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O legado de Steve Jobs

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Com a morte de Steve Jobs, criador da Apple, há quem pense que o século XXI já terminou. Depois do iPod, iPhone, iPad seria difícil inventar coisas diferentes, a não ser para melhorar o que já está no mercado. Em junho deste ano, antes de morrer Jobs declarava ter resolvido o problema da armazenagem de bilhões de imagens, músicas e aplicativos. Chamou de iCloud ("nuvem") os potentes servidores "guardados nas estrelas", certamente, que garantirão ao consumidor jamais perder os seus arquivos. "Quero deixar uma marca no Universo" ? decretou o divino. Filósofos conservadores não veem sentido humanístico na obra de Jobs, em um mundo em crise e com tanta gente desempregada nos Estados Unidos e na Europa. Por ironia, "job" é trabalho, em inglês. Ainda impregnados do velho marxismo, os humanistas verberam contra a transformação dos homens em apêndices das máquinas, em engrenagens supérfluas do poder dominante. Jobs teria sido, apenas, mais um Thomas Alva Edison turbinado, a serviço da dominação capitalista.

O filósofo frankfurtiano Theodor Adorno (1909-1969), pelo qual passam, obrigatoriamente, os jornalistas na sua formação, cunhou o termo "indústria cultural" ao redimensionar o modo como o Ocidente enxerga a relação entre o capitalismo, sociedade e cultura (Dialética do Esclarecimento, 1947). Ele lembrava que muita gente esfregou as mãos de satisfação com o afundamento do Titanic, a poderosa máquina que representava a última palavra em avanço tecnológico no início do século passado. Representaria o fracasso das invenções movidas pelo capital. Pelo contrário, ensinava Adorno, a tragédia resultou em novos avanços. Começaram a construir navios de casco duplo e compartimentos totalmente estanques, de modo a minimizar os efeitos de rompimentos das estruturas abaixo do nível da água. Intérprete de Adorno, o professor de filosofia Marcos Nobre assinala que "O progresso, tal como cristalizado socialmente, corrige suas falhas com mais progresso. Isso porque "progresso" é sinal de progresso técnico, de progresso de conhecimento e das habilidades humanas para dominar processos naturais e sociais". No entanto, a sociedade de homens, mulheres e gays livres, dentro do espírito iluminista, ainda é uma utopia. O que existe é o progresso técnico. Que não está ao que se propala, a serviço da felicidade, mas a serviço da própria técnica. E, como tal, a serviço da ordem vigente. Adorno também concordava que o progresso técnico resulta em mais submissão e conformismo. Enquanto nos empenhamos para aprender o emprego das novas tecnologias, a cada semana com uma novidade diferente, os políticos se divertem com suas Ong?s criadas para desviar o dinheiro público. Dizem que a "Primavera Árabe" nasceu no Facebook ao incitar à mobilização popular para derrubar ditadores há décadas no poder. Nada impediu que os inimigos do povo fossem caçados como ratazanas prenhes nos buracos onde se esconderam. Alá não tem nada a ver com isso. A teoria crítica de Adorno vai contra os princípios de emancipação de Marx, mas ele mesmo ressalvava que suas teses não eram imutáveis e deveriam ser exercitadas e renovadas permanentemente.

O iPad, em sua segunda versão anunciada por Jobs no ano passado já vendeu 20 milhões de unidades, como se Gutenberg tivesse voltado para anunciar um novo modo de imprimir letras e assim, decretasse a recriação do mercado de livros, revistas e jornais. O iPod, que reinventou a indústria fonográfica em 2001, caiu em desuso. Computadores de mão, ou notebooks, de acesso fácil à internet, hoje são vendidos somente em países tecnologicamente defasados, como o Brasil. Lançadas como "máquinas do futuro" em 2009 os notebooks sumiram antes mesmo de os consumidores saberem do que se tratava. A morte de Steve Jobs de câncer no pâncreas, aos 56 anos, pode representar mais um Titanic que se foi. Quem sabe, se tivesse dedicado todo o seu gênio inventivo ao tratamento das doenças que a Ciência e a Medicina ainda não foram capazes de curar, o próprio Jobs poderia ainda estar neste mundo criando maquinetas maravilhosas. Falta mais progresso técnico dedicado ao alívio das nossas dores e misérias. É verdade que as novas tecnologias servirão, em muito, para melhorar a parafernália usada na Medicina terapêutica. O problema que Adorno colocava é que o progresso molda-se a uma realidade estranha ao homem, incapaz de instaurar o verdadeiro sentido humano que a razão nos cobra há séculos.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC

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