Tribuna do Leitor

O homem que não gosta de mulheres


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Foi no momento em que essas palavras se debatiam na minha mente que eu resolvi compartilhá-las com quem acredita em uma coisa muito rara de se encontrar hoje em dia: a-mi-za-de! Agora eu peço: se você tem algum tipo de repúdio sobre homens e mulheres que optam por se relacionarem com pessoas do mesmo sexo ou se você acredita que eles não podem viver na mesma sociedade em que você vive, a sua leitura acaba aqui. Volte ao seu mundo. Não vou dizer que sou a favor nem contra a homossexualidade, nem vamos transcender sobre teorias, dogmas e escrituras religiosas, porque não é esse o propósito do texto. Eu prezo e defendo a tese de que todos devem procurar a felicidade.

Ok, vamos lá? Eu o conheço há cerca de 10 anos. Até hoje lembro que eu, com meus 13 anos, o chamava para jogar futebol na rua, mas ele gostava de ler, de estudar, de assistir filmes, seriados e de brincar com as meninas que moravam em sua rua. No ensino médio, ele paquerava as meninas, mas alguns garotos sempre colocavam apelidinhos constrangedores nele. Todos os anos era a mesma coisa. Não vejo motivos para aquelas crianças serem tão malvadas. Creio que isso é resultado do que se ouve dentro de casa, dos pais, da televisão.

Naquela época, não havia Internet. Acredite, sobrevivemos. O tempo passou e todos daquele círculo de amizades já tiveram seus primeiros relacionamentos. E até praticamente ontem, o então taxado de virgem por todos era realmente virgem. Quando mais jovem, eu acreditava que o "problema" era que ele não tinha "conhecido" uma mulher e que se isso acontecesse ele, enfim, se encontraria.  Não com o que de fato deveria, com a realidade e a verdade que ele sempre buscava, mas sim com o que nós queríamos que ele fosse.

A igreja evangélica da qual ele fazia parte foi o pilar que o manteve firme atrás de uma mentira que ele mesmo criou para fugir de si mesmo por vários anos. Principalmente com o medo de não ser aceito. Um refúgio por querer ser "igual" a todos. Afinal, se considerar o único diferente diante todos com que se convive não é fácil. Ainda mais para uma criança que está em fase de crescimento e amadurecimento. Aceitar o que de fato nós somos nem sempre é fácil.

Precisa-se de tempo e ajuda. Lembro como se fosse ontem ele querendo conversar comigo, dizendo que o assunto era sério e que era uma novidade que eu deveria saber. Fui, e na calçada eu o ouvi dizer: "Mano, não é fácil dizer isso, mas eu confio em você e preciso dizer isso: Eu sou gay!". Sim, eu tive uma crise de risos. Eu não me aguentei de tanto rir. Foi engraçado justamente porque para mim, não era novidade alguma. Eu já sabia! O problema era o medo da aceitação, de ser visto com outros olhos, de perder os amigos e não ser aceito pelo que ele é. A amizade está acima disso. Não vejo nenhuma mudança. Ele continua sendo um grande amigo, um bom irmão, um excelente filho e mantém o mesmo caráter correto que sempre teve.

Ah, a única diferença é que ele gosta de meninos. Em determinado momento da minha vida, eu julguei  pessoas sem antes mesmo conhecê-las. Errei! Mas ali, naquela noite, eu aprendi uma lição muito valiosa. Ser "homem" de verdade nada tem a ver com masculinidade, virilidade ou o fato de se relacionar com uma mulher. Não! Isso se mede pelas ações, pelo caráter, pela forma e a coragem com que se encaram as dificuldades que encontramos pelo caminho. Eu prezo, valorizo, admiro e tenho muito orgulho de tê-lo como um amigo-irmão. Ok, ele é gay, mas ele é muito mais homem do que muitos heteros que eu vejo por aí! É isso!


Bruno Freitas - jornalista bauruense

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