As chamadas relações consensuais, em que o casal opta por morar junto sem a necessidade de formalização em cartório, ainda não são maioria, mas crescem a passos largos em todo o País. Ao invés do registro civil ou bênção no altar, homens e mulheres cada vez mais optam por uma vida conjugal informal, conforme apontou na última semana o mais recente levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A realidade nacional é confirmada em Bauru, segundo cartórios consultados.
O estudo, dentro dos dados relativos ao Censo 2010, aponta que a união informal, em todo País, saltou de 28,6% - índice de dez anos atrás - para 36,4% na pesquisa mais recente. Na região Sudeste, o percentual é de 31%.
O crescimento de 7,8% em comparação com o ano 2000 faz com que as uniões consensuais sejam responsáveis por um terço das relações conjugais no País. Em Bauru, de acordo com a assessoria de imprensa do IBGE, os números estão em fase de levantamento, com previsão de divulgação apenas a partir do primeiro trimestre de 2012.
Levado em conta o índice médio de crescimento desse tipo de união estável no Brasil, em comparação proporcional com os índices apurados pelo IBGE na cidade ainda no Censo de 2000, a tendência também é de crescimento.
Dez anos atrás, o percentual de cônjuges sem registro civil ou celebrações religiosas oficiais estava na casa de 22% contra 59% de casamentos sacramentados em igreja e lavrados em cartório. Pessoas unidas apenas pelo timbre da certidão estavam na faixa de 17% e cônjuges apenas com as bênçãos religiosas integravam menos de 1%.
Num contingente de 30 mil pessoas comprometidas e dividindo o teto com o par afetivo em Bauru, dez anos atrás, levado em consideração o índice nacional do Censo 2010, seriam mais 2,3 mil pessoas envolvidas em uniões informais na cidade atualmente.
As razões para optarem em não assinar termos legais ou subir ao altar são diversas. Entretanto, para boa parte dos casais, a vontade de estar junto não os encoraja, necessariamente, a encarar despesas, consideras altas tanto no matrimônio religioso quanto para o crivo do tabelião.
Mesmo assim, apesar de não atrair mais tantos casais, a formalidade não é mais sinônimo de casamento. Na contramão do crescimento das uniões casuais, os casamentos com igreja e papel passado, também de acordo com o Censo 2010, caíram de 49,4% para 42,9%, em todo o Brasil.
Gastar não é amar
Colocar a mão no bolso não representa, necessariamente, sentimento. Essa é a análise da socióloga Loriza Lacerda de Almeida. Professora do Departamento de Ciências Humanas na Unesp de Bauru, ela considera a gangorra apontando aumento no número de uniões consensuais e queda nas uniões tradicionais um reflexo tanto da situação econômica da maioria dos casais quanto da própria mudança de comportamento da população, menos atrelada aos timbres e chancelas oficiais.
“Antigamente os casamentos tinham uma carga de hipocrisia muito grande”, observa. “Hoje, o que mais interessa é o afeto, o que de fato mantém as relações, o elo verdadeiro”, aprova.
Outro fator citado pela socióloga é a presença da mulher em igualdade de condições no mercado de trabalho. Para Loriza, antigamente, era muito maior a quantidade de vínculos matrimoniais mantidos apenas por dependência econômica. Hoje, para ela, apenas a afetividade mantém, de fato, os elos conjugais, com ou sem papel passado.
“Casar com tudo oficial está caro, assim como separar”, acentua ela, acreditando num novo perfil para as uniões duradouras. “Até mesmo pela ausência de burocracia ou altos custos, poderemos ter, no futuro, mais relações conjugais duradouras, fruto dessas uniões contemporâneas”, observa.
Esse é justamente o perfil do casal Eremilson, de 33 anos, e Josimara, de 30, Juntos há dez anos. Ele, que é mecânico, e ela, que trabalha como diarista, resolveram oficializar uma relação de dez anos.
Após todo esse tempo, com direito à chegada dos filhos - uma menina de 11 anos e um garoto de 5 -, com a certeza da vontade de ambos em selar o matrimônio oficialmente em ambos os aspectos, eles decidiram pelo casamento tradicional, com direito a bolo e tudo. “Fizemos a questão de tudo. Depois de todo esse tempo, virou a realização de um sonho”, comemora Josimara.
Entre os que continuam na informalidade, o casal Valéria Aparecida dos Santos e Adriano de Jesus Santos mostram outro perfil apontado pela socióloga, ao elencar marido e mulher que aguardam uma definição verdadeira de onde poderá chegar a relação longe do cartório ou igreja.
“Nós estamos há oito anos juntos”, contabiliza a dona-de casa Valéria. Morávamos em São Paulo e nos mudamos para cá. Nesse tempo, ficamos um ano separados, mas retomamos”, justifica.
“Queremos casar, pelo menos no cartório, mas ainda não é possível”, argumenta ela, que considera os trâmites para o registro da união matrimonial além do orçamento do casal.
|
|
