Qual é a sua fórmula para crescer como ser humano e como profissional? Antônio Alliberty de Castro, o Toninho da Omnigráfica, como é conhecido em Bauru, herdou o segredo do pai, Antônio Alves de Castro, que saiu de Portugal e veio para o Brasil sozinho, com apenas 16 anos de idade. "Lá, ele sofria preconceito e decidiu vir para o Brasil. Sozinho, como poderia crescer? A resposta estava em criar um grupo de amizades de gente que ajuda a crescer. Ele me ensinou que você cresce quando ajuda os outros a crescer. É como uma rede do bem", crê Toninho.
Com a opinião sempre formada, seja qual for o assunto, Toninho é diretor da empresa da família, onde trabalha desde os 13 anos de idade. Com sua experiência, ele acredita que o trabalho é capaz de ajudar os jovens a ter e a respeitar os limites, algo que, segundo ele, está se perdendo atualmente e provocando uma série de mudanças negativas na sociedade, como o aumento da criminalidade, por exemplo.
E o que o entrevistado de hoje faz para se divertir? "Quando se fala em trabalho, a cultura nacional logo pensa em algo pesado. Trabalho é para se divertir. Trabalhe em algo que você goste, faça bem feito e divirta-se. Ao contrário, você não vive bem".
Além do trabalho, a prática de esportes radicais "faz a cabeça" do empresário, cuja vida e pensamentos você conhece um pouco mais a seguir.
Jornal da Cidade - Você acredita conhecer alguns segredos da vida?
Antônio Alliberty de Castro (Toninho) - No meu entender, uma pessoa cresce como ser humano e como profissional se ela for honesta, gostar de aprender e de buscar coisas novas na vida, além de analisar a sua própria existência. Eu li, há pouco tempo, um texto de Steve Jobs onde ele dizia que o grande inventor é aquele que consegue colocar um produto para você sobre o qual você sequer imaginaria que iria precisar e, quando você o pega nas mãos, descobre que não consegue ficar sem ele. E como é que você consegue "ter" alguém que gosta? É mostrando a ela que você é legal e que gosta dela. E como é que você vai crescer na vida? Conquistando mais pessoas e ajudando-as também a crescer. Dessa forma, você cria uma rede do bem. Todos crescem quando um ajuda o outro. Essa foi uma lição que aprendi com meu pai.
JC - Essas lágrimas escondidas no canto dos olhos mostram que você se orgulha de seu pai!
Toninho - Meu pai, Antônio Alves de Castro, saiu de Portugal aos 16 anos de idade e veio sozinho para o Brasil. Ele nasceu em 1919 e faleceu em 1997. Naquela época, onde a comunicação era lenta, imagine um menino pegar um navio, viajar sozinho e chegar ao Rio de Janeiro sem ao menos conhecer a cara da tia que o estaria esperando. Ele saiu da cidade dele porque era filho de mãe solteira e tinha cicatrizes por ter se queimado. Então, para as pessoas daquela cidade pequena e preconceituosa, ele era filho de prostituta e deformado, e decidiu vir para cá. Meu pai era um autodidata. Ele estudou pouco, mas lia muito livros. E como ele veio sozinho, como ele poderia crescer? A resposta estava em conhecer muitas pessoas e criar um grupo de amizades de gente que ajuda a crescer. Isso aconteceu comigo quando morei nos Estados Unidos.
JC - Precisou aprender a se virar?
