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O fio perigoso das coisas

Luis Paulo Domingues
| Tempo de leitura: 4 min

O clima estava esquentando. Eram casados há quase 1 ano e, até aquele momento, o casamento era uma maravilha. Aquele era o primeiro impasse. Durante o namoro, de maneira extraordinária, correu tudo bem. Nunca brigaram. Enfim, era o casal perfeito. Mariana tomou a palavra e falou alto: "-Eu NÃO vou pegar a caixa de frutas. Daqui a pouco chega o pessoal, seus amigos é que pediram pra fazer batida, nós (as mulheres) é que vamos fazer e, no mínimo, você VAI pegar a caixa de frutas."

Diego largou os discos de vinil que trouxera da casa do Jaime e falou meio manso. Manso, mas mais pro alterado. "-Bem, eu estou fazendo a lista das músicas que vão tocar na festa! Você está aí, parada... vai você." "- Não! Não vou! Quem vai é você! Deixa que eu fico escolhendo as músicas! Eu também quero escolher." "

- Não! Você não sabe escolher."

"-Por isso eu escolhi você como marido."

"- Não, amor! Tô falando de música."

"- Como assim... eu não sei escolher música!? Por acaso eu não ouço o mesmo tipo de som que você?"

"- Ouve! Mas ouve axé também... pagode... sertanejo universitário!!!"

"- Eu não ouço isso!"

"- Ouve! Na festa da Carmen você até dançou sertanejo universitário. Todo mundo viu."

"- Mas eu estava bêbada. Aí não conta."

"- Não conta por quê?"

"- Porque eu não sabia o que estava fazendo."

De repente, do nada, Diego baixou a voz e disse:

"- Tá bom, então eu vou."

Isso mudou tudo. Quem garante que se Diego não tivesse dito aquilo eles não começariam a engrossar mais e mais um com o outro, até que tudo acabaria em um monte de brigas insuportáveis e em um divórcio insuportável e com os dois não se suportando?

O fato de Diego ceder tão inesperadamente transformou o semblante da Mariana imediatamente. Ela teve uma reação que era a mistura exata entre a vergonha e o encantamento. Também imediatamente, como já era de se esperar, quis agir de acordo com uma espécie de convenção social ou cultural que (não sei por quê) entendemos como normal: ela também quis ceder em alguma coisa para não ficar atrás na disputa. Mas não se tratava de uma guerra. Era um casamento. Ela conseguiu enxergar isso por um instante.

Aquele delicado ponto de equilíbrio, aquele momento tão inapreensível, tão sem matéria, tão abstrato e espiritual, poderia ser um marco do sucesso da vida a dois. O câncer das intrigas, do ódio mútuo, da falta de altruísmo, da ausência de cuidado com o outro, a ausência de disposição para demonstrar carinho... Tudo isso poderia ficar longe daquela casa. Diego disse o seguinte:

"- Eu estava esperando este dia acontecer. Na verdade eu pedia pra que isso acontecesse. Porque eu tinha muito medo da minha reação. Tinha medo de querer marcar meu terreno, de sentir necessidade de impor alguma coisa. Eu já tive atitudes esclerosadas antes, com outras pessoas, mas não queria ter com você. Agora eu sei que é possível dar certo porque você é uma pessoa inteligente e vai saber continuar esse movimento de concordar. Porque é muito melhor viver assim. As pessoas é que não experimentam, por falta de vontade ou por ignorância. Faça o seguinte, então: eu vou pegar as frutas e você fica escolhendo as músicas." Diego foi caminhando até a porta, pegou a chave do carro e disse:

"-Ah! E eu não acho que você não sabe escolher as músicas. Nunca achei isso. Sempre gostei do seu estilo." Mariana, então, teve um surto de consciência e sentou no sofá, tremendo. Também já havia pensado em como seria aquele momento. Jamais esperara aquilo. Mesmo sabendo que amava Diego, percebeu que aquele era um momento crucial. Muito mais crucial do que poderia conceber, quando pensou sobre a possibilidade de uma briga. Porque agora, a partir daquele momento, ele a tinha em uma corrente. Ela estava presa pra sempre. Nunca mais se livraria daquela concessão. Só restava a ela aceitar o destino. Ela só tinha uma opção: ficar com ele e bem. Daqui para sempre, acontecesse o que fosse, ele era o legal, ela não, ou nem tanto. Mariana chorou e pensou:

"- Que sacana!"

Crônica sobre os relacionamentos modernos.

O autor, Luís Paulo Domingues, é articulista do JC

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