos gregos e romanos até a formação dos Estados considerados civilizados dos tempos atuais, uma característica se manteve inalterada ? em toda dificuldade abrangente os que são menos atingidos são os detentores de poder, qualquer que seja a forma: político, econômico ou ideológico.

A crise financeira iniciada nos Estados Unidos, cujo marco de referência é a quebra do grande banco Lehman Brothers, em 2008, teve conseqüências que perduram até hoje. Nos EUA foram milhões de pessoas que perderam emprego e casa ao mesmo tempo. Muitos desempregados, que também ficaram sem teto, estão acampando nos arredores das grandes cidades. O governo está fornecendo barracas a eles para que os acampamentos não fiquem semelhantes às nossas favelas. As empresas, principalmente as montadoras de veículos, fizeram demissão em massa. Estudo da OIT afirma que mais de 20 milhões de empregos foram perdidos desde 2008 e que hoje há 200 milhões de desempregados no planeta. Os executivos das empresas ficaram na berlinda, devido aos altos bônus que recebiam, tanto que muitas fizeram planos de revisão e mesmo de extinção dos bônus.

Comentário do Correio do Brasil de 14-9-11: "Três anos depois, tudo se passa como se a maior crise do capitalismo desde 29 não tivesse origem, nem causas. Ou melhor, como se a sua causa fossem Estados fiscalmente destroçados no socorro aos mercados que agora, de própria voz, ou através de seu dispositivo midiático, cobram austeridade, cortes de gastos e juros escorchantes para financiar o déficit público." Clóvis Rossi, na Folha de 25-9-11 escreve: "....a explosão da dívida privada aumentou de 50% para 70% do PIB, entre 1999 e o início da crise em 2007. Os governos, ao contrário, reduziram sua dívida. Quem mais se endividou, escreve Paul De Grauwe, professor da Universidade de Louvain (Bélgica), foi a banca. O crescimento da dívida bancária na zona do euro chegou a superar 250% do PIB em 2007. Com a crise, a dívida privada foi estatizada, inclusive grande parte da dívida bancária. Quando a crise amainou, os mercados apunhalaram os benfeitores pelas costas, ao cobrar juros obscenos para rolar a dívida. Os governos, acovardados, entoaram então o cantochão do "corta, corta, corta", como se fizesse sentido combater a anemia econômica com a redução dos gastos."

O corte de gastos na Grécia e outros países da zona do euro, e também nos Estados Unidos, combinado com o aumento de impostos, vem provocando protestos da população obreira, que não tem culpa pela crise e é a mais atingida pelos cortes e sangria dos impostos. Os bancos, mais uma vez estão protegidos. E protegidos estão os poderosos nos negócios e nos governos. Os executivos das empresas que se saíram bem, porque na crise sempre há os que quebram e os que melhoram, continuam com os seus bônus garantidos. A revista Exame (21-9-11), em matéria sobre a Shell, relata que a remuneração de seu presidente mundial Peter Voser, em 2010, foi de 5,4 milhões de euros (cerca de 12,4 milhões de reais). Aqui no Brasil, senadores, deputados, vereadores e juízes vão garantindo os seus aumentos, enquanto professores, bombeiros, funcionários, bancários, carteiros etc. ficam se desgastando perante a população com as suas greves intermináveis. Dos aposentados do INSS, então, nem se fale, porque nem greve dá pra fazer.

O autor, Pedro Grava Zanotelli, é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru e membro da ABLetras.

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