Toninho - Eu sou filho único e meu pai me fez morar nos Estados Unidos por 10 meses. Fiquei em uma cidade do Colorado com cerca de mil habitantes. Minha chegada foi até cômica (risos). Tudo deu errado. Cheguei ao aeroporto de Miami sozinho, isso porque fui mais tarde que o grupo do qual eu faria parte porque decidi prestar vestibular, e por sinal não passei. Bem, chegando lá, eu não sabia falar inglês, quase perdi o voo para Denver, não fosse um barraco que uma moça do guichê fez no portão de entrada para que o avião, que já estava saindo, voltasse para o portão. Aí entra um magrelão perdido e todo mundo me olhando (risos). Chegando em Denver, deram-me uma placa para colocar no peito com os dizeres: "não fala inglês". Só faltou aquele chapeuzinho de burro (risos). E chegando na cidade de destino, o aeroporto era como o do Aeroclube de Bauru, mas estava nevando muito e eu calçava umas botas de cowboy porque a cidade era cercada de fazendas. Pisei no chão e, ao dar o primeiro passo, caí (risos). Já no rancho da minha família hospedeira, acabei dormindo no sofá de cansaço por causa de uma música relaxante de um programa de TV, nem ao menos conheci meu quarto.
JC - Custou a se adaptar?
Toninho - E como! Os primeiros sete dias foram horríveis. Eu escrevia cartas chorando. Tenho a primeira que escrevi para meu pai, ela veio com gostas de lágrimas. E para ficar lá, eu tive de aprender a falar inglês e a criar amizades. Usei o raciocínio de que ajudando as pessoas com foco em crescimento, todos crescem e se divertem, também. O que acontece é que o brasileiro separa demais a diversão do trabalho. Quando se fala em trabalho, a cultura nacional logo pensa em algo pesado. Trabalho é para se divertir. Trabalhe em algo que você goste, faça bem feito e divirta-se. Ao contrário, você não vive bem.
JC - E como é trabalhar desde o início da adolescência?
Toninho - Eu comecei a trabalhar na Omnigráfica aos 13 anos de idade. Meu pai me perguntou se eu queria uma mesada ou um salário. Com o salário, eu teria de me virar com minhas contas, mas teria mais dinheiro que os meus amigos. Aquilo me pareceu uma boa coisa (risos). Fazia serviços de cobrança, banco, limpeza... Na época, era possível contratar menor de idade. E quando voltei dos Estados Unidos, eu prometi para mim e para meus pais que eu passaria no vestibular. Passei em engenharia mecânica e administração. Levei os dois cursos por seis meses, mas optei pela engenharia.
JC - Você acredita que o trabalho é uma saída para a boa formação do adolescente?
Toninho - Essa é uma discussão pesada. Há dois lados com duas razões. Percebo, hoje, que as pessoas estão crescendo sem a noção do limite, ou seja, o egoísmo faz com que as pessoas passem por cima umas das outras. E isso está acontecendo muito. O trabalho ajuda nessa questão dos limites. As leis fazem com que os limites sejam seguidos. Você vê o caso atual da USP, por exemplo, onde os alunos estão desafiando a tudo e a todos. É por falta de limites que a criminalidade aumenta, os jovens consomem drogas... Muitas vezes, o adolescente não tem pessoas vivendo com ele no "ajudar a crescer", tirando-o daquele abismo. Ou então, ele sempre espera que alguém faça por ele e esquece que ele é quem precisa fazer por si mesmo. Eu aprendi isso com meu pai. Eu nasci em berço confortável, mas ele me ensinou como conseguiu tudo sozinho. E tenho isso comigo, sempre.
JC - Você cita mudanças nas relações de trabalho ao longo dos anos...
Toninho - Meu pai fundou a Omnigráfica em 1960. Ele vendia em Brasília de perua Kombi por estradas de terra. Ele sempre foi um excelente vendedor. Hoje, muitos fabricantes estão apenas preocupados em vender e colocar dinheiro no bolso e não em adquirir qualidade para agregar valor ao produto e para que o dinheiro que o cliente gastou valha a pena. Existem muitas malandragens que o capitalismo trouxe para o ramo empresarial.
JC - Muitas pedras no caminho?
Toninho - A mais recente é conviver com a doença de minha mãe, que está com Alzheimer. Esta é uma doença complicada e difícil de lidar. Estou aprendendo muito sobre o assunto. Outro momento difícil que passei foi quando meu pai faleceu por causa de um câncer. Perdê-lo foi muito difícil. Ele era o alicerce da casa. Profissionalmente falando, quando saí da faculdade, eu tive problemas com a Omnigráfica. Eu assumi a empresa querendo fazer certo com os raciocínios que eu aprendi na faculdade. A época era de inflação alta e de mudanças e como eu e meu pai não sabíamos fazer contas de margem de lucros, a empresa quase quebrou em 1994. Meu pai chamou um consultor, fizemos muitas mudanças, vendemos algumas coisas, pagamos as contas e aprendi a trabalhar bem. Somos uma das primeiras empresas a vender telefone celular, máquinas de escrever, impressoras... Pioneira em móveis e equipamentos empresariais, hoje a empresa cresce no segmento de terceirização de impressão.
JC - Além de se divertir com o trabalho, sei que você gosta de esportes radicais.
Toninho - Eu gosto muito. Aos 6 anos de idade, eu tinha problemas de garganta e ficava gripado muito facilmente. Meu pai comprou uma casa de um amigo em Caraguatatuba. Ele sabia que se eu fizesse gargarejos com a água e vivesse em um ambiente melhor, eu iria melhorar e aumentar minha resistência. Então, eu passava minhas férias todas lá. Apaixonei-me pelo mar e pelas pancadas das ondas grandes. Depois, fui voar de planador, já que Bauru tem o melhor aeroclube do Brasil. Voei por um tempo, estou até com saudades porque faz um tempo que não vou para os ares. Também gosto muito de nadar com meus filhos. É uma brincadeira gostosa, a água deixa você solto.
JC - O mergulho é outra paixão?
Toninho - Sempre gostei do mar, e falando sobre mergulho com amigos, decidi fazer um curso. Mergulhei muito na região de Ubatuba e também na minha lua de mel em Cozumel, no México, um dos lugares mais bonitos que eu já vi. Mas há muitos lugares que ainda quero mergulhar. Meu filho fez mergulho na piscina e agora quer fazer o curso. Estou esperando minha filha ficar mais velha para a família toda mergulhar.
JC - Muitas histórias nessas aventuras?
Toninho - Tenho histórias deliciosas de voo, como passeios de cinco horas lá em cima... Eu saía do planador com os joelhos duros. No alto é muito frio e eu, bobão, subia de bermuda e camiseta (risos). Em Cozumel, eu mergulhei em uma barreira de corais. Fiquei submerso a 35 metros só vendo o paredão com peixes, plantas... Uma paisagem sem igual. Teve um momento em que eu estava distraído vendo os peixes pequenos e um enorme veio e me deu uma bordoada... Muito legal.
JC - A família tem o hábito de viajar?
Toninho - Sim, mas agora minha mãe está doente e não podemos sair muito. O próximo destino será a Disney com as crianças. Agora, uma viagem que não esqueço foi quando eu tinha 6 anos de idade. Quando minha avó faleceu, meu pai recebeu terras portuguesas de herança com plantação de uvas. Mas como ele tinha raiva do lugar, pelo preconceito que viveu, ele vendeu e decidiu torrar o dinheiro em viagens pela Europa. Passamos quatro meses apenas viajando. Meu pai foi um homem incrível (risos).
Perfil
Nome:
Antônio Alliberty de Castro
Idade:
49 anos
Local de Nascimento:
Bauru
Signo:
Gêmeos
Esposa:
Ana Cláudia
Filhos:
Pedro Henrique e Anita
Hobby:
Mergulhar, voar de planador e nadar com meus filhos
Livro de cabeceira:
"On the Road", de Jack Kerouac, e "Educando filhos com amor e limites", de Diane Levy
Filme preferido:
"Corrente do bem", "Terminal" e "À espera de um milagre"
Estilo musical predileto:
Rock
Time:
Corinthians
Para quem dá nota 10:
Para todas as pessoas honestas que se dedicam a crescer na vida com conhecimento e ajudando os outros a crescer
também
Para quem dá nota 0:
Aos desonestos e egoístas
E-mail:
toninho@omnigrafica.com.